29 de maio de 2009

Miopia (II)

Virei e quase caí: tinha passado
pelo limite entre o fim da rampa
e o início da calçada.
Já começara mal, mas restava tempo,
e eu poderia desistir. Não desisti.
Fui andando rente ao meio-fio,
seguindo-o como a única linha
que eu conseguia distinguir inteiramente.
Sem ele eu era um burro num pasto sem cercas;
um burro cego.
Quanto mais eu pedalava
mais notava como não sabia andar.
A imagem de tudo embaçado
me deixava com dor de cabeça,
e meu ciso forçava a entrada.
Sorte ou azar, no qual eu tendi a acreditar?
Saí por motivo nenhum.
E de bicicleta: que só adianta a tocar às pernas.
Descobri que não sabia andar,
e ainda coloquei a cabeça a queimar.
Caí e quase caí diversas vezes,
tudo por causa de um luxo
que eu não consegui conter.
O luxo de enxergar sem apoio: coisa impossível de se fazer.

26 de maio de 2009

Miopia

Nem a bicicleta eu enxergava.
Percebi que estava cego, bastante cego,
mas ainda assim não desisti,
e montei.
Subi as dezenas de rampas da garagem
com a bicicleta ao meu lado,
por baixo de meus braços.
O chão se ampliava e diminuía a cada passo,
subindo e descendo - fiquei tonto.
Fui pensando em como andaria na rua,
com vários elementos que poderiam vir a ser ruins
sobre o meu ponto de vista: pessoas atravessando;
carros andando, rápidos e devagares;
bueiros abertos e fechados
na beira dos meios-fios;
pedras, cacos e galhos no meio da rua.
Por um momento fiquei preocupado,
mas tendi a acreditar mais na minha sorte.
Então saí marchando para a guerra.

18 de maio de 2009

Buracos

Cavando, cavando e cavando.
Cava-se mais um buraco, e mais outro.
Buracos feios, tortos e desproporcionais, diga-se.
Nos primeiros metros acham-se brinquedos.
Lindos carrinhos de bombeiro
paraguaiamente amadeirados
e reluzentes bonecas com olhos azul-esverdeados,
olhando em todas as direções,
além de outros brinquedos quebrados, indistinguiveis.
Guarda-se o encontrado.
Cava-se mais, e mais, e mais.
Nos próximos metros
de buracos perpendiculares
acham-se duas enciclopédias.
Imensas, cada uma; de arquitetura.
As folhas, antes brancas,
agora estavam sujas
e quase não se conseguia ler o conteúdo.
Livro inútil.
Joga-se no saco o encontrado.
Como é formidável a insatisfação: cava-se mais, muito mais.
Um óculos é achado.
Óculos de aparência antiga,
de uma moda ultrapassada: preto de lentes marrons.
Mas o que se quer de um óculos?
Ainda mais um óculos pelo qual
é impossível enxergar através?
Cavar cansa. Mas continua-se a cavar.
Continua-se a cavar
por vários motivos: até então foram-se achados
objetos comuns, genéricos.
Mas o que deverá ser achado
quando um quilômetro for atingido?
Será petróleo, ou água?

Abrigo/Lar

Abrigo esse
que hoje me acolhe.
Esse mesmo abrigo que já fora um lar,
mas depois de tantas tristezas passadas,
depois de tantas coisas quebradas,
depois de tantas voltas, voltas sem rumo,
assim não pode mais ser chamado.
Hoje, enfim, tentarão restaurar
o elo pessoa-lar que aqui havia,
mas acredito que nem assim
me sentiria bem, ou suficiente.
É melhor eu me mudar.

13 de maio de 2009

Uma Abertura, Uma Fechada

­ ­ ­ ­ ­ Abre e fecha - doem-se os ouvidos.
­ ­ ­ ­ ­ Abre e fecha - doem-se os ouvidos,
novamente.

­ ­ ­ ­ ­ Uma abertura,
um barulho toma o espaço.
­ ­ ­ ­ ­ Uma fechada,
um barulho toma o resto do espaço.

­ ­ ­ ­ ­ Esse barulho irritante
é o resultado de anos de parceria.
­ ­ ­ ­ ­ Uma parceria sem melhor ou pior,
apenas igual.
­ ­ ­ ­ ­
Uma parceria de pai e filho, de irmãos.
­ ­ ­ ­ ­ Outra abertura é uma dor no coração.
­ ­ ­ ­ ­ Outra fechada é uma dor nos olhos de quem ouve.
Cada barulho carrega uma imagem.
Caídas e batidas, risos e sorrisos.
­ ­ ­ ­ ­
O barulho sai, se quer saber
­ ­ ­ ­ ­ da tela do meu quebrado laptop.

12 de maio de 2009

Educação Física

Eu me sentia engaiolado.
O céu branco-azulado parecia se camuflar
à rede superior da quadra;
por acaso, toda a quadra era também azul.
Eu me sentava sozinho, num canto.
A advertência tinha me advertido.
Todos estavam jogando, pulando,
roçando, rosnando, em espiral.
Todos borrados.

Para mim, pelo menos, a situação não parecia tão boa.
A prova disso veio a seguir, quando,
em um espaço de vinte minutos apenas,
três fatalidades sucederam: um pé torcido,
uma picada de abelha, um desmaio.
Levantei-me, virei e ajudei;
nesse tempo a aula parou,
para recomeçar poucos minutos depois.
Em pouco tempo resolveu-se a situação.

Os que jogavam voltaram a jogar;
eu, de bobo sentado - o escritor - voltei a escrever.
Todos estavam jogando, pulando,
roçando, rosnando, em espiral.
Todos borrados.

Agora, porém, estavam sem vontade, é verdade;
mas não deixavam de estar jogando, pulando,
roçando, rosnando, em espiral.
Todos borrados.
Eu, sentado, olhava. Olhava e questionava.
Continuava a me sentir engaiolado.