10 de junho de 2009

Dedução

As janelas pareciam rachar-se com a névoa e a rude neve que batia violentamente contra o vidro.

Eu estava deitado na minha cama, com quilos de cobertores sobre mim, dormindo acordado. A luz da televisão ligada refletia no meu rosto como um véu - ora branco ora tecnicolor - piscando lentamente.

Abri os olhos a tempo de levar um susto silencioso, arregalá-los a ponto de achar que fossem saltar das órbitas e, sem fazer barulho, dar um pulo automático para trás. A luz intensa da televisão ficou gravada na minha retina; agora, porém, a televisão finalmente desligara como programado. Eu continuava desfocado; quadrados piscantes - roxos, amarelos, vermelhos, verdes, azuis, rosas - me deixavam dementado.

À medida em que os quadrados foram sumindo como no fim de um longo e chato filme, distingui à minha frente uma figura estranha, desconhecida: um homem alto, gordo, de cabelos rareando e uma barba preta grande e mal-feita que lhe dava um ligeiro aspecto de louco; vestido de preto e branco, o rosto e os braços cinzas; todo como numa foto preto e branco.

O homem me fitava perplexo - mas sem movimentos; sem nenhum movimento. Seus olhos, apesar de fortes, brilhantes e precisos, estavam duros como pedra. O homem parecia uma estátua recém-fundida no meio do meu quarto, eternamente parada, sem reflexos ou emoções. Fitei-o asperamente como resposta, esperando algo acontecer, cedo ou tarde. Esperei muito e, contudo, o homem não se mexeu.

Comecei, em algum ponto, a me sentir mal. O homem, apesar de totalmente inofensivo e vulnerável, estava me deixando maluco. Senti como se quisesse levantar e atravessar uma faca por sua cabeça e, logo no momento seguinte, já me sentia pronto para voltar a dormir. Senti-me como um sonâmbulo que poderia facilmente descer as poucas escadas do prédio baixo e soltar pipa com um grande sorriso no rosto, no playground infantil. Poderia também voar: provavelmente se me jogasse da janela - agora rachada - isso aconteceria. Tudo parecia muito claro e embaçado ao mesmo tempo. Não me sentia normal ou são, decidi que assim que o sol nascesse, afastar-me-ia das pessoas que conhecia para não causar mais danos - eu já era um grande dano. Esconderia o homem no porão que criaria agora sob o tapete do meu quarto - talvez assim eu voltasse ao meu eu.

Mas quem seria esse homem? Talvez fosse Deus que, num surto, mandou ao meu quarto uma réplica de si mesmo para que eu o olhasse e refletisse tão seriamente quanto estava agora. Deveria ter sido Deus; como mais uma estátua apareceria no meu quarto num espaço de poucos minutos, no qual cochilei enquanto assistia televisão? Achei melhor parar de refletir e, então, descumprir sua vontade; isso o deixaria irritado. Tentei parar – e parei por uns milésimos de segundos - para depois voltar a pensar friamente. Olhei para a janela e vi a neve caindo forte do outro lado. Encarei essa cena por mais alguns segundos, com a boca ligeiramente aberta, começando agora a babar – assim como uma pessoa que não sabe mascar um chiclete. Então esse seria meu plano de fuga: o frio. Corri à janela, abri-a e, sem pensar duas vezes, meti a cabeça para fora. Fiquei. Então, cada músculo do meu corpo se contraiu quando beirei os graus negativos.

Voltei para dentro, fechei a janela e me joguei para dentro dos cobertores para roubar um pouco do seu calor. Continuava me sentindo um pouco tonto, estranho, desfocado, lerdo. No entanto, minha vontade de matar a estátua, soltar pipa, voar ou construir um porão no meu quarto haviam sumido: o frio me acordara e eu não me sentia mais uma ameaça tampouco. Fiquei lá, parado, debaixo dos cobertores, batendo queixo, vendo o homem a me fitar à minha frente, passivo. Não pensava em quase nada agora; só, talvez, na origem do homem e como ele fora parar ali. A imagem da neve caindo, do homem a me fitar e de tudo no meu quarto foi sumindo pouco a pouco, lentamente, à medida em que eu cochilava novamente.



Era de manhã. Acabara de ter sido acordado pela minha mãe numa segunda-feira, e ela insistia em me lembrar disso. Por um momento, tinha esquecido do tal homem; quando me lembrei, porém, fiquei tenso. Será que mamãe teria o visto e o confiscado, de uma forma ou de outra? Será que receberia uma bronca por, supostamente, esculpir um homem tão medonho na calada da noite, às escondidas? Olhei a toda volta do meu quarto à procura de uma pista sequer sobre ele; e achei uma coisa muito mais estranha.

No lugar onde o homem tanto me encarava na noite que passou - noite na qual eu cochilei diversas vezes; na qual o sono, a vontade de estar acordado e a luz da televisão me deixavam bêbado; na qual a neve que caía forte do lado de fora do meu quarto me deixava com frio e com vontade de me aquecer, de me refugiar - estava um cabideiro de metal cinza, alto. Nesse cabideiro estavam penduradas, curiosamente, somente roupas cinzas, brancas e pretas. Havia tantas delas que faziam o cabideiro ficar muito cheio e gordo para os lados.

Interessante.

7 de junho de 2009

Clocks

Estou encarando o relógio
faz um tempo, agora.
Outras pessoas na sala
também o estão fazendo,
mesmo que não há tanto tempo
quanto eu estive.
Elas pararam: o tempo não queria andar.
Tempo que não anda: esse é o mistério.
Será que o tempo anda?
Se não anda, talvez corra.
Mas como pode correr
se nem ao menos anda?
Engatinha, então. Deve ser isso.
Mas o mundo é antigo,
muitíssimo antigo; tem bilhões de anos.
O tempo já havia de ter aprendido
a andar; mas, pelo que parece,
não aprendeu.
Tempo que não anda portanto não corre,
deveria engatinhar, mas pela idade
deveria saber andar - coisa que não faz,
o que o impede de correr,
suplicando à possibilidade de engatinhar,
mesmo com a idade.
Quer saber? Desperdicei o tempo
em que eu tentei descobrir
como se passa o tempo.
Vou me juntar às outras pessoas, em outra sala
onde não haja um relógio.

4 de junho de 2009

Acasos

O mundo dá voltas
em ambos sentidos horário e anti-horário,
e gira rápido.
Transpassa os olhos dos apressados,
espeta-os como castigo,
e deixa a flecha enterrada em seu rosto.
Tudo deverá ocorrer em seu devido tempo.
Não engane ao seu próprio tempo.
Não pense que é o único, ou o melhor,
e viverá bem.