16 de outubro de 2009

Rajadas a 360

Os primeiros pingos de chuva
anunciavam a calma antes da tempestade,
e o seu formato fino e singelo
podia ser visto, por vezes,
em feixes de luz solar.

O vento, que antes nada fazia
a não ser pontilhar o chão de asfalto esburacado
com gotas de água solvente,
em uma perfeita diagonal,
agora aumentava seu ego com o crescente sucesso,
e menosprezava toda a tempestade por vir.
A chuva, numa indolência inevitável
em seu conflito regional,
aumentava suas gotas
e diminuía sua temperatura,
fazendo com que o vento fosse nada mais
que um agonizante na peça pregada.
Logo, as duas forças incolores
e sem odor se provocavam mais,
com o objetivo de arrastar
a maior quantidade de coisas no caminho,
causando dor.
Com a chuva jorrando forte
e as rajadas a vários quilômetros por minuto,
todo o existente ia se extinguindo,
e a cada instante mais civilização ia sumindo.
Sumindo a ponto de ir embora para não voltar,
para se deteriorar em algum centímetro quadrado
daquela expansão universal.
Em pouco, também não havia mais
o que iluminar, e o sol, derrotado,
virou-se de costas para algum outro lugar.
Eventualmente, a peça armada
foi delatada, e acabou por cessar.
Mas, no fim, não havia mais luz ou nada,
nesse nada.

7 de outubro de 2009

Maria Cheia de Garra

Com um bipe, as portas do elevador se abriram e Maria se deparava com um saguão cheio de gente à espera. O saguão do hotel, por mais luxuoso e suntuoso que fosse, já tinha sua beleza material esgotada aos olhos da menina. Os imensos lustres de cristal aspirante a diamante iluminavam todos os móveis de madeira nobre e sofás com estofamento de pele de elefante embaixo. O chão, de um mármore frio e reluzente, já não brilhava tanto às solas dos sapatos de Maria como já haviam brilhado. Tudo aquilo já não lhe era novo.

Maria já não distinguia o cheiro desse hotel e o calor daquela gente fazia tempo, mas conforme andava em direção à recepção para assinar sua diária de saída, fazia gestos agradáveis e um tanto automáticos aos funcionários que a cumprimentavam pelo caminho, e ao chegar ao balcão, ainda disfarçava uma gentil conversa com o recepcionista que há anos conhecia.

Ela havia passado a noite ali, naquele hotel, por uma mera falha elétrica que ocorrera no seu próprio quarto, em sua casa, no dia anterior. O interruptor de luz havia explodido e o problema fora muito complicado para ser resolvido imediatamente. Com isso, optou por passar a noite no hotel, que mesmo já lhe servia como uma segunda casa, a ter de enfrentar mais algumas horas sem iluminação.

No entanto, apesar de todo o bom humor que Maria esbanjava sua pressa para sair dali não poderia ser maior, e ela papeava com o recepcionista em tom de extrema angústia. Não agüentava mais aquele hotel ou aquela rua, e tinha milhões de coisas para fazer em casa, coisas importantes...

Já tendo feito o check-out, Maria ia andando pomposamente para a porta giratória do cinco-estrelas, esperando a normalidade dos olhares que a atingiam. Ao sair, ajeitou os cabelos em um movimento rápido e agendado, e respirou fundo. Ela era alta, magra no ponto, com cabelos loiro-avermelhados muito longos e sedosos, a pele branca e lisa como veludo. Seus olhos de um azul intenso combinavam com as suas unhas vermelho vivo. Maria era linda e, como previsto, atraia o olhar de todos que desciam aquela calçada.

Logo em frente à fachada do hotel, estacionada do lado oposto da rua, estava uma limusine: a limusine na qual Maria deveria estar. Ela andava caprichosa mas rapidamente em direção à ela, e não esperava que nada a atrapalhasse nesta reta final. Passou pela baía do hotel e já estava atravessando a rua quando percebeu que um menino sentava em frente à porta do seu carro.

Indignada, Maria já chegou à limusine expulsando a criança delicadamente. Mas o menino só encarava Maria; não falava e menos agia. Maria pediu novamente ao menino para que saísse, e ele nada fez a não ser balançar a cabeça negativamente.

“Então você quer dinheiro, é isso?”, Maria perguntou, desafiando a criança, “pois isso eu não tenho.”

“Eu quero comida, senhora”, o menino pediu pela primeira vez, com a cara mais triste.

“Pois isso eu também não tenho”, Maria retrucou impacientemente, “agora, saia, por favor.”

A criança continuou a encarar Maria em um misto de tristeza e fúria, e continuava não querendo sair da frente. E Maria, negligente, agachou-se num impulso desajeitado, e puxou a criança pelos braços. O menino chorava e esperneava, berrando. Implorava por comida e gritava, dizendo que sabia que Maria a tinha por causa da limusine. Maria ignorou todos os apelos com sua pressa e indiferença, colocou o menino sentado no meio-fio e entrou no carro.

­ ­ ­ ­ ­ Mas, incrível assim como o menino, Maria debulhou-se em lágrimas volumosas na medida em que o carro andava, chorando desesperadamente. Seu remorso por ter feito aquilo era imenso; afinal, com toda a confusão, sua unha havia quebrado.