16 de outubro de 2009

Rajadas a 360

Os primeiros pingos de chuva
anunciavam a calma antes da tempestade,
e o seu formato fino e singelo
podia ser visto, por vezes,
em feixes de luz solar.

O vento, que antes nada fazia
a não ser pontilhar o chão de asfalto esburacado
com gotas de água solvente,
em uma perfeita diagonal,
agora aumentava seu ego com o crescente sucesso,
e menosprezava toda a tempestade por vir.
A chuva, numa indolência inevitável
em seu conflito regional,
aumentava suas gotas
e diminuía sua temperatura,
fazendo com que o vento fosse nada mais
que um agonizante na peça pregada.
Logo, as duas forças incolores
e sem odor se provocavam mais,
com o objetivo de arrastar
a maior quantidade de coisas no caminho,
causando dor.
Com a chuva jorrando forte
e as rajadas a vários quilômetros por minuto,
todo o existente ia se extinguindo,
e a cada instante mais civilização ia sumindo.
Sumindo a ponto de ir embora para não voltar,
para se deteriorar em algum centímetro quadrado
daquela expansão universal.
Em pouco, também não havia mais
o que iluminar, e o sol, derrotado,
virou-se de costas para algum outro lugar.
Eventualmente, a peça armada
foi delatada, e acabou por cessar.
Mas, no fim, não havia mais luz ou nada,
nesse nada.

7 de outubro de 2009

Maria Cheia de Garra

Com um bipe, as portas do elevador se abriram e Maria se deparava com um saguão cheio de gente à espera. O saguão do hotel, por mais luxuoso e suntuoso que fosse, já tinha sua beleza material esgotada aos olhos da menina. Os imensos lustres de cristal aspirante a diamante iluminavam todos os móveis de madeira nobre e sofás com estofamento de pele de elefante embaixo. O chão, de um mármore frio e reluzente, já não brilhava tanto às solas dos sapatos de Maria como já haviam brilhado. Tudo aquilo já não lhe era novo.

Maria já não distinguia o cheiro desse hotel e o calor daquela gente fazia tempo, mas conforme andava em direção à recepção para assinar sua diária de saída, fazia gestos agradáveis e um tanto automáticos aos funcionários que a cumprimentavam pelo caminho, e ao chegar ao balcão, ainda disfarçava uma gentil conversa com o recepcionista que há anos conhecia.

Ela havia passado a noite ali, naquele hotel, por uma mera falha elétrica que ocorrera no seu próprio quarto, em sua casa, no dia anterior. O interruptor de luz havia explodido e o problema fora muito complicado para ser resolvido imediatamente. Com isso, optou por passar a noite no hotel, que mesmo já lhe servia como uma segunda casa, a ter de enfrentar mais algumas horas sem iluminação.

No entanto, apesar de todo o bom humor que Maria esbanjava sua pressa para sair dali não poderia ser maior, e ela papeava com o recepcionista em tom de extrema angústia. Não agüentava mais aquele hotel ou aquela rua, e tinha milhões de coisas para fazer em casa, coisas importantes...

Já tendo feito o check-out, Maria ia andando pomposamente para a porta giratória do cinco-estrelas, esperando a normalidade dos olhares que a atingiam. Ao sair, ajeitou os cabelos em um movimento rápido e agendado, e respirou fundo. Ela era alta, magra no ponto, com cabelos loiro-avermelhados muito longos e sedosos, a pele branca e lisa como veludo. Seus olhos de um azul intenso combinavam com as suas unhas vermelho vivo. Maria era linda e, como previsto, atraia o olhar de todos que desciam aquela calçada.

Logo em frente à fachada do hotel, estacionada do lado oposto da rua, estava uma limusine: a limusine na qual Maria deveria estar. Ela andava caprichosa mas rapidamente em direção à ela, e não esperava que nada a atrapalhasse nesta reta final. Passou pela baía do hotel e já estava atravessando a rua quando percebeu que um menino sentava em frente à porta do seu carro.

Indignada, Maria já chegou à limusine expulsando a criança delicadamente. Mas o menino só encarava Maria; não falava e menos agia. Maria pediu novamente ao menino para que saísse, e ele nada fez a não ser balançar a cabeça negativamente.

“Então você quer dinheiro, é isso?”, Maria perguntou, desafiando a criança, “pois isso eu não tenho.”

“Eu quero comida, senhora”, o menino pediu pela primeira vez, com a cara mais triste.

“Pois isso eu também não tenho”, Maria retrucou impacientemente, “agora, saia, por favor.”

A criança continuou a encarar Maria em um misto de tristeza e fúria, e continuava não querendo sair da frente. E Maria, negligente, agachou-se num impulso desajeitado, e puxou a criança pelos braços. O menino chorava e esperneava, berrando. Implorava por comida e gritava, dizendo que sabia que Maria a tinha por causa da limusine. Maria ignorou todos os apelos com sua pressa e indiferença, colocou o menino sentado no meio-fio e entrou no carro.

­ ­ ­ ­ ­ Mas, incrível assim como o menino, Maria debulhou-se em lágrimas volumosas na medida em que o carro andava, chorando desesperadamente. Seu remorso por ter feito aquilo era imenso; afinal, com toda a confusão, sua unha havia quebrado.

15 de setembro de 2009

Linha 758

A curva era muito fechada e estreita
para esse ônibus imenso, daquele tamanho,
que não conseguiria passar ali, ainda mais naquele horário,
às seis da tarde, com a avenida apinhada de carros.

Mas o motorista insistia em viajar por ali,
para chegar o quanto antes à padaria.
Se intrometeu, com um ar presunçoso,
no meio da já confusão de carro e caminhão,
abusando de sua condição.

O ônibus avançava com extrema dificuldade
e, por vezes, buzinas eram escutadas, vindas do nada,
reclamando de tudo e todos naquele lugar.

Com um baque, o inevitável aconteceu,
e o primeiro pequeno carro foi carregado
pelo tal motorista e seu ônibus fragmentado.

E, com este acidente previsto,
vários outros foram tomando espaço,
até que aquela pequena curva, tão querida e disputada,
tinha se virado contra todos num caos incontrolável.

Num segundo, caminhões esmagavam carros que,
por sua vez, caçavam lambretas e,
conforme o motorista, desesperado,
tentava se contrair para fora desta orgia,
os passageiros, em multidão,
puxavam a corda por toda a extensão,
emitindo aquele conhecido som de abandono,
sempre para longe dessa curva, dessa superlotação.

10 de setembro de 2009

1º de Abril!

O elevador subia o mais lento possível,
me dando tempo para me olhar no espelho,
ofegante, mas contente por estar em casa,
nesse dia escaldante.
Com um tranco,
o elevador pára e abre a sua porta,
revelando a visão conhecida
de uma outra porta.
Ansioso, toco a campainha
com mil pensamentos borbulhando,
e espero que abram a porta.
Toco a campainha novamente,
e espero que alguém apareça.
Impaciente, toco o humilde botão
da campainha sendo grosseiro,
e espero mais cinco minutos
sem resposta.
Para o meu desgosto,
não há ninguém em casa,
e só o que eu faço
é sentar no chão gelado,
de costas para o meu lar,
a encarar a outra porta, do elevador,
que já se fechara.
A luz sensorial do cubículo estranho se apaga,
e, agora, o que eu mais espero
é que alguma das portas se abra.

6 de setembro de 2009

Não Se Preocupe

Ao olhar nu, nada existia.
O par de pistas duplas da avenida
eram vistos como a o infinito sem vida.
Nenhum som podia ser ouvido
e nenhum passo podia ser contado,
apenas um ar, sobretudo quente e ácido,
era respirado.
Mas, a propósito da rotina,
aparece uma mulher ao longe,
a andar quadras e quadras
sem sair do lugar.
Sua alma, em evidência,
transmite uma perturbação de nada,
tão vazia e transparente,
tão preocupada e gasta.
Seu andar é puramente corporal,
disfarçado ao tentar ultrapassar
aquele complicado quadrado fechado
no qual é inútil apressar o passo.
Ela anda mas não anda,
e, curiosos, esquadrinhamos
a sua imagem falada.

23 de agosto de 2009

Dias Pregam Peças

“Será que você poderia ir pegar mais água, filho, por favor?”, pediu meu pai, lançando um olhar a mesa ao lado da cama em que estava deitado. A mesa estava um tanto vazia, não fosse por alguns doces e salgadinhos desembrulhados, e uma garrafa de água vazia.

“Claro”, respondi com um sorriso no rosto, “já volto.”

Saí do parapeito da janela com um pulo desajeitado, catei a garrafa da mesa e abri a porta do quarto. O cheiro puramente artificial do hospital já não me afetava mais como no dia anterior e nem o caos interminável daquele pronto-socorro tampouco, e eu fui andando levemente até o fim do corredor muito branco.

Apesar de toda a luz que o corredor oferecia e dos inúmeros pacientes que passavam por ali a cada segundo – inconscientes em macas, sendo empurrados por médicos aflitos em cumprirem seu trabalho – o hospital nunca tinha estado mais sombrio. A cada porta aberta pelas quais eu olhava, via uma pessoa – se não morta – morrendo; aparentemente, quase todos os pacientes estavam dormindo em tom tão profundo que nem respiravam, e os poucos acordados miravam ao teto vagamente, como se tentassem decifrar nele uma imagem borrada – sem mencionar, é claro, que a maioria estava expostamente ferida. Parecia um daqueles dias em que não importa o quanto nos esforçamos, no fim tudo dá errado; por isso, concluía-se que, infeliz e muito possivelmente, nenhum daqueles pacientes ficaria ali por muito tempo.

Ao chegar ao fim do corredor e ao bebedouro implantado num canto, comecei a encher a garrafa. Pensei em ouvir algumas músicas agitadas – talvez assim me libertasse um pouco do ar desanimador que eu acabara de respirar. Andava de volta ao quarto olhando com concentração para frente, tentando evitar ao máximo o clima melancólico do hospital, balançando a garrafa cheia com a mão, num ritmo mal marcado. Um novo paciente estava chegando e eu me colei à parede do corredor para sair do caminho; pelo menos esse não parecia tão mal. O último moribundo tinha passado e eu finalmente entrei no quarto.

Papai estava dormindo, e não pude deixar de sentir uma pontada de felicidade ao notar isso: afinal, eu deveria estar tão cansado quanto ele. Coloquei a garrafa na mesa e voltei ao parapeito da janela. Por mais que o quarto oferecesse sofás-cama ligeiramente confortáveis, com lençóis e cobertores brancos como o corredor em volta, o parapeito da janela era definitivamente mais confortável. Sentado ali, eu tanto fazia companhia ao meu pai quanto capturava um pouco da vida fora do hospital, ainda que essa fosse a cada dia mais monótona.

O sol tinha nascido enquanto eu me aventurava pelo pronto-socorro, em busca de água. No entanto, uma incomum brisa gélida, em pleno verão, me penetrava os olhos e as bochechas como se estivesse me rasgando com um palito muito bem afiado. Fechei meu casaco até o queixo e comecei a esquadrinhar a rua, à procura de algo suficientemente interessante para eu voltar minhas atenções.

Para um verão de Los Angeles, uma das cidades mais quentes e acolhedoras do país, até que esse estava sendo bem desagradável. Talvez fosse melhor ter vindo visitar a cidade em algum ponto do inverno porque, para começar, estava frio; muito mais frio do que os dias anteriores e muito mais frio do que o acostumado pelo clima do Rio de Janeiro. Depois, após dois dias apenas de passeios típicos de exploração ao turista, papai resolve começar a ficar febril até isso o levar a um ataque cardíaco. E, como conseqüência, no terceiro dia de viagem, faltando somente mais quatro dias para embarcarmos no avião de volta ao Rio de Janeiro, aqui estávamos nós – curtindo o pronto-socorro de um hospital geral de Los Angeles porque papai tinha que enfartar à caminho da Disney. Por sorte eu falo inglês e fui capaz de coordenar todo o processo médico do senhor que, neste momento, roncava estrondosamente em sua cama.

Mas, em termos gerais, tudo estava bem. Não fora o tipo de férias ideais que eu planejara, mas poderia ter sido muito pior – ainda mais quando se trata de território desconhecido. Mamãe e minhas irmãs não sabiam de nada: o médico dissera que papai teria alta em um dia ou dois – se nada se complicasse. Então, resolvi não pronunciar o acontecido para não causar mais tensão; afinal não muitos brasileiros enfartavam em Los Angeles.

Ainda sonhando em meus pensamentos, distingui no meio daquele amontoado de pessoas, carros e lojas da rua, um letreiro eletrônico. Mudava de imagens e frases a pausados pequenos períodos de tempo e promovia uma marca de cosméticos cuja modelo não poderia ser mais magra. Minha atenção, contudo, foi voltada ao slogan que aparecia em um rosa berrante no topo do letreiro: “A sua semana está ordinária demais? Apimente-a.

Curioso como um letreiro conseguia me entender a fundo.

Certamente, minha semana não tinha começado ordinária demais pois – Deus! – eu estava em Los Angeles. Por outro lado, ela só tem se apimentado mais a cada dia – a incluir hoje.

O dia hoje também não estava normal. Apesar de eu ter plena consciência de que hospitais são, em geral, desanimadores e melancólicos, o pronto-socorro hoje tinha um quê de acentuação, eu podia perceber isso – e nem tinha intimidade com hospitais para captar anormalidades assim, dessa forma. Talvez os pacientes de mais cedo tivessem me afetado demais, mesmo que isso não fosse nenhuma novidade: quem não se afetaria ao ver pessoas à beira da morte, não encontrando sequer uma com esperança de salvação? Além de tudo isso, estava mais frio que o comum.

Chega. O dia poderia parecer estar indo de mal a pior, mas ficar debatendo mentalmente sobre quais eram as probabilidades desse dia ser pior que os outros não iria ajudar em nada: só pioraria. Tinha pensado, enquanto enchia a garrafa com água, em ouvir algumas músicas. Era o que eu ia fazer. A música preencheria minha cabeça completamente, e assim não haveria espaço para mais nenhuma idéia mirabolante. Tirei meu iPod do bolso, desenrolei o fio e comecei a escutar seja lá o que fosse que tinha sido memorizado desde a minha última entrada. E fechei os olhos.

Rodei vários tipos de música, desde as mais calmas às mais agitadas, chegando até à achar algumas tão berrantes que me perguntava quando foi que tive o mal gosto de pôr-las ali. Com o tempo, fui me distraindo e ficando sonolento, aéreo; mas não estava dormindo. Estava apenas, ao que me ocorreu, simulando um dos pacientes acordados que vi. Vagando, mirando cegamente...

Logo, porém, meu transe foi interrompido. Senti uma mão a me cutucar.

Ao abrir os olhos, um homem alto e um tanto magro, vestido com roupas brancas e em tons de cinza, tomou espaço à minha frente. Ele falava alguma coisa que eu não conseguia ouvir – a música ainda tocava nos fones do meu ouvido. Guardei o iPod rapidamente e comecei a conversar com o médico.

“Olá, eu sou o Dr. Benks”, ele falou e estendeu a mão, “vejo que seu pai está se recuperando”, suas palavras não poderiam ter demonstrado menos consideração.

“Felizmente”, respondi, muito que a contragosto. Benks não passava uma impressão confiante nem simpática. Parecia extremamente cansado e a causa que ainda o segurava ali, naquele quarto, era a pura obrigação.

“Bom, eu terei de ir direto ao ponto. Não sei se o senhor já percebeu, mas estamos lotados hoje. Pacientes entram e não saem, precisam de recuperação, a UTI já lotou também e o pronto-socorro, como sempre, está pagando por tudo”, ele parou de falar com um olhar preocupado.

“Sim, eu percebi que o dia hoje estava sem equilíbrio.”

”Pois é. O caso, Sr. Borges, é que nós estamos para receber um paciente muito peculiar dentro de alguns minutos, e, devido a lotação, teríamos de remover algum paciente instalado para dar espaço a este que vem chegando,” ele tomou ar e parou de falar, deixando a indireta óbvia e um tanto forçada em aberto.

“Então”, o olhei friamente como se falasse que havia entendido sua falta de tato, “presumo que esse paciente seja o meu pai. Gostaria de saber o porquê.”

“Bom, o seu pai é o que há mais tempo está instalado no pronto-socorro, além de ser o que apresenta menos chances de recaída em caso de falta de aparelhos”, ele apontou para as várias máquinas que, através de fios e garrotes, se ligavam ao meu pai.

Menos chances de recaída?”, eu perguntei, “então ele tem chances de recaída, e o senhor ainda o quer tirar dos aparelhos?”

“Ele terá chances de recaída pelo resto da vida, Sr. Borges, seu pai tem problemas cardíacos. Seja aqui ou em qualquer lugar”, com essa frase, um pouco da paciência do médico foi perdida.

“E porque eu tenho de decidir por isso?”, havia me ocorrido uma lembrança distante agora, “pensei que as decisões que implicam na saúde do paciente devem ser discutidas com o paciente, ao menos que ele esteja inconsciente ou sem capacidade de responder por si mesmo.”

“Sim, é verdade, mas neste caso...”, o médico ia falando, e eu o interrompi.

“Não há caso, a política é essa e deve ser seguida. Meu pai tem condições de pensar por si mesmo e decidir essa questão!”

Neste caso, Sr. Borges, a opinião de um terceiro seria de extrema importância visto que o homem mais apto a decidir é o homem mais apto a sofrer com as conseqüências”, restava pouca paciência do médico agora, e seu rosto começava a avermelhar.

“Então o senhor está sendo corrupto”, eu falei, no mesmo instante em que meu pai bufou na cama, “pois, apesar de saber que meu pai pode, de fato, tomar a decisão, prefere ignorar essa circunstância para o seu benefício.”

“Meu benefício?”, agora o médico demonstrava um pouco de raiva, “Em benefício do paciente a vir, Sr. Borges. E estamos perdendo tempo!”

“Mas dá no mesmo, no final, não é?”, o olhar desafiador que eu lançava a Benks era retribuído com a mesma intensidade, “Olha, façamos o seguinte: eu acordo meu pai, falo com ele, e decidiremos juntos. Assim, eu terei a opinião dele, e o senhor terá a minha.”

“Certo, que o seja”, disse o Dr. Benks, certamente não muito confortável com a circunstância, mas disposto a terminar a discussão ali, “mas o faça rápido”, e olhou para o relógio, “você tem uns dez minutos. Tudo bem...”, e Benks já tinha girado a maçaneta e posto um pé para fora do quarto quando eu me lembrei e perguntei em voz alta.

“Ah, Dr. Benks, quem é esse paciente?”

“Michael Jackson,” ele respondeu secamente, virou-se, e foi embora.

Michael Jackson? Michael Jackson não poderia estar vindo à Emergência, deveria estar no seu rancho milionário, desfrutando da fama, do dinheiro e da imortalidade. A informação me veio como um baque na cabeça; eu teria imediatamente considerado um outro Michael Jackson se não fosse uma palavra que Benks acabara de mencionar: peculiar. Qual outro Michael Jackson seria tão peculiar quanto o próprio? Além disso, o tom na voz de Benks ao revelar o paciente não poderia ser mais urgente – era Michael Jackson. Já tinha me convencido de que era ele mesmo, e me perguntava o que poderia ter acontecido; de todas as opções, só não poderia, de novo, ter queimado o cabelo.

No entanto, eu teria de dar minha opinião sobre a situação, e, baseando-me nela, decidir o que fazer junto a meu pai. Mas eu não tinha opinião. Não poderiam ter me arranjado situação mais difícil para resolver – ainda que a decisão final não fosse minha.

Por um lado, tinha o meu pai, que apesar de tudo e de todos, era meu pai. Nesse dia em especial, porém, era um pai muito doente, parcialmente recuperado de um ataque cardíaco violento que demorou um pouco mais do que o normal para ser curado, sedado por vários remédios e fluidos para o seu maior conforto, temporariamente “internado” no pronto-socorro e com estimativa de alta, nó máximo, de dois dias, se nada se complicasse.

Por outro lado tinha Michael Jackson, considerado por metade do mundo o maior artista de todos os tempos, ídolo de milhões e copiado por milhares, ícone que apesar de todas as calúnias e acusações se manteve forte em continuar seu trabalho em agrado ao público durante anos. Hoje, entretanto, Michael Jackson se encontrava em alguma posição de vida ou morte, dado o alarme imenso do hospital.

Considerando os fatos, eu poderia tranquilamente autorizar os médicos a tirarem meu pai dos aparelhos para validar a salvação do maior deus da música - não decepcionando, dessa forma, os milhões de fãs e a família Jackson, além de ter certeza de que não seria visto como “o garoto que matou Michael Jackson”. Mas e se, por acaso – ao contrário do que os médicos teriam dito –, meu pai não conseguisse se manter estável uma vez fora dos aparelhos e isso o levasse a uma recaída severa, e muito provavelmente à morte? Eu não conseguiria viver depois disso, tendo matado o meu próprio pai para salvar o mísero Jackson.

Mas eu também poderia, da mesma forma, me manter firme e deixar meu pai ligado aos aparelhos, deixando que Michael Jackson encontrasse um outro suposto lugar para se estabilizar, com a ajuda dos capazes médicos. Mas se, por acaso – ao contrário do que eu teria pensado –, os médicos não achassem outro lugar suficientemente bom para recuperar os vitais de Michael Jackson, e ele morresse? Então eu seria, de fato, o “garoto que matou Michael Jackson”, odiado por dois terços da população, a me incluir na cota.

Meu pai ou Michael Jackson... meu pai ou Michael Jackson... meu pai ou Michael Jackson...

Resolvi que acordaria meu pai, como tinha dito que faria ao Dr. Benks, e nós dois resolveríamos a questão; eu não tinha condições de pensar sozinho, minha berlinda não poderia ser mais arriscada e não chegaria a lugar nenhum arrastando a discussão eternamente. Fui até a beira da cama e fiquei balançando o ombro do meu pai de sutil a impacientemente, conforme minha aflição ia aumentando. Depois de alguns segundos, meu pai foi abrindo os olhos de forma áspera, como se tivesse medo da luz do sol que adentrava o quarto, e falou.

“O que houve, filho? Algum problema?”

Comecei a tagarelar rapidamente explicando toda a situação e expondo o meu ponto de vista. As expressões de meu pai iam mudando de acordo com o rumo da história, mas ele não falou nada até que eu me desse por acabado. Continuei falando, explicando e debatendo, até que finalmente terminei meu discurso com um suspiro indeterminado, como se jogasse todo o peso dos meus ombros para os de meu pai. Queria ouvir o que ele tinha a dizer, agora.

“Por mim não há problema, filho. Se o médico diz que eu ficarei bem fora dos aparelhos, eu ficarei bem fora do aparelhos”, ele percebeu que meu rosto foi ficando cada vez mais reto com a ingenuidade, e completou, “e será só por algum tempo. Além do mais, não queremos matar Michael Jackson, não é?”, e deu seu típico sorriso descontraído, como se mostrasse que não se importava com nada no mundo.

“Bom, se você tem certeza, pa...”, antes que eu pudesse terminar, a porta do quarto se escancarou e o Dr. Benks entrou aflito, tremendo em sua posição e já falando.

“Jackson chegou, precisamos do quarto!”, seu rosto suava tanto que parecia um espelho embaçado, “O que vocês decidiram?”

“Meu pai concordou em sair dos aparelhos por um tempo. Podem tirá-lo.”

Ao invés de responder, Benks saiu apressadamente do quarto. Deveria estar indo buscar o Sr. Jackson, e eu esperei de pé ao lado da porta até que ele retornasse. Em pouquíssimo tempo, Benks retornou com mais dois médicos e dois enfermeiros às suas costas, todos carregando a maca em que Michael Jackson deitava inconsciente e inexpressivo, inútil. A legião de pessoas entrou no quarto, se dirigiram ao meu pai e, em menos tempo do que eu esperava, já o tinham desligado de todos os aparelhos, e já arrastavam sua cama pelo quarto e para fora do quarto. Seguindo-os, tentando olhar meu pai nos olhos para analisar sua reação, vi que o levaram a um outro quarto onde mais dois pacientes já estavam instalados, e colocando meu pai em um canto, sem mordomias, saíram ainda mais apressados de volta ao corredor.

Só ouvia o barulho da porta bamba indo e voltando em seu eixo enquanto tomava ar para me recuperar da correria. Meu pai estava igualmente tenso e silencioso, e olhava todo o quarto ao redor, assim como eu. Os dois pacientes ali dormiam e não atrapalhavam na nossa vontade do silêncio; pelo contrário, eles a deixavam mais óbvia. Um deles tinha um ferimento muito feio na cabeça: parecia ter raspado um lado do crânio em alguma coisa como um asfalto, que o fizera ter várias queimaduras e arranhões, além da falta de cabelo. O outro, se comparado ao primeiro, dizia-se saudável, apesar de sua perna estar incrivelmente inchada, de um modo que eu nunca havia visto antes.

Fui até meu pai e fiquei ao seu lado por um tempo, olhando ora para ele, ora para a parede na minha frente. Ao ter certeza de que tudo estava bem, andei até a janela do quarto para deslumbrar a monotonia da vida americana enquanto esperava a salvação do paciente que me colocara ali. O letreiro que eu havia discutido sobre, há muito tempo atrás, era visível dessa parte do hospital. Ainda que estivesse de costas para a minha prévia visão original, isso não mudava nada: o outro lado fazia a mesma propaganda, exatamente a mesma propaganda. Olhava, olhava, e simplesmente aquele letreiro parecia não ter mais graça. Deslumbrando-o silenciosamente, ouvi um engasgo atrás de mim – uma respiração diferente de meu pai me chamou mais atenção.

Virei e fui correndo à sua cama, a tempo de ver meu pai respirando de uma forma muito forçada, como se estivesse com as duas narinas entupidas por um gás lacrimejante, e ficando inconsciente pouco a pouco. Ao notar que ficar pedindo para que ele não fechasse os olhos e ficasse comigo não adiantaria, saí correndo do quarto para o corredor e gritei.

“Preciso de um médico urgente! Meu pai está parando de respirar, rápido!”.

Voltei correndo ao quarto enquanto esperava algum médico chegar, e percebi que meu pai parara de respirar. Senti como se estivesse caindo em um poço muito longo, sem um fundo visível – meu pai não podia morrer, era minha culpa, era minha culpa. Em pânico, juntei minhas mãos e comecei uma massagem cardíaca um tanto mal-feita, mas que, à beira da minha esperança, o traria de volta para nunca mais recair. Meus olhos marejaram e eu não podia acreditar, iria perder meu pai! Continuei com a massagem, continuei lutando contra o meu choro, e saí correndo ao corredor novamente, e dessa vez gritei em total desespero.

“POR FAVOR, UM MÉDICO! MEU PAI PAROU DE RESPIRAR, RÁPIDO!”.

Um médico que passava a alguns metros dali me ouviu e veio correndo em minha direção. Eu entrei no quarto antes que ele pudesse chegar a mim e continuei com a massagem, dessa vez com muita força – na expectativa de que a força essencialmente fosse o diferencial entre respirar e não respirar. O médico finalmente chegara depois de todo o tempo que se arrastara, e já vinha em direção ao meu pai quando deu meia-volta e berrou do corredor.

“Tragam um desfibrilador, depressa!”, e ele voltou correndo ao quarto.

Ao chegar ao meu lado, me empurrou para um canto e continuou a massagem em meu lugar, no mesmo instante em que uma enfermeira entrava no quarto carregando um aparelho de aparência grande e pesada, com uns fios longos pendurados, na ponta dos quais havia um tipo de chapa de aço, e o levou ao médico. O médico puxou o desfibrilador para mais perto, apertou uns botões nele, puxou os fios e colocou as chapas no peito do meu pai. O desfibrilador deu um clique ao mesmo tempo em que meu pai era projetado para cima, e, para meu maior alívio, ele voltou a respirar quase que instantaneamente.

Eu fui até meu pai, olhei em seus olhos e sorri, sem dizer nada. Mesmo parecendo bem agora, por um triz eu não tinha cometido o maior erro da minha vida, um erro que eu carregaria na minha mente e na dos outros como uma culpa interminável cuja única punição aceitável seria a minha própria morte, para compensar. Eu não deixaria que isso acontecesse novamente, e fui fazer o que tinha que fazer. Agradeci ao médico e pedi à enfermeira – mesmo com as precauções já tomadas por ela – para ficar no quarto até que eu voltasse. Saí do quarto marchando em direção ao quarto em que o Dr. Benks estava – o meu antigo quarto. Ao chegar na porta, abri-a calmamente e já ia começar a questionar os direitos de meu pai quando notei a alteração no humor do quarto: os médicos já tiravam suas luvas, os enfermeiros desligavam os aparelhos, e Michael Jackson, deitado na cama, estava dormindo em tom tão profundo que não respirava. Parei com um pé no ar, nem no corredor e nem no quarto, sem reação àquela cena. Fiquei parado ali por um bom tempo, observando os olhos sem vida daquela pessoa.

Naquele quarto, olhei para o parapeito da janela e me lembrei das algumas horas atrás em que eu me sentava nele; horas em que eu questionava o espírito daquele dia e o equilíbrio daquele hospital. Tempo em que eu olhava meu pai dormindo tão facilmente e sabia que não poderia ser aquilo. Afinal, esses comportamentos pacatos não eram apimentar e, apesar de todos os incidentes hoje, eu sempre soube que eles iriam acontecer, e que eu não tinha a capacidade de evitá-los. Daria tudo errado, mesmo. Ruins são dias como esse: que te avisam, mas não te preparam.

Maldito dia!

9 de julho de 2009

Nó Feito Pode Ser Desfeito?

O nó do cadarço do meu tênis
foi feito por mim, manualmente.
Todas as voltas, laços e apertos
foram friamente calculados
de forma a que, em sincronia,
formassem o nó perfeito.
O erro que cometi hoje
foi feito por mim, de todas as formas.
Tudo o que pensei, falei e fiz
foi acontecendo em virtude dos acasos
de forma a que, no final,
eu me arrependesse.
Arrependi-me de tal forma
do erro cometido
que resolvi desfazer
o nó recém-acabado.
Portanto, andaria descalço no asfalto quente
como punição por, sem querer, ter errado.

10 de junho de 2009

Dedução

As janelas pareciam rachar-se com a névoa e a rude neve que batia violentamente contra o vidro.

Eu estava deitado na minha cama, com quilos de cobertores sobre mim, dormindo acordado. A luz da televisão ligada refletia no meu rosto como um véu - ora branco ora tecnicolor - piscando lentamente.

Abri os olhos a tempo de levar um susto silencioso, arregalá-los a ponto de achar que fossem saltar das órbitas e, sem fazer barulho, dar um pulo automático para trás. A luz intensa da televisão ficou gravada na minha retina; agora, porém, a televisão finalmente desligara como programado. Eu continuava desfocado; quadrados piscantes - roxos, amarelos, vermelhos, verdes, azuis, rosas - me deixavam dementado.

À medida em que os quadrados foram sumindo como no fim de um longo e chato filme, distingui à minha frente uma figura estranha, desconhecida: um homem alto, gordo, de cabelos rareando e uma barba preta grande e mal-feita que lhe dava um ligeiro aspecto de louco; vestido de preto e branco, o rosto e os braços cinzas; todo como numa foto preto e branco.

O homem me fitava perplexo - mas sem movimentos; sem nenhum movimento. Seus olhos, apesar de fortes, brilhantes e precisos, estavam duros como pedra. O homem parecia uma estátua recém-fundida no meio do meu quarto, eternamente parada, sem reflexos ou emoções. Fitei-o asperamente como resposta, esperando algo acontecer, cedo ou tarde. Esperei muito e, contudo, o homem não se mexeu.

Comecei, em algum ponto, a me sentir mal. O homem, apesar de totalmente inofensivo e vulnerável, estava me deixando maluco. Senti como se quisesse levantar e atravessar uma faca por sua cabeça e, logo no momento seguinte, já me sentia pronto para voltar a dormir. Senti-me como um sonâmbulo que poderia facilmente descer as poucas escadas do prédio baixo e soltar pipa com um grande sorriso no rosto, no playground infantil. Poderia também voar: provavelmente se me jogasse da janela - agora rachada - isso aconteceria. Tudo parecia muito claro e embaçado ao mesmo tempo. Não me sentia normal ou são, decidi que assim que o sol nascesse, afastar-me-ia das pessoas que conhecia para não causar mais danos - eu já era um grande dano. Esconderia o homem no porão que criaria agora sob o tapete do meu quarto - talvez assim eu voltasse ao meu eu.

Mas quem seria esse homem? Talvez fosse Deus que, num surto, mandou ao meu quarto uma réplica de si mesmo para que eu o olhasse e refletisse tão seriamente quanto estava agora. Deveria ter sido Deus; como mais uma estátua apareceria no meu quarto num espaço de poucos minutos, no qual cochilei enquanto assistia televisão? Achei melhor parar de refletir e, então, descumprir sua vontade; isso o deixaria irritado. Tentei parar – e parei por uns milésimos de segundos - para depois voltar a pensar friamente. Olhei para a janela e vi a neve caindo forte do outro lado. Encarei essa cena por mais alguns segundos, com a boca ligeiramente aberta, começando agora a babar – assim como uma pessoa que não sabe mascar um chiclete. Então esse seria meu plano de fuga: o frio. Corri à janela, abri-a e, sem pensar duas vezes, meti a cabeça para fora. Fiquei. Então, cada músculo do meu corpo se contraiu quando beirei os graus negativos.

Voltei para dentro, fechei a janela e me joguei para dentro dos cobertores para roubar um pouco do seu calor. Continuava me sentindo um pouco tonto, estranho, desfocado, lerdo. No entanto, minha vontade de matar a estátua, soltar pipa, voar ou construir um porão no meu quarto haviam sumido: o frio me acordara e eu não me sentia mais uma ameaça tampouco. Fiquei lá, parado, debaixo dos cobertores, batendo queixo, vendo o homem a me fitar à minha frente, passivo. Não pensava em quase nada agora; só, talvez, na origem do homem e como ele fora parar ali. A imagem da neve caindo, do homem a me fitar e de tudo no meu quarto foi sumindo pouco a pouco, lentamente, à medida em que eu cochilava novamente.



Era de manhã. Acabara de ter sido acordado pela minha mãe numa segunda-feira, e ela insistia em me lembrar disso. Por um momento, tinha esquecido do tal homem; quando me lembrei, porém, fiquei tenso. Será que mamãe teria o visto e o confiscado, de uma forma ou de outra? Será que receberia uma bronca por, supostamente, esculpir um homem tão medonho na calada da noite, às escondidas? Olhei a toda volta do meu quarto à procura de uma pista sequer sobre ele; e achei uma coisa muito mais estranha.

No lugar onde o homem tanto me encarava na noite que passou - noite na qual eu cochilei diversas vezes; na qual o sono, a vontade de estar acordado e a luz da televisão me deixavam bêbado; na qual a neve que caía forte do lado de fora do meu quarto me deixava com frio e com vontade de me aquecer, de me refugiar - estava um cabideiro de metal cinza, alto. Nesse cabideiro estavam penduradas, curiosamente, somente roupas cinzas, brancas e pretas. Havia tantas delas que faziam o cabideiro ficar muito cheio e gordo para os lados.

Interessante.