7 de outubro de 2009

Maria Cheia de Garra

Com um bipe, as portas do elevador se abriram e Maria se deparava com um saguão cheio de gente à espera. O saguão do hotel, por mais luxuoso e suntuoso que fosse, já tinha sua beleza material esgotada aos olhos da menina. Os imensos lustres de cristal aspirante a diamante iluminavam todos os móveis de madeira nobre e sofás com estofamento de pele de elefante embaixo. O chão, de um mármore frio e reluzente, já não brilhava tanto às solas dos sapatos de Maria como já haviam brilhado. Tudo aquilo já não lhe era novo.

Maria já não distinguia o cheiro desse hotel e o calor daquela gente fazia tempo, mas conforme andava em direção à recepção para assinar sua diária de saída, fazia gestos agradáveis e um tanto automáticos aos funcionários que a cumprimentavam pelo caminho, e ao chegar ao balcão, ainda disfarçava uma gentil conversa com o recepcionista que há anos conhecia.

Ela havia passado a noite ali, naquele hotel, por uma mera falha elétrica que ocorrera no seu próprio quarto, em sua casa, no dia anterior. O interruptor de luz havia explodido e o problema fora muito complicado para ser resolvido imediatamente. Com isso, optou por passar a noite no hotel, que mesmo já lhe servia como uma segunda casa, a ter de enfrentar mais algumas horas sem iluminação.

No entanto, apesar de todo o bom humor que Maria esbanjava sua pressa para sair dali não poderia ser maior, e ela papeava com o recepcionista em tom de extrema angústia. Não agüentava mais aquele hotel ou aquela rua, e tinha milhões de coisas para fazer em casa, coisas importantes...

Já tendo feito o check-out, Maria ia andando pomposamente para a porta giratória do cinco-estrelas, esperando a normalidade dos olhares que a atingiam. Ao sair, ajeitou os cabelos em um movimento rápido e agendado, e respirou fundo. Ela era alta, magra no ponto, com cabelos loiro-avermelhados muito longos e sedosos, a pele branca e lisa como veludo. Seus olhos de um azul intenso combinavam com as suas unhas vermelho vivo. Maria era linda e, como previsto, atraia o olhar de todos que desciam aquela calçada.

Logo em frente à fachada do hotel, estacionada do lado oposto da rua, estava uma limusine: a limusine na qual Maria deveria estar. Ela andava caprichosa mas rapidamente em direção à ela, e não esperava que nada a atrapalhasse nesta reta final. Passou pela baía do hotel e já estava atravessando a rua quando percebeu que um menino sentava em frente à porta do seu carro.

Indignada, Maria já chegou à limusine expulsando a criança delicadamente. Mas o menino só encarava Maria; não falava e menos agia. Maria pediu novamente ao menino para que saísse, e ele nada fez a não ser balançar a cabeça negativamente.

“Então você quer dinheiro, é isso?”, Maria perguntou, desafiando a criança, “pois isso eu não tenho.”

“Eu quero comida, senhora”, o menino pediu pela primeira vez, com a cara mais triste.

“Pois isso eu também não tenho”, Maria retrucou impacientemente, “agora, saia, por favor.”

A criança continuou a encarar Maria em um misto de tristeza e fúria, e continuava não querendo sair da frente. E Maria, negligente, agachou-se num impulso desajeitado, e puxou a criança pelos braços. O menino chorava e esperneava, berrando. Implorava por comida e gritava, dizendo que sabia que Maria a tinha por causa da limusine. Maria ignorou todos os apelos com sua pressa e indiferença, colocou o menino sentado no meio-fio e entrou no carro.

­ ­ ­ ­ ­ Mas, incrível assim como o menino, Maria debulhou-se em lágrimas volumosas na medida em que o carro andava, chorando desesperadamente. Seu remorso por ter feito aquilo era imenso; afinal, com toda a confusão, sua unha havia quebrado.

22 comentários:

Thaty disse...

Cara vc escreve muuuuuuito fiquei paradona lendo tudo até o fim rsrsrs.. Qdo escrever um livro me fala hein... Bjos

Vitor Tassinari Dornelles disse...

bá, muito bem escrito... curti demais o tema também.

Vitor Tassinari Dornelles disse...

pois é... passei. valeu também pela visita
tenho que dar uma estudada, mais tarde dou uma lida nas postagens antigas

Rafa disse...

Muito bom o conto cara! Não imaginei esse desfecho...

http://cemiteriodaspalavrasperdidas.blogspot.com/

Virgínia Leane disse...

Cara, é sério . Dá pra vc escrever livro rsrs . Muito bom o blog . E obrigada pela simpática visita ao meu blog . Volte sempre que quiser lá .

Karina Lie disse...

Caraa! que FDP! esse foi ótimo! espero novas atualizações! =D

Henrique disse...

Sensacional mesmo! Você escreveu muito bem o conto e também "Não imaginei esse desfecho... "


Abraços!

www.blogdossub15.blogspot.com

Jessica disse...

FODA!
Expressou muito bem o desprezo das pessoas para com as mazelas da nossa sociedade!
É muito fácil ignorar um garotinho que tem fome e dá atenção a sua unha que acabou de quebrar!
E ainda dizemos que somos HUMANOS... __
http://planetabandonado.blogspot.com/

Duda Rodrigues disse...

adorei João, muito bom.

Richard disse...

Meus parabéns pela escrita!
Realmente é complicado, a humanidade está dormente e fria.

palavras ao vento disse...

fikei pensando aki...ela choro pq quebrou a unha....cada coisa ne...seu texto mostrou a realidade...

Tute Braga disse...

Super dá pra vc escrever um livro! haha
Adorei!
=)

Bjossss

Vini e Carol disse...

Ficou meio triste o final.
Maria me parecia uma pessoa estranha, no final ficou meia sentimental, com seu choro.
Mas, gostei.
Abraços.

Jorge Vale disse...

Gostei muito do seu texto. Meio emocionante ao longo da história, mas para compensar, um pouco de comédia no final. :)

Visitem:
www.de-graoemgrao.blogspot.com

seuvicio disse...

Se as portas do elevador se abriram, Maria se deparou.

Se as portas do elevador se abriam, Maria se deparava.

Se as portas do elevador se abrem, Maria se depara.

Rosangela disse...

Me surpreendeu, quanto talento!
Parabéns!
Realmente esse conto mostra uma realidade oculta de nossa sociedade!
Abraço e sucesso!

Lara da silveira disse...

voce escreve muito mesmo.parabens, confira , acho que voce vai gostar, e o bom é que nem presisa se registrar, brigada viu pela visita e volte smp

http://larasilveira.blogspot.com/

Blog do Leão disse...

Karaca já pensou em colocar suas histórias em um livro, juntá-las e dar uma sequência, hein. Parabéns.

Se der visita: http://bloggdoleao.blogspot.com/

Victor disse...

pow, muito dinamico o texto, vc imagina toda a história dentro da cabeça! Se eu fosse vc, mostrava o blog pra elza e pro "Xilpertu".

DALILA disse...

CARA!!! VC É DEMAIS,UM VERDAEIRO ESCRITOR.PRECISA PUBLICAR ESSES TEXTOS POIS SÃO EXCELENTES.CRôNICAS PERFEITAS.
PARABÉNS!!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

Caraca João, gostei DEMAIS desse! Não pude deixar de sentir raiva, ódio e desprezo pela fútil e ridícula Maria. E tbm me surpreendi com o final, q eu amei e ao mesmo tempo odiei, rs.
Julia Vital.

Anônimo disse...

ah, esqueci de comentar q tbm gostei muito do título (:
JV.