15 de setembro de 2009

Linha 758

A curva era muito fechada e estreita
para esse ônibus imenso, daquele tamanho,
que não conseguiria passar ali, ainda mais naquele horário,
às seis da tarde, com a avenida apinhada de carros.

Mas o motorista insistia em viajar por ali,
para chegar o quanto antes à padaria.
Se intrometeu, com um ar presunçoso,
no meio da já confusão de carro e caminhão,
abusando de sua condição.

O ônibus avançava com extrema dificuldade
e, por vezes, buzinas eram escutadas, vindas do nada,
reclamando de tudo e todos naquele lugar.

Com um baque, o inevitável aconteceu,
e o primeiro pequeno carro foi carregado
pelo tal motorista e seu ônibus fragmentado.

E, com este acidente previsto,
vários outros foram tomando espaço,
até que aquela pequena curva, tão querida e disputada,
tinha se virado contra todos num caos incontrolável.

Num segundo, caminhões esmagavam carros que,
por sua vez, caçavam lambretas e,
conforme o motorista, desesperado,
tentava se contrair para fora desta orgia,
os passageiros, em multidão,
puxavam a corda por toda a extensão,
emitindo aquele conhecido som de abandono,
sempre para longe dessa curva, dessa superlotação.

10 de setembro de 2009

1º de Abril!

O elevador subia o mais lento possível,
me dando tempo para me olhar no espelho,
ofegante, mas contente por estar em casa,
nesse dia escaldante.
Com um tranco,
o elevador pára e abre a sua porta,
revelando a visão conhecida
de uma outra porta.
Ansioso, toco a campainha
com mil pensamentos borbulhando,
e espero que abram a porta.
Toco a campainha novamente,
e espero que alguém apareça.
Impaciente, toco o humilde botão
da campainha sendo grosseiro,
e espero mais cinco minutos
sem resposta.
Para o meu desgosto,
não há ninguém em casa,
e só o que eu faço
é sentar no chão gelado,
de costas para o meu lar,
a encarar a outra porta, do elevador,
que já se fechara.
A luz sensorial do cubículo estranho se apaga,
e, agora, o que eu mais espero
é que alguma das portas se abra.

6 de setembro de 2009

Não Se Preocupe

Ao olhar nu, nada existia.
O par de pistas duplas da avenida
eram vistos como a o infinito sem vida.
Nenhum som podia ser ouvido
e nenhum passo podia ser contado,
apenas um ar, sobretudo quente e ácido,
era respirado.
Mas, a propósito da rotina,
aparece uma mulher ao longe,
a andar quadras e quadras
sem sair do lugar.
Sua alma, em evidência,
transmite uma perturbação de nada,
tão vazia e transparente,
tão preocupada e gasta.
Seu andar é puramente corporal,
disfarçado ao tentar ultrapassar
aquele complicado quadrado fechado
no qual é inútil apressar o passo.
Ela anda mas não anda,
e, curiosos, esquadrinhamos
a sua imagem falada.