29 de maio de 2009

Miopia (II)

Virei e quase caí: tinha passado
pelo limite entre o fim da rampa
e o início da calçada.
Já começara mal, mas restava tempo,
e eu poderia desistir. Não desisti.
Fui andando rente ao meio-fio,
seguindo-o como a única linha
que eu conseguia distinguir inteiramente.
Sem ele eu era um burro num pasto sem cercas;
um burro cego.
Quanto mais eu pedalava
mais notava como não sabia andar.
A imagem de tudo embaçado
me deixava com dor de cabeça,
e meu ciso forçava a entrada.
Sorte ou azar, no qual eu tendi a acreditar?
Saí por motivo nenhum.
E de bicicleta: que só adianta a tocar às pernas.
Descobri que não sabia andar,
e ainda coloquei a cabeça a queimar.
Caí e quase caí diversas vezes,
tudo por causa de um luxo
que eu não consegui conter.
O luxo de enxergar sem apoio: coisa impossível de se fazer.

2 comentários:

Mágica Leitura (Martha) disse...

Mas que coisa mais triste, risos...Ter um novo equipamente que não se pode usar. O texto foi muito engraçado!

Anônimo disse...

Caramba, muito legal. Sério.
Amo qnd o texto é terminado com uma frase do tipo conclusão, ou apenas uma frase inteligente (:
Julia Vital.