23 de dezembro de 2010

Você Se Preocupa?

Um homem deitava em seu sofá de sete lugares, estofado com penas de gansos escoceses e reclinável, de forma a que a posição de quem sentasse ficasse perfeitamente alinhada à televisão de plasma na parede, de cinqüenta e duas polegadas, com transmissão máxima de alta qualidade e som dolby surround stereo 5.1 - o suficiente para quebrar todos os vidros da casa.

Ele esperava por um programa esportivo que anunciaria, oficialmente, os novos jogadores titulares do seu time de futebol. Enquanto esperava, ansioso, rodava os duzentos e setenta e sete canais do seu plano de TV a cabo à procura de algo interessante para preencher seus minutos restantes. Os canais abrangiam os mais variados assuntos, de desenhos animados pastelões a seriados científicos sobre o universo; de programas de fofoca a reality shows de fofoca; de apresentações de videoclipes a shows com transmissão ao vivo. Era realmente muito ao que se assistir e o homem parou, finalmente, em um telejornal. Como sempre, as novidades não eram novas - pelo contrário.

Os assíduos tele-espectadores desse jornal teriam de admitir que as notícias diárias, no fim, se resumiam a uma só palavra: tragédia. Acidentes de carro, quedas de avião, pontes ruindo, florestas queimadas, assassinatos, suicídios, afogamentos, prostituição, incêndios, tráfico, pobreza, fome, pedofilia, corrupção, analfabetismo, conflitos regionais, discriminação, racismo, preconceito... Nossa, o mundo estava cheio de problemas - problemas abertos à mim, àquele homem, à todos.

Nesse exato momento, uma família teria acabado de morrer num acidente de carro; várias mulheres teriam perdido os seus maridos num avião que caiu; uma cidade perdera seu caminho com uma ponte que ruiu; uma floresta não era metade do que já fora, agora queimada; uma empresa perdera seu chefe assassinado; uma mulher teria tirado sua própria vida; o mar teria matado um bebê; pré-adolescentes se aventuravam sexualmente nas ruas por dinheiro; um dos maiores prédios do mundo pegara fogo; crianças eram encorajadas por seus pais a fumarem seis tipos de ervas; famílias dormiam debaixo de marquises, passando fome; coroas tentavam cumprir seus desejos de abusar de crianças; policiais teriam desviado dinheiro; uma idosa aprendia a ler; países orientais brigavam por suas terras; um homossexual teria sido espancado na rua; um negro teria sido assassinado por um médico; anões choravam por terem sido ridicularizados...

Tanta coisa estava acontecendo ao mundo, e onde estava aquele homem deitado no seu sofá confortável, assistindo à sua televisão com 277 canais de última geração, esperando por notícias banais sobre o seu time, para ajudar? Com o que aquele homem estava se preocupando no momento em que todas aquelas fatalidades tomavam espaço?

Provavelmente estaria se preocupando com a sua gravata que deveria, por lei, ser mais bonita do que a de seu colega de trabalho; ou estava se preocupando em aspirar qualquer e todo o pó do seu lindo sofá; ou estava se preocupando em escolher as palavras certas para conquistar aquela mulher; ou estava se preocupando em comprar a edição mais nova da revista de celebridades; ou estava se preocupando em preparar aquela festa para invejar os amigos...

Em suma, deveria estar se preocupando com qualquer dessas idiotices cotidianas que, infelizmente, fazem parte da vida de todos. Aquele homem, assim como todos - ou a maioria - no mundo, teria sido criado pela televisão, pela propaganda e pela mídia para estar sempre agradando aos outros.

Não importa àquele homem que dois terços da África passe fome contanto que esteja escrito Calvin Klein em sua cueca; não importa àquele homem que existam crianças viciadas em cocaína contanto que a sua festa tenha sido a mais bombástica do ano; não importa àquele homem que pré-adolescentes se prostituam contanto que sua televisão tenha mais que 300 canais; não importa mesmo àquele homem que florestas sejam queimadas contanto que ele namore a mulher mais gostosa do bairro; realmente, não importa a ninguém que nada de ruim aconteça contanto que essa pessoa esteja maquiada de forma esplêndida com os padrões ridiculamente estabelecidos pela sociedade.

Sabe, eu não culpo aquele homem. Apesar de ele não ter tido a capacidade de entender que a vida é feita de muito mais do que aquela bolha fútil em que ele vivia, ele estava simplesmente vivendo a sua realidade. Contudo, a melhor forma daquele homem enxergar o mundo que estava à volta do contexto em que ele vivia seria se, em geral, ele conseguisse expandi-lo.

No caso, agora por descaso, já era hora e ele voltava à sua programação esportiva, sem antes ao menos ter prestado atenção ao nome do canal de notícias, enfim descartável.

15 de dezembro de 2010

Carina

De leve, do súbito sou tomado pela imagem da beldade
chorando em silêncio os seus baldes de nada,
acarretados pela vida que escolheu ou que lhe foi dada,
isso ainda não se sabe.

Chegar por chegar levaria meu rosto à vermelhidão,
uma vez que, de suas penas atuais, intimidade não tenho
para perguntá-las ou, logo após, entendê-las.

Residir no coração dos outros é daquele estranho prazeroso,
o desconhecido do gozo, ter para si as lamentações
daquele que te guarda e chorar com elas, não por pena,
mas por dor própria.

Alimentar esperanças de falsas intitulações levam a nada
quando não se tem certeza do alimento,
por isso chegar ao passo em que chegando, como disse,
me levaria sem retorno ao poço do descontentamento.

Superficialmente, talvez não soubessem os outros que tivemos,
a beldade e eu, um caminho pelo mundo.
Inexpressivo, às vezes a quem quisesse assim afirmar,
ou mesmo para ela. Para mim, expansivamente valia.

Conformá-la não me satisfaria por completo,
dadas as conformações anteriores que, de nenhuma modéstia,
de pouco acrescentaram à diminuição dos prantos.
Teria eu que exercer a diferença de bom grado.

Dessa forma, palavras são fáceis de sair e não penetrar,
o que poderia caber a mim mudar.
E, depois de tentativas suadas, por todo o passado,
ainda acredito não ter conseguido.

Longe dela, a vejo chorando em continuidade, sem saber o que fazer
quando remete à mim a questão da insignificância.
Quero ser mais do que já pude ser, e não consigo.

Só deus sabe o que ela vê em mim ou como me vê,
seja pelo antigo que tivemos ou pelo presente engavetado.
Queria fugir ao infinito para, quando voltar,
poder sentir o que sinto hoje em relação ao passado.

No fim, estou à frente da beldade do infortúnio.
E, embora compromissado com as sessões de recuperação
dos nossos eus, nos percebo virando de costas um para o outro
quando a ocasião falha.

Meu maior medo em colocar agora os pés a correr é de,
ainda há quilômetros de você, te ver chorando pelos cantos.
Quero-te feliz e ainda assim não te quero para mim,
porque o passado, sinceramente, não volta.

6 de dezembro de 2010

Sonhos Afilhados

Nina não está mais grávida
Nem eu fértil ou apto a conceber à vida
Mais dois os três sonhos.

Por enquanto abster-me-ei
Das dores de parto, entenda
Prendi a respiração neste último.

Acabou por não sair por bastante tempo
E quando finalmente veio a calhar
Caiu-se um desmaio sobre meus braços.

Penso que ainda possa sucumbir à vida ele
Assim como todos nós que estão lá.
Vã mentira, eu nem ele estamos lá.

Penso inclusive que poderei deixar
Este um desmaio por aqui mesmo
Neste chão gelado, infértil por ora.

Entenda, por favor, uma vez mais
Não posso me fazer sofrer, sensibilíssimo
Por isso que passou ou por aquilo que virá.

O que virá, virá. Virá e virão
Sempre os momentos ruins
E sairemos deles sempre.

De cabeça à outros, momentos
Ruins péssimos horrendos
Até que um melhor venha.

Por Deus talvez seja pretensão demais
Dizer que perdi um filho,
Por dois motivos dentre milhões.

Sobre como ainda não o perdi de fato:
Quem conhecer um sonho vai saber
Que ele persiste vivo - este é o primeiro motivo.

E, por segundo e último nestas constatações,
Sobre como eu não tenho filhos.
Tenho sonhos.

29 de novembro de 2010

Catequizando Dé Preto

Presentearam-me há de recente com um relógio de ouro gigante e, por fontes eu cheguei a saber, valioso. Um de meus alunos prodigiosos da Academia Monárquica vivia me incentivando devotamente a comparecer à sua igreja. Os resultados eram divinos, segundo ele, mas preferi me dedicar à criação corpo-estrutural de sete dias, segundo dietas. Não é pouco nem nada, dia me chega Albertinho com o relógio em suas mãos e me estende, dizendo ser seu maior gesto de gratidão em vida para com a minha pessoa. Porém, disse ele, se eu há de eterno aspirasse ser, para que eu fosse à igreja. Esperteza, no entanto, me trouxe ao equívoco de Príncipe, e assim fiz: relógio de ouro valioso tal qual sua igreja ou seu reitor, portanto me ataria à promessa responsável de rezar ao Relógio todas as vezes que o reluzisse. E esperaria através de Albertinho uma resposta divina. Afinal, plataforma mais que poderosa eu já tinha.

19 de novembro de 2010

Inconsciência na Cama

Dormindo, ele é mas não é,
o que é mais fácil de lidar.
Tem em si o seu eu,
a sua personalidade e aparência,
porém poupados de exercício.

Morrer, para quê?
Alternativa há de se viver
enquanto não se vive,
de alma existente
nos complexos da inércia.

Da superfície é anexado
ao intrínseco da terra
que o provoca a se anular.
Lívido, porém certo
da existência de fantoches.

Do sono, sabe que se porventura
acordar, acordado estará retornado
ao eu adormecido forçado.
Em sono, contenta-se em sonhar
que há de eterno sonhará.

Dormindo, propõe-se à subvida
do que é mas não está, contra
o que está e continua não sendo,
tendo-se por fato que esta relação
de convivência comunal consigo
é das mais difíceis.

Busca-se por soluções, e
cá estão. Quer ser e não estar
enquanto quer estar presente
e não ser, ainda que
em nenhuma das hipóteses morrer,
vá dormir e será eterno.

8 de novembro de 2010

Fumaceiro

Cigarros
os têm na boca
e no olfato da fumaça
que evapora e não condensa,
paira no ar.

Cigarros
feitos na boca
das bocas que insistem
em fazê-los primordiais
à vida.

Cigarros
de necessidade
os têm na boca, posso notar que,
na verdade, os comportam na boca,
mas é feio.

Cigarros
de feiura estrutural
estruturam o corpo
por ter-lhes na boca
com freqüência.

Cigarros
os têm na boca todos,
e percebe-se que
nem água é capaz
de apagar fumaça.

Cigarros
interessantes fogem à boca
e deslizam à boca,
assim como a fumaça
para fora dela.

Cigarros,
um, dois, três, quatro
os têm na boca em simultâneo,
e a fumaça se renova
igual.

Cigarros,
cinco, nove, vinte e oito
os têm na boca
nunca esporádica,
de conseqüência rotineira.

Cigarros,
boca e fumaça
são freqüentes,
são cento e treze
por dia.

1 de novembro de 2010

Apresentando Dé Preto

Tenho 21 anos e, no momento, curso o último ano do Ensino Médio. Para auto-sustentação, trabalho como gogoboy quatro noites por semana. Aliás, foi em razão do meu trabalho que comprei minhas lentes azul-clarão e malhei intensamente os meus músculos entre o pescoço e a cintura. Como extracurricular, tenho o concurso do meu bairro, que ganhei faz cinco anos. Na ocasião, fui classificado na quinta posição e recebi o título de "Príncipe de Guarulhos". A propósito, me chamo Dé.

20 de outubro de 2010

Medicina

Ser médico e suas vantagens. Desde cedo, prepara-se psicologicamente para salvar vidas no futuro; a partir da escola primária, o alimentam de certezas para com a profissão que devem ser cumpridas, e mesmo antes do esperado, já se encontra redigindo fichas de óbito em casa, sozinho, como treinamento para os anos de real atividade, e de invariável rotina. Percebe-se que, de todos os esclarecimentos, o dele é o mais evidente em pauta, e em poucos anos o formando torna-se formado.

Logo que exige seu trabalho como a quem exige seu dinheiro, nota-se preso à responsabilidade do que lutara por anos. Se não agora, talvez pudesse salvar a sua própria vida, ainda que a dos outros fosse mais importante: por elas ele aspirava. À seqüência, prefere morar em hospitais na tentativa da salvação alheia, mas em pouco se vê virando noites naquele café adjacente ao cruzamento de quatro hospitais, preenchendo suas treinadas fichas de óbito – desta vez válidas – uma vez que quatro vezes expulso por erro médico.

No café, a família lhe aparece nos vidros refletida enquanto se recorda da cobrança que lhe era ajustada, recaindo sempre ao financeiro os que falavam. Tentara decidir por si, mas quem diria, lhe carregaram até ali: pais, escola, o resto da família e da vida. Até mesmo a prezada orientação vocacional que, naqueles tempos, o obrigava a hesitar quando competindo consigo em respostas nada além de sinceras.

Quem sabe não poderia matar, também, o garçom de pé num canto: mais uma menos uma ficha preenchida em seu registro de pouco valia, mas aquelas credenciais e uniformes tão diferentes, esses ele queria.

10 de outubro de 2010

Amicãs

Acomodam-se juntas as quatro,
num quadrado perfeito dito inviolável
de quatro pontas, e acolhedor
de todos os tipos de mulheres,
das quais se fecham por vértices
uma morena e uma loira,
uma ruiva e uma morenaça.

Tem-se por prova que o quadrado
se fecha quando conveniente,
oportunista imprescindível
aos tempos em que se precisa
de uma área total, além de concreta,
para cálculos eventuais.

Pois, dadas ações de puro proveito,
acordos por parte das arestas
que suportam o peso dos pontos mulheris,
são feitos em complacência
para deixar que o quadrado se desfaça,
e que cada mulher seja uma solitária reta.

E, apesar de compartilharem do poder
de se fazer voltar ao plano inicial,
pouco importa aos pontos de mulher
a situação de a unidas retornarem,
agora que retas já foram,
e o quadrado especial
já não lhes fazer justo interesse.

Enquadrando a sinceridade dessas vértices
ligadas por arestas sempre frágeis,
a verdade está no que se diz
por todas e cada uma das beldades:
que tanto faz como tanto fez
serem quadrado ou serem reta,
contanto que tomassem a posição
de uma temida forma geométrica.

No fim de todas as contas, conclui-se
que quadrados são formados
por quaisquer retas,
sejam relacionadas
ou individuais num plano.

O esforço, no entanto,
cabia à cartografia, decidir
se permaneceriam quatro amigas
de formatos harmoniosos,
ou quatro retas paralelas
de auto-suficiência linear.

13 de setembro de 2010

Vício em Pé

Atrás das cortinas, sento num palco
defronte com nenhuma platéia.
O espetáculo terminara há dias,
mas eu tenho continuado sentado aqui
por todos os que se passaram.

Imóvel, tinha me proposto à dependência
às custas de um mero prazer psicológico,
também com o argumento de querer poder explicar
como é absorver o sentimento,
aos que não o sentem.

No entanto, logo após o término
do efeito químico,
me senti tão vazio e frívolo
que tinha me tornado incapaz de redigir
sequer uma nota de geladeira.

Naquele dia, longe deste,
tinha acordado cedo e explicado
a quem quisesse ouvir, ou a quem
indagasse nojentamente a minha situação,
o porquê do meu vício.

Desde então, tenho continuadamente
aguardado o meu retardo forçado
recobrar-se ao estado pleno de pessoa sã
para, só depois de vários ciclos,
aperceber-me de algo notório.

Tinha descoberto que,
para explicar o tão temido efeito,
teria de retornar à posse do meu vício
e sentir tudo outra vez,
pois não conseguia lembrar de nada.
Mesmo assim, tenho também buscado soluções
que de todo não funcionam,
para poder seguir viciado
e enganar aos outros
com o álibi de estar tentando.

Afinal, sempre que preciso pensar,
recorro ao meu vício na esperança
de que ele me carregue a lugares inatingíveis
quando se vive com os pés firmes
e fincados num chão de concreto.

Porque, de verdade,
vicioso é ter que sustentar um vício
por tanto tempo. Neste palco abandonado,
aqui sim é do balacubacu. Tem que aprender
a dançar conforme a música.

7 de setembro de 2010

Seis Mil Hospitais

Mil hospitais, para a cura de candidatos
desprezíveis como seres, maculados e
grosseiramente inumanos, com coragem
de expor o rosto nada envergonhado
a nível nacional de televisão,
à frente de toda uma população
que acredita de coração e alma,
que estas figuras, sim,
são símbolos de revolução.

Dois mil hospitais, para a cura do deboche
e falsidade de alguns candidatos,
que sorriem enquanto falam as letras
de um texto programado,
mentiroso ao poço do fundo da alma.
Mentem para todos, para todo o povo,
prestam-se ao pior dos pecados:
não de mentir apenas em branco,
mas de manipular a mentira
na cabeça de milhões de retardados.

Três mil hospitais, para a cura da presidenta
que eleita será se disser que construirá
seis mil hospitais públicos de qualidade,
quando, na verdade, pretende de antemão
comparecer a todas as duzentas e sete
entrevistas em Paris, nas quais apertará a mão
de um outro presidente em reciprocidade.

Quatro mil hospitais, para a cura de um ineditismo
e ponto de vista não objetivados em campanha,
já que, hoje em dia, para ser considerada,
a candidata se agacha aos pés de um monarca,
com esperanças de realeza, e de que será abraçada.
Afinal, é de pleno igualitarismo que o povo,
burro em sua santa ignorância como jamais registrado,
receba de braços abertos a presidenta curada.

Cinco mil hospitais, para a cura de quatro anos
do povo amigo, que serão suficientes para deixar-lhes
na mesma vida maldita, por ter votado na candidata
que lhes prometeu, além de hospitais,
mais seis mil escolas e universidades
em apenas um tempo de vida,
com toda a infraestrutura nota um bilhão
que sabemos ter o nosso país.

Seis mil hospitais, para a cura de um cidadão
louco qualquer, que eu faria questão de estar vivo
para ver passar por cima de todos e,
também em rede nacional equiparável,
encher o peito e ter bolas para dizer,
“Isto tudo é uma merda que está errada,
estão mentindo para você com sorrisos na cara:
sua realidade em longo prazo, maldito unitário!”

4 de setembro de 2010

Mentiras

A porta escancara-se,
ensurdece o tímpano
do ouvinte eventual.
Ela entra no quarto
com propriedade assustadora,
e ao mesmo tempo
aparenta desespero pessoal
aniquilador de sorrisos.

Ele, tranqüilo, já sabe do que se trata
e, portanto, finge não ouvir.
À beira do pânico,
histérica ela se acalma
com seus próprios dotes anestesiantes,
e senta-se à frente dele
num ato perceptivelmente programado.

Olhando-lhe no assombro
de suas linhas cansadas
e no fundo dos olhos,
à centímetros de distância
Ela começa a tagarelar incontrolavelmente,
ainda que com serenidade de tom e espírito
visivelmente forçada.
Enquanto fala, é evidente notar que,
aos poucos, uma pequena massa
começa a criar forma
no interior de sua boca.

Ele retribui com o olhar mais seco
que pode manipular,
e ouve suas palavras
apenas por não ter mais recursos
à que combater a cobiça dela.
As palavras que ouve e que são absorvidas
caminham ao seu cérebro
como fogo ateado. Arde.

Ela continua a falar e dizer
e argumentar e papaguear,
e corre demais com sua fala moldada
em mínimos detalhes,
formatando também a massa crescente
que lhe escorrega pela língua ao falar.
Quer abster-se do castigo
e busca-lhe por perdão.

Ele ouve desinteressadamente para,
por vezes, poder modelar expressões
de deboche no rosto.
No fundo, Ela apenas sonda tentativas
de dizer todo o possível
pela busca por compaixão.

Olhando-a na beleza
de suas linhas delicadas
e no fundo dos olhos,
agora à metros de distância
Ele levanta-se e, com todo o desprezo
que pode encenar, lança-a o olhar
inconfundível de censura.
É melhor parar.

Automaticamente Ela reage
e recomeça a tagarelar incessante
e tediosamente. São tantas palavras
aglomeradas em frases que, em pouco,
a massa em crescimento
finalmente configura-se num tamanho enorme,
fruto de toda a conversa dita
e gravada nas paredes.

Enfim, ao invés de letras agrupadas,
Ela habilidosamente retira a massa pelos lábios,
agora grande o suficiente
para quase não caber entre a garganta
e o céu da boca, e lhe estende envergonhada,
como se isso lhe esclarecesse tudo.

Ainda olhando-se
e deixando-a segurar a massa
pelo tempo que fosse,
demonstrando-se nem um pouco complacente
Ele arrisca suas próprias palavras e,
pedindo para esquadrinhar-lhe a expressão,
quer que Ela lhe pergunte
se Ele realmente conseguiria
engolir tanta mentira.

30 de agosto de 2010

Bique

Em uma mão, minha caneta preta.
Sua tinta rija desenvolve traços certeiros
no papel, intensa na cor que a caracteriza
aos que de longe a vêem lisa pois macia,
brilhantemente bem escrita.

Na outra, caneta de um azul frio inconvincente
tem carga completa, embora descreva palavras
secas pelo tempo e oscilantes a cada letra,
ora esboço ora robusteza. Foscos são os traços que,
além disso, também quase furam o papel.

Nas mãos, duas canetas.
Uma azul e uma preta.

26 de agosto de 2010

Efeito Placebo (Conto)

O elevador subia o mais lento possível, com trancos eventuais em lugares específicos de sua rota, demonstrando a velhice tanto dos cabos quanto do corredor pelo qual o cubo negro passava. Em sua demora, eu aproveitava para me ver num espelho em desgaste, horrivelmente embaçado, que cobria, por inteiro, uma das paredes do elevador, e me sentia desfocado. A imagem refletida em seguidos cortes paralelos era digna de se encontrar em um espaço como tal, de tão suja que estava para igualar-se ao ambiente.


Minha testa brilhava como um espeto em brasa; minhas roupas molhadas como se eu tivesse nadado em mar aberto; minha bolsa de couro tão maltratada, que se desfiava em silêncio; e o cansaço dos meus olhos fazia com que se fechassem a qualquer chance dada. Nesses termos, eu não poderia estar mais suado. Deveras, o dia também não ajudara o meu emocional físico, insistindo em acentuar todo o desconforto do meu corpo em todas as ocasiões em que eu bancara o aventureiro, saindo solenemente à luz do dia.

Com um tranco especial, o elevador parara definitivamente no andar programado e, logo que sua porta começava a abrir, eu já forçava a entrada. Enfim, meu destino final era alcançado, quando tudo o que eu queria era chegar em casa, e assim eu me estendia a outra porta que facilmente se portava como deusa a alguns metros do elevador, e tocava a campainha.

A mente a mil, pensamentos borbulhando, a minha empolgação por estar a passos de um paraíso exclusivamente meu era imensa. Eu aguardava ansioso, e aqueles lá dentro demoravam a me atender. Queria entrar. Toquei a campainha novamente. Com os ouvidos exageradamente aguçados, eu tentava distinguir algum som vindo de dentro, mas tudo que conseguia ouvir era a minha respiração falha. Precisava entrar. Impaciente, toquei o minúsculo botão da campainha sendo grosseiro, e insisti em deixar meu dedo a pressionar, até que o barulho se tornasse demasiado irritante. E esperei até que alguém aparecesse.

Mas, contrariado, depois de mais de quinze minutos à espera de algo inexistente, nenhuma voz conhecida me gritou que estava tendo dificuldades para achar as chaves, e ficou claro que não havia ninguém em casa. Mesmo não me permitindo acreditar, ao perceber a tragédia, prestei-me a, pelo menos, sentar no chão gelado do corredor, de costas para o meu lar e de frente para essa outra porta essencial em um passado distante, que agora já se fechara. Em pouco, a luz sensorial do cubículo estranho se apagou, e o que eu mais desejava era que alguma das portas se abrisse.

Meu tédio emergente fazia o papel de me consumir as ideias e soluções para o problema, e sentado ali, sozinho e vulnerável, eu não conseguia pensar em nada. Num esquema mais prático, imaginava que, em algum momento, mais cedo ou mais tarde, alguém passaria por ali para me levar embora, servindo de alavanca para qualquer que fosse o meu destino. Afinal, tanto o elevador quanto o apartamento eram inatingíveis naquele instante. Ademais, levei tempo para enxergar o quanto aquele corredor, em ocasiões míseras, podia se transformar em um lugar gélido e sombrio. Parecia incessante a verdade de que, em momentos ruins, os habitantes de todo aquele andar e até mesmo do edifício inteiro se punham a desaparecer.

Entretanto, todos os ausentes não fariam falta, mesmo se estivessem presentes. Afinal, eu não precisava de ninguém que não morasse no apartamento que lambia minhas costas, minha única aspiração. Dessa forma, eu haveria de esperar sentado pelo tempo que durasse o sempre, à espera de qualquer um que me carregasse para dentro. Eu, um eterno idiota, sentado no capacho depois de um dia incrivelmente exaustivo, sem ter acesso à minha própria casa. E chaves não faziam diferença, contanto que eu pudesse contar com alguém infiltrado para me deixar passar ao meu estimado santuário.

A lógica, no entanto, foi a única que me abateu de forma devastadora, fazendo o sentido dos mais puros e refinados. A casa era minha, e chaves eram dispensáveis, contanto que houvesse alguém para me abrir as portas. Na situação corrente, portanto, eu não podia depender de ninguém para essa satisfação específica, e tudo o que eu tinha que fazer era procurar a chave dos céus em algum dos meus vários bolsos. Maravilhado, comecei a explorar todos os buracos possíveis remendados em meus trajes, encontrando tudo de mais desinteressante pelo caminho, até que meus dedos tocaram o objeto coringa em minha experiência inusual do dia.

A chave pequena e discreta começava a reluzir prateada quando me levantava do chão áspero, automaticamente obrigando as luminárias no teto a se acenderem a meu dispor. Extasiado, de pé e com as mãos tremendo à imagem da tão bela porta se abrindo, eu já enfiava a chave na fechadura e a girava, ouvindo os cliques mais orgasmáticos da minha vida. E a porta estava desbloqueada.

Entrei no apartamento com um sorriso amarelo imaginário tão grande, que, se fosse real, deslocaria minha mandíbula. A sala, cômodo de recepção a visitantes e fachada de toda a casa, se encontrava tão escura e fria quanto o corredor lá fora, apesar de estar serenamente arejada pelos ares quentes de verão que adentravam a janela escancarada num canto. Andei até meu quarto em preparo para uma estada longa em casa e, logo que entrava já largava a bolsa pesada e gasta num espaço pré-determinado no chão, e já ia tirando as minhas roupas mais suadas enquanto me deitava ritmicamente na cama mais confortável.

Deitado, eu fitava o panorama do meu quarto como se fosse ouro, com seu armário de carvalho antigo a um canto, uma mesa de granito negro presa à parede oposta e uma estante branca à frente da cama, evidentemente ordinária. A estante estaria por completo vazia se não fosse por um frasco também muito branco, posicionado estrategicamente de situações anteriores por mãos necessitadas, e que seria de importância vital naquele dia. Afinal, era o frasco que saciava majoritariamente a minha vontade infantil de voltar para casa e, mais a fundo, para o meu quarto, desde a última vez que eu saí.

Com esses pensamentos em mente, eu me deixava levar pelo reflexo desajeitado do meu corpo e me levantava da cama em um pulo, deslocando-me rapidamente em direção à estante. Lá, com os olhos perfeitamente alinhados à tampa do frasco e o nariz quase colado à madeira branca, eu trabalhava minha mão para que pegasse o tão lindo frasco e, com ele dormente em minha palma de dedos protetores, andava até a mesa negra para ali depositá-los.

Tremendo, eu já colocava o frasco sobre a superfície e o abria frenético, imediatamente enfiando alguns dedos à procura de qualquer cápsula disposta a ser minha e, em segundos, já tinha a preciosidade recorrente eleita. Vermelha e branca, listrada diagonalmente em sua forma cilíndrica, fitando-me estava a cápsula incandescente, em relevo à mesa plana, chamando-me por seus poros. Fiquei ali, parado por alguns instantes, apreciando a beleza da cápsula colorida em evidência sobre a mesa preta, porém só até o transe ser quebrado e eu me perceber vivo novamente.

O chão não estava nada perpendicular à minha posição eventual, de pé em pernas bambas, mas eu havia de buscar minha auxiliar pelo resto da casa de imediato. Portanto, num ato estabelecido, iniciava a caminhada até o lugar mais arejado onde tomaria posse d’água. Ao passar pela porta do quarto, mesmo à distância, eu já conseguia distinguir uma garrafa de plástico maltratada com várias reentrâncias, jazendo fria e quase vazia na mesa de centro da sala, apesar de comportar uma água relativamente quente e antiga. Chegando ao lugar sem ter enfrentado nenhum obstáculo que não meu desequilíbrio, dada a falta de seres humanos na casa, já abraçava a garrafa de modo a maltratá-la ainda mais e, relutante, eu a guiava de volta ao quarto da cápsula.

Finalmente estacionado em definitivo em meu quarto, eu me sentia aliviado por estar cara a cara com a mesa negra e seus pertences. Ali, sentadas harmonicamente à minha frente, minhas duas preciosas sorriam indigentes, provocando-me a fazer, de novo, com que sua essência me manipulasse. Livre de culpas eu assentia e, se porventura, num impulso minhas mãos levassem a linda cápsula diretamente à garganta, que logo seria banhada sutilmente por água, eu seria consertado.

Portanto, sem pensar duas vezes e treinado em inúmeras ocasiões anteriores, num impulso minhas mãos levavam a linda cápsula diretamente à garganta, que logo era banhada por uma água tênue em demasia contente por ser parte de mais um plano de paz. Nessa situação, eu aguardava tranquilamente, até que as duas penetrassem, de tão fundo, a minha alma, e me deitava na cama enquanto fechava os olhos, à espera.

Enfim, agora que ambas eram inexistentes, a cápsula e a água requentavam o calor do meu corpo para, instantaneamente, fazer com que minhas pernas retomassem a estabilidade e que meus pensamentos fossem recompostos. Deitado singelamente numa cama única, se referenciada ao resto da casa, esta pobre de gente e espírito, eu não poderia me sentir menos solitário. Toda a minha vida passava sempre como flashes em meus dias, mas, nesse momento em particular, mais do que nunca, eu a sentia viva e propensa a ser minha manipulada.

Reabilitado, eu me levantava em pés descalços e guardava o frasco com cápsulas irmãs de minha amiga de volta à estante clara, local provável onde eu o acharia em futura ocasião, pois, em deliberação, meus destinos iminentes estariam sempre a salvo se eu coexistisse com minhas cápsulas sem princípios ativos e seus efeitos placebo.

19 de agosto de 2010

Trinta e Um

12:42 desmerece meu esforço
quando pretendo realizar
a ceia em seu âmago perfeito.
É cedo demais
para encher-se de temperos.

13:13 comporta poucos luxos
e caprichos, pois, a esta hora,
meu sensor materno
ativa a clarabóia
de que já passa da hora.
É tarde demais.

19:42 é exemplo de respeito e plenitude,
onde aguardo a senhora da foice
de pé com sorrisos:
devemos aguardar o esperado.
Espere!

20:13 denigre minha reputação
de paciência calva, em meu vício
de desavergonhadamente
esperar pela senhora bastarda
há mais de uma metade de hora.
Céus, é tarde demais.

42 sustenta uma vida
de perdições infinitas.
Nunca me contento
pois é cedo demais.
Prefiro aguardar!

13 me trará uma vida prematura
de incompetência programada,
pois a diferença estrutural
entre a vida e a morte,
nesse primor cronometrado,
se minimiza a apenas
trinta e um minutos.

31, assim que passado,
libera alternativas.
É possível existir
ou esvair-se,
sem meios-termos.

11 de agosto de 2010

Personagens

- Porque tu és tão ordinariamente sonhador?
- Porque você também é.
- É de muita pretensão dizer tal coisa.
- Pois que seja, não anula a verdade.
- Isto pode vir a causar-me confusões.
- Já existem confusões. O que eu digo te reflete em ações.
- Mas eu ainda não sei lidar com elas, tudo sai errado.
- Aprenderá.
- Estou demasiado velho para isso.
- Qualquer dia você há de perceber a essência.
- Quando? Em meu leito de morte?
- Depende apenas de sua capacidade afetiva.
- Em que sentido?
- De não relacionar-se intimamente contigo mesmo.
- Absurdo! Estou sempre comigo.
- Deve aprender a deixar-te de lado.
- Impossível! Sempre vivi como a mim mesmo.
- Eu também estou sempre contigo, e já te larguei.
- Grande merda! Afinal, quem é você?
- Eu sou você. Não me vês neste espelho?
- Loucura que você é eu, pois não pensa como eu.
- Penso como tuas profundidades. Você as desconhece.
- Mentira! Eu penso em minhas próprias profundidades.
- Tem absoluta certeza?
- Certamente. Penso como carne e osso do meu ser.
- Carne e osso pressupõem fraqueza.
- Não a mim, pelo menos. Preparei-me para isto.
- Tem absoluta certeza?
- Obviamente! Agora veja, e você ousa dizer que pensa!
- Eu penso.
- Pensa como quem, merda?
- Penso como sendo tua personagem nesta vida.
- Não existem personagens! Isto é a realidade!
- Realidade que eu idealizo. Cada passo.
- Cansei de falar contigo. Foge de mim!
- Isso não é possível. Não gosto.
- Você mesmo disse que me largou há tempos!
- Mas também disse que continuo contigo. Ingênuo.

2 de agosto de 2010

Quem é Você?

Intensamente focado numa concentração comum a muitos,
ele alcança pontos determinantes em que, ao fechar os olhos,
se sente desaparecido do mundo e do universo,
senão inexistente, num negrume tão forte em ausência de cor
e de vitalidade, que não se reconhece nem um pouco vivo.

O que escreve e o que diz expor são mera insignificância,
tanto para os outros, que hão de se submeter a tal nível
e ter de fingir ouvir ao que ele expressa, quanto para ele próprio,
que ao tentar explorar seus sentimentos e devaneios guardados,
se nota como um completo idiota relevando coisas nulas.

Prefere não se abster da humilhação, porém, e nem dos danos
que lhe são causados ao tentar se passar por opinante de vontades
e desejos profundos que, até o cume de sua ínfima reciprocidade,
ele acreditava ser de preocupação global, mas que hipocritamente
se revela não condizer em um consenso de apreensão.

Ele é apenas um falso opinante sem nenhum seguidor
e que em suas profundas divagações sobre tudo,
acaba por provocar uma sensação raivosa que, mais tarde,
se transforma em um quê de pessoa totalmente soberba
com fome de querer conquistar um reconhecimento inatingível,
o que só piora sua situação de otário em constante retrocesso.

Poderia simplesmente calar-se em prol pacífico e em total
despreocupação, mas a vontade de querer saber se, algum dia,
seu fingimento divulgará resultados, é o que o incita a continuar enganando
àqueles que, também com firmeza, dissimulam seguir suas idéias,
pois, no fundo, a troca de informações não ultrapassa limites verdadeiros.

Modéstia e presunção sem nenhuma objetividade preenchem sua cabeça,
cada vez mais o fazendo se sentir como um ser humano nulo de existência.

26 de julho de 2010

Luta de Desaparecido

Prefere mesmo é lutar revidando, covarde,
tendo vindo me atacar à porta de minha casa,
linha desenhada e divisória de espaços,
com todo o seu ar pomposo de quem,
de fato, exerce um falso poder.

Mas eu também possuo alguma voz,
e argumento com reivindicações válidas
todo o não ocorrido, assim como você,
até chegarmos ao ápice cívico
de automática violência.
Por vezes, sou eu o covarde.
Por outras, você toma o posto
e o assume como ninguém.
No mais, quando eu estou reinando
também sou imbatível.

Desde sempre, nós poderíamos
apenas idealizar fantasiosamente
o que cada um pensava, em sua versão,
nunca tendo conseguido espaço suficiente
para conhecer ambas as faces.

Assim, suplementamos um ao outro
em muitos significados e instâncias,
armando planos de destruição mútuos e cegos
que, por fim, resultam em nada, feitos apenas
pelo medo do contra-ataque do outro.

Então apercebendo-me, peço meu arrego e me retiro
do campo de batalha, e você, seguindo meus passos,
dá passos na direção contrária.
Num empate de técnicas derrotadas
nós nos damos as costas uma última vez.
Mas como incrível causador de lutas,
não me agüento muito tempo longe
do adversário que há muito me ensinou
a viver de forma desequilibrada.
No caso, um preparo para a vida.

Logo, sem hesitar, te convoco de volta
ao campo, ciente do que pode acontecer.
Terminasse em paz ou em fúria,
sentia que necessitava de você,
sábio, novamente a meu lado.

E quem sabe você também,
como num espelho à mim,
não teria sentido falta dessa mesma rotina
que tomávamos, ou do modo peculiar
de agirmos, deslumbrados a todo instante.

Então, prontamente você retorna, cambaleando
como sempre em suas idéias, e eu nas minhas.
Pasmem! Você não mudou nem um pouco,
e isso me abre sorrisos na cara. Nosso segundo turno
promete ser ainda pior que o primeiro.

17 de julho de 2010

Brasil vs Portugal

O jogo estava um falso espetáculo. Na tela da televisão, o gramado verde era transmitido com uma cor tão nítida que chegava a ser impossível acreditar na veracidade daquele tom, pelo menos aos olhos das pessoas que deveriam estar vibrando com a partida, naquele estádio. Contudo, vários pontos amarelos e azuis, vermelhos e brancos se deslocavam com uma desmotivação visível àqueles milhares de quilômetros de distância, passando a impressão de que estavam ali tão somente para enfeitar o campo, fazendo o quanto pudessem para desnaturar aquele verde exuberante.

À metros daquela tela límpida e sutilmente tediosa, sintonizados na mesma vibração dos torcedores vivos no estádio, Victor e Ian se decompunham com o tempo e a crescente ridicularização daquele jogo. Sentados no sofá e vestindo as mesmas cores do seu time favorito à vitória, aos poucos eles iam transformando o sofá apenas branco em branco e amarelo, conforme deixavam seu corpo amolecer à falta de movimento, e se fundiam ao tecido. Logo, numa casa completamente desabitada, com exceção dos dois moribundos, era difícil distinguir o que era de essência humana e material mobiliário.

Victor se portava como quem assistia a uma palestra eternamente arrastada sob os ombros dos palestrantes, com temas girando entre as eras paleozóica e cenozóica. De fato, seria mesmo possível imaginar que ele degustava uma dessas reuniões se não fosse por sua posição obviamente fora dos padrões, com uma das pernas passadas por debaixo da outra, essa que, por sua vez, se abrigava dentro de um buraco aberto na almofada, enquanto ele apresentava braços cruzados em cima de toda essa orgia óssea e uma coluna positivamente estalada na diagonal.

Ian, por outro lado, não fazia questão da luxúria imposta pelo dono da casa quando se tratava de bons modos. Do outro lado do sofá, ele permanecia deitado em ares não mais que pacíficos, em posição acrobaticamente aceitável, e demonstrava estar mergulhado num sono repentinamente recente. Naquele momento, ele violava o código de um bom torcedor, mas certamente seu cansaço o teria tomado em uma partida tão emocionante quanto esta, e agora ele dormia tão tranqüilo que nem aparentava respirar.

Certamente, o ambiente estivera silencioso fazia tanto tempo que nenhum dos dois tinha se prestado sequer a olhar para os lados, se levantar e sentir o que acontecia nos arredores tanto internos quanto exteriores – muito menos Ian, que perdera os sentidos antes de poder pensar em reagir dessa forma.

Mesmo assim, Victor enfim decidira se pronunciar como ser digno e capacitado de movimentos, e numa virada de cabeça que lhe custara quase todo o relaxamento adquirido, olhara aos lados para sentir a situação atual. De início, não percebera que Ian estava absorto em um sono inesperado, tendo que lhe ser necessário ter retornado sua cabeça à posição original para somente então notar o fato.

Ao enxergar o acontecimento simplesmente milagroso para uma hora dessas, os olhos de Victor brilhavam ao ver o amigo dormir tão serenamente. Finalmente, à sombra daquele dia obrigatoriamente entediante, e também de seus pensamentos de natureza maquiavélica, Victor enfim encontrara uma brecha para fazer algo realmente interessante. No fim, o cochilo de Ian viera a calhar como a salvação de um dia que prometia ser passado completamente em branco e, na fobia pelo fazer, Victor já podia planejar cem situações diferentes para se aproveitar dessa falha.

Com o cansaço e lentidão inteiramente vencidos, ele já se levantava de um pulo do sofá, desagregando-se de todos os tecidos enroscados, atirando vários panos aos ares, e começava a andar de um lado para o outro no centro da sala, pensando em total silêncio. De passos em passos e pouquíssimo tempo depois, em um ponto resolvera então parar, tendo enfim decidido o que fazer. Ele começava a esquadrinhar a casa como uma planta baixa em sua mente, fazendo análises próprias de onde iria começar ou o que fazer primeiro. Agora, portanto, o esforço se resumia apenas a colocar à prática.

De imediato, começara a andar apressado em direção ao corredor que ligava todos os cômodos da casa, passando por vários quadros esquisitos nas paredes e portas entreabertas, no caminho. Seu destino, no entanto, era a última porta no fim do corredor, estagnada não a um de seus lados, mas exatamente à frente de seus olhos, como se o convidasse a entrar mais facilmente. Ao chegar lá, abrira a porta sem pretensões para se deparar com um quarto vazio de gente e pintado com certo mau gosto, exibindo uma cor diferente em cada parede.

Mesmo assim, o que de fato incitava o interesse de Victor se encontrava atrás de outra porta neste quarto, presa no canto oposto, e que levava ao banheiro. Atravessando o quarto e então a porta, logo à visão do interior do banheiro, seus olhos já podiam distinguir o que ele procurava, sentados com sutileza na bancada da pia. Antes que pudesse pensar e à menção de pegá-los, Victor já saía do banheiro e do quarto, com direção irretornável sempre ao corredor, com um estojo de maquiagem e um batom atados às mãos.

De volta à sala, Victor ria sozinho e silenciosamente ao imaginar a primeira fase de seu plano de distração pessoal completa, conforme chegava mais perto de Ian e se agachava ao seu lado. Posicionado e com as ferramentas prontas para uso, Victor começava a balbúrdia com o estojo de maquiagem. Pegava vários tipos de pós de cores e utilidades diferentes e jogava-os impiedosamente no rosto de Ian, sem tocá-lo. Com os dedos, juntava quase toda a quantidade de poeira que ali continha e, esfregando um dedo no outro, deixava o pó cair desejosamente.

Quando terminara o processo com os pós, fazendo com que todo o conteúdo se transportasse da caixa para o rosto de Ian, Victor começava a etapa mais delicada, com o batom. Além das mais diversas cores, até então inomeáveis, o batom que Victor passava na testa e bochechas daquele moribundo ia demarcando fronteiras entre as partes de seu rosto e desenhando formatos eróticos que, ao seu crítico olhar, apoiavam tremenda graça.

A essa altura, cada parte daquele rosto irreconhecível patrocinava uma cor distinta em seus vários tons, dando a impressão de que, se não fosse dia, aquele moleque perturbado poderia ter facilmente acabado de dormir na casa de um cliente após uma demorada noite de trabalho duro nas esquinas da cidade. No entanto, essa não era a situação, e Victor gargalhava da ocasião de poder aproveitar-se maldosamente da condição de seu amigo indiscutivelmente vulnerável.

Como se já não bastasse, as idéias de Victor continuavam vindo à tona para tornar aquele dia ainda mais especial, e a segunda parte de seu plano, obviamente após ter transformado o amigo em alguém digno de pena, era a que Victor estava prestes a realizar.

De volta ao seu caminhar, dessa vez a porta a que ele se dirigia não era a última da extensão, mas sim a primeira à direita, logo na entrada daquele corredor tão medonho quanto o seu morador. Entretido, dessa vez o destino era o seu próprio quarto, onde ele pegaria sua câmera fotográfica para registrar o momento eternamente em sua história. Assim, depois de já ter procurado a máquina em alguns cantos possíveis e então ter-la achado, Victor voltava à sala com o aparelho ligado em punho, e fotografava toda a beleza de Ian com o seu merecido orgulho de produtor, e sorrisos alegremente bizarros estampados na cara.

Ultrapassada mais essa etapa, agora não restava muito que fazer que não voltar ao seu quarto e, como um estupendo fim de ópera, publicar as fotos tiradas em qualquer lugar com plausível audiência. Portanto, sem hesitar ele já retornava ao quarto e ia se sentando na cadeira defronte com o computador também ligado e, rápido em suas habilidades, passava as fotos diretamente ao disco rígido da máquina, em poucos segundos.

Logo, com as fotos prontamente arquivadas e abertas no computador, o passo final se resumia apenas à publicação em quantas comunidades de relacionamento social quanto fosse possível. No mais, todas as janelas desejadas já tinham sido abertas e carregavam as fotos para diversos sites ao mesmo tempo. Agora, enfim carregadas por inteiro e irrestritamente abertas ao público, as fotos se portavam como motivo de piada incontestável a todos aqueles que, em segundos, já conseguiam visualizá-las e comentá-las.

Aliviado de toda a tensão, Victor respirava fundo por ter conseguido arranjar o que fazer naquele dia morto, e se sentia extremamente satisfeito consigo mesmo, exalando perfumes zombadores. Afinal, o dia fora aproveitado de alguma forma, e ele talvez se lembrasse para sempre do acontecido. De repente, do quarto era possível ouvir os fogos que alguns fanáticos irrelevantes faziam questão de soltar nas ruas: era fim de jogo. Portanto, a esse sinal Victor apercebera-se de que já era hora de acordar Ian e despachá-lo para casa.

Relutante, porém nem um pouco preocupado com o que o amigo poderia dizer ou fazer ao ver-se pintado como um idiota, Victor se dirigia a sala e, aos poucos, mais precisamente ao amigo, enquanto o chamava. Seu tom de voz era estável por hora, mas com os segundos passando à sombra da ignorância de Ian por não respondê-lo fazia com que suas notas subissem, e de pouco em pouco ele ia começando a gritar de longe. Chamava o amigo em voz forte e não ouvia resposta, e se perguntava que diabo de sono profundo era esse que o impedia de ouvir vozes ao seu redor.

Finalmente, como tomando uma posição, fora até Ian e o balançara vibrante, chamando o nome do amigo a centímetros do ouvido dele. O corpo do amigo estava debilmente mole de quem dorme, e ainda nenhuma resposta tinha sido ouvida. Enfurecido, Victor resolvera jogá-lo do sofá, e assim o fez com violência, agora berrando o nome de Ian em tom sarcástico, como se o acordasse para a vida. Mas a cena fora bem pior do que o imaginável.

Ao cair, o corpo de Ian fora projetado como um boneco sem ossos para o chão, sem sequer ter retomado os sentidos nervosos à menção de um susto como aquele, tendo caído em posição incrivelmente estatelada e anormal, imprópria de um ser vivo. Apesar de ter notado o fato, Victor continuava a balançá-lo no chão e chutá-lo de leve nos calcanhares em discreto desespero, mas a expressão sonolenta e impassível do amigo não mudava por nada.

E somente agora, desafiando quaisquer circunstâncias tão impensáveis e imprevistas, era que Victor percebia o que havia feito.

7 de julho de 2010

Quando Miro Vai à Praia

A praia estava linda como sempre. Apesar de toda a escuridão e o nevoeiro gélido do momento, o âmago espiritual do ambiente era o que definia o seu valor na pele de quem o sentia. Também, nunca tinha estado tão vazia. Ao estacionar seu carro no acostamento de um asfalto alto e recém-fundido e ir andando pelo calçadão de quiosques fechados, Miro percebia o lugar um tanto quanto o desejava: solitário. Nem a avenida pouco convincente em sua grandiosidade nem a areia branca estavam habitadas, talvez apenas por alguns animais dessa noite de nuvens negras ao céu, e Miro dependia da solidão para sobreviver pelo tempo que corresse.

O mar era de uma inquietude tão serena que, se não fosse por sua dimensão continental e seu barulho audível mesmo das montanhas, pelo menos àqueles que se subentendiam conectados, seria provável que Miro mal o reparasse no espaço, também devido a todo aquele negrume. Seu cheiro salgado era tão enjoativo que Miro não poderia parar de senti-lo jamais, muito menos numa madrugada quente e convidativa como essa, infernal em seus acontecimentos.

A procura de um lugar anacrônico nesse momento trouxe Miro ao pedaço mais marginalizado da praia, num horário aquém do pensável em ali se estar por qualquer mente semi-sã de contexto metropolitano. Era contraditório Miro ter procurado um lugar tão belo e transbordante em sossego para cavar sua raiva após ter-la enterrado mais fundo em seu peito, conforme andava. Contudo, era possível relacionar algum tipo de sentimento contido com os fatores inusitados da praia, como as trevas temporárias e a solidão.

No calçadão, a sensação de desinibição de Miro ainda não era completa e, num trecho da caminhada, as luzes dos postes altos tinham se vandalizado a apagar, e agora mais cego que nunca, foi esse o pedaço que Miro escolheu para se dirigir à areia e, sentado nela em pleno descompromisso, esperar. Para ele, as primeiras horas da manhã eram mutáveis conforme o pensamento, assim como a praia – de água, areia e ar renováveis. Nesse quesito, ele se encontrava no lugar origem da imprevisibilidade.

Se tornar previsível todos os entendimentos da vida fosse possível, talvez ela tivesse mais graça – o contrário do que muitos poderiam contestar. Das experiências se pressupunha depressão, principalmente quando se tratava de uma vida abalada. Em boa parte do passado e há de recente, sua cabeça nunca esteve tão ligada a nada por muito tempo, numa fixação única de persistência, como tendo relações com tudo num ritmo constante e natural, de quem propicia ações automaticamente, e isso corroia seu trajeto. De vez em quando, portanto, era necessário um foco preciso, e sem planejamento Miro encontrava situações favoráveis para consegui-los da forma mais falsa e irreal que pudesse inventar, como essa, até que seus planos voltassem a desabar e o ciclo se reconstruísse.

Reflexões em flexões não muito bem trabalhadas eram recorrentes nos devaneios de Miro, e agora ele já esperava sentado fazia muito tempo. Já era quase de manhã, e o seu período de castigo ordenado deveria estar chegando ao fim, ao raiar do sol. Olhando para o céu, Miro percebia nuvens muito densas, quase que camufladas ao céu preto de tão carregadas, porém separadas o bastante para evitar um dilúvio. Assim como acontecia com o nevoeiro, o vento transportava sem muita expressividade as nuvens para lugares aleatórios aos lotes vagos no céu e, portanto, a distribuição final ainda era uma dúvida.

Em minutos, a cerimônia auto-reflexiva de Miro estaria acabando, e ele estaria limpo e sóbrio por algum tempo indefinido, até que tivesse de retornar a esse mesmo ponto, e descarregar as energias. A ansiedade pelo raiar do sol era concreta, mas não muito espiritualmente humana. Para quem sempre se dirigiu à esperança da resolução como uma virtude constante, era de mais consistência que ela deixasse de ser de importância carnal e, possivelmente, a cada vez que Miro buscasse por ela nesses termos, que se tornasse mais material e manuseada.

Assim, o sol finalmente começava a se mostrar bastante fraco e inexpressivo num horizonte inatingível no oceano, que continuava tão negro quanto antes, ainda forte à imposição de uma luz miserável. No mais, ironicamente, essa luz se aprontava a continuar não cobrindo as terras que lhe pertenciam, mesmo estando em nascimento e, logo, em pleno fulgor. Deveras, essa luz prometia ficar ainda mais fraca com o amanhecer, o contrário do que podia se pensar, pois as nuvens negras no céu, enfim lançadas em suas posições finais, nesse pequeno espaço de tempo em que Miro não se importou em assisti-las crescer, cresceram.

Em pouco, todo o espaço que antes era negro proveniente do universo, agora era negro das nuvens e seu filho nevoeiro. Agravadamente férteis, em instantes inesperados uma chuva forte e grossa começava a cair sem pena, furando quaisquer solos. O sol desapareceu em seus próprios terrenos, o mar começava a se revoltar com a água concorrente, revirando-se em seus eixos, e Miro se portava completamente intacto na areia.

No fim, seu rito não fora simulado por inteiro, incompletamente saciado, e isso o chateava profundamente, o trazendo de volta à estaca zero de sua recomposição periódica. Seu corpo era imóvel a partir de agora, derrotado, e aos poucos a única força que poderia movê-lo, exclusivamente, era a da areia em erosão que cismava e implicava a ir-lo afundando em puxadas grosseiras para baixo, nas cavidades abertas pela água.

27 de junho de 2010

Espiralando

Um grupo de pessoas, de todos os tipos e tamanhos,
se aglomerava num hall de entrada imenso e comercial
defronte com uma porta cristalina de um elevador
e ao mesmo tempo com um lance de escadas
tão majestoso que chegava a doer-lhes os olhos.

O botão do elevador já tinha sido trabalhado anteriormente
e exibia uma luz bastante vermelha em suas bordas,
que refletia consideravelmente nos rostos
de todos aqueles homens e mulheres de pé
com expressões cansadas e maletas cansadas.

A escada continuava intocada mas brilhava também,
sem certamente desmerecer sua beleza,
num tom branco-pérola tão digno de seu material
polido pelo vento que entrava pelas janelas
e pelo olhar nojento e fulminante das pessoas em pé.

O elevador parecia fazer de propósito sua demora
imensurável nos suplícios apressados daquelas pessoas
que na sua pressa tão corrida e embalada, e corrida,
continuavam a esperar pelo elevador impacientes
mas parecendo demonstrar uma paciência inenarrável.

Pessoas estúpidas ou apenas cansadas, maculadas
de tempos passados, prováveis tempos tão preguiçosos
quanto os atuais, morrerão vivas encarando tão seriamente
o elevador que, quanto mais é requisitado de alma,
menos incita uma aparição – ação digna de aplausos.

Andem ou corram, não continuem a esperar o inalcançável
no exato momento em que existem saídas alternativas
a seus problemas cismados em não haver solução viável.
Acordem, bando de estúpidos sofridos que adoram sua condição
virem à esquerda e peguem esse diabo chamado escada.

16 de junho de 2010

Temporais

Do futuro, pouco é válido.
Dele, não posso querer almejar nada.
Não posso querer ter o controle
dos destinos criados por meus delírios,
que, contrariamente, hão de surgir por si mesmos.

Não posso querer planejar em linhas históricas
um rumo qualquer, visto que num segundo
tudo mudará, e minha vida rolará terra abaixo
se eu não souber conduzi-la diferentemente.
Do futuro, não posso esperar um pingo de certeza.

Do presente, pouco é válido.
Por estar vivendo no atual instante,
pareço desmerecer esse fato solidamente,
e não o dou crédito necessário.
No presente, sou motivado a perseguir ações
que me interessam, que eu faço pelo orgástico desejo
ou necessidade do momento.

Das outras ações rotineiras,
cujas são maiores que as prazerosas
e seguidas num ritmo doentio dia após dia,
essas eu não vivo. Elas passam por mim tão batidas
que eu as ignoro, pois precisarei delas para sempre,
e nunca as darei atenção ou vivacidade. Do presente,
vivo apenas o diferente, o que se resume a quase nada.

Do passado, pouco é válido. Como no presente,
tenho capacidade infinita de lembrar as coisas extraordinárias.
Elas vêm à cabeça como um ninho de beija-flores inquietos,
e delas me orgulho. Do resto da minha vida,
um resto maior e sobreposto à quantidade
de lembranças marcantes, eu não me recordo em nada.

De todos aqueles dias pacatos que vivi,
deles não me lembro.
Foram deletados cruelmente,
excluídos de uma história de vida.
Do passado, lembro apenas o diferente,
o que se resume, igualmente, a quase nada.

Demarcadas, então, linhas de existência,
eu apenas levianamente estou vivo,
beirando a condição de moribundo,
pois, do tempo, pouco é válido.
Será que eu indiscutivelmente
vivo toda a minha vida?

10 de junho de 2010

No Poço

Uma lâmpada incandescente
é ao que se assemelha
a luz da televisão ligada,
refletindo duas únicas cores
diretamente no meu rosto,
penetrando sem receios
a minha retina.

Largado nesse sofá gelado,
imóvel eu permaneço, quase afogado
em um etanol imaginoso.
Não tenho forças suficientes
para me erguer e ir me tratar,
pois continuo olhando enfurecidamente
para a televisão.

Na tela, um imenso relógio
ocupa todo o espaço mostrado,
e vai andando e correndo
e fugindo, e contando
de segundo em segundo
todos os segundos que eu cismo
e necessito assistir.

O relógio me agride, me faz pensar.
Estupra a minha mente, me entorpece
e me prende ainda mais ao sofá.
Se eu fosse provido de sustentabilidade,
alcançaria ao controle remoto
para me livrar da crueldade
de ter de assistir ao relógio ticar.

É uma tortura.
Faz-me lembrar de coisas
que eu não quero cogitar.
Decresce segundo por segundo
até se tornarem minutos
e, de má vontade, horas intermináveis,
em contagem regressiva.

Gargalham da minha cara
conforme passam. E eu,
de propósito, não me dou o direito
de mover sequer o braço,
sequer as pernas que se arrastaram
sadicamente ao sofá
para olhar o relógio passar.

Me submeto a tais tipos
de terapias pavorosas, como essa,
para tentar quebrar a dúvida.
Quanto tempo mais
até o fim da minha vida?
E não estou falando
da minha morte.

3 de junho de 2010

Descaso Escolar

Um professor que, vanglorioso num palco em saliência,
na quina de uma sala de aula, enuncia palavras
como quem realmente o faz em vão, o faz em vão.
Sua imagem não passa segurança nem tampouco intimidade,
e cada palavra cantada, ele transmite impressões de que,
mais profundamente, tem certeza de que nada daquilo
está sendo absorvido por nenhum dos cérebros ali.

Um aluno que se sente preso a uma obrigação corroente
e desconcerta-se, numa situação pouco confortável,
quando perguntado se comparece às reuniões diárias
por esforços externos ou por livre e voluntária vontade,
não pode ser produtivo em nenhum quesito
ou ter qualquer outra reação que não seja dormir,
quando presente em um desses agrupamentos matinais.

Portanto, se ambos forem continuar com tamanha hipocrisia,
insistindo em viver de forma desinteressada
por não serem essencialmente movidos à vontade,
é melhor que poupem a si mesmos de tal martírio.

28 de maio de 2010

Liberdade Condicional

Numa fábrica, vários produtos são produzidos diariamente. Para tal produção, são necessários dois produtos já existentes e de modelos diferentes, que, ao utilizarem de suas funções, criam o novo elemento. A novíssima mercadoria, a partir de sua condição de produto-bruto, passa por milhares de experimentos e procedimentos que, a longo prazo, vão determinar a sua liberdade mercante com outros mercados e fábricas. Durante toda a sua vida útil, o novo produto é treinado minuciosamente pelos outros produtos seniores, de forma a que o pequeno e inexperiente tenha chances e expectativas de, um dia, chegar ao patamar mais alto de linhagem produtiva dessa fábrica.

Nesse processo, deveras duradouro e positivamente constante, o novo produto é forçado a criar funções próprias para seu funcionamento ideal, embora essas funções e praticidades sejam descaradamente copiadas das mercadorias velhas e descartáveis que os treinaram. Dessa forma, todos os mínimos detalhes seguidos pelos aprendizes devem ser levados em consideração, tanto para seu sucesso quanto para, coincidentemente, a reposição das mercadorias velhas e atualmente inativas no mercado. Afinal, para chegar a ser o mais cobiçado, o produto não pode falhar em nenhum de seus aspectos de vida, incluindo, dentro outros, seu modo de funcionar, modo de inteligência artificial, modo de coloração, modo de locomoção, modo de armazenamento, modo de preparar sua fala pré-determinada e, acima de tudo, seu preço.

E nenhum preço é concebido de mão-beijada, pois céus, durante todo o seu período ativo, o produto é forçado a trabalhar tão intensamente para, algum dia, poder comemorar na escala mais alta de nivelamento produtivo, chegando a acreditar que essa meta é maior que o próprio orgulho ou mesmo vontade de ter sido inventado. Mas, no fim, o preço do esforço vivido é compensado pelo preço tabelado no status de poder aquisitivo maior, dado ao produto vencedor.

Porém, cruel como só a fábrica produtora, resoluta em continuar a produzir quantas mercadorias quanto conseguir, a triste verdade é que nem todos os produtos, desde sempre determinados, são capazes de alcançar a sua tão esperada linha de chegada. De verdade, pouquíssimos conseguem. Números ínfimos. A robótica dessa fábrica é a mais difícil de ser totalmente centralizada por um só produto, pois de tanta complexidade tecnológica, é impossível não deslizar em alguns erros durante o tal treinamento eterno. Dos treinadores, poucos são mercadorias que atingiram o ápice de sua linhagem, e o resto é composto por produtos que perderam sua funcionalidade na tentativa de conseguir chegar ao topo.

Em suma, desde sua nascença, os novos produtos são modelados por agentes já experientes naquele mesmíssimo tipo de modelagem, e, sem recursos pensantes, os recém-nascidos se deixam levar e aderem ao tipo de criação igualitária que todos os produtos têm. Afinal, desde nascidos eles são submetidos a um modelo de produção rígido e que não merece contestação por parte de nenhum dos aderentes. A liberdade mercante de ir e vir do novo produto, concebida em primórdios de sua invenção, como registrado em todas as suas certidões feitas, não passa de uma mentira em letras mínimas de um contrato ou, em outras palavras, de uma verdade condicional.

Afinal, de todos os produtos produzidos nessa fábrica, desde a sua inauguração, apenas uma porcentagem mínima deles foi difícil de ser classificada e nomeada por ter essa forte virtude de opinião, pois nunca se propuseram a tamanha indolência ou almejaram o topo da linhagem produtiva, questionando aos donos os seus direitos de pesagem, dessa forma sendo sempre repulsados do processo de crescimento mútuo dos outros produtos. A outra porcentagem irrefutavelmente esmagadora, porém, foi desde sempre carimbada com um código de barras diferenciado e o nome “Humano” no plano da frente.

22 de maio de 2010

Canções de Telefone

O telefone toca incessante.
O ruído desanimador
é acentuado a cada chamada,
parecendo a cada bipe mais alto
o som monofônico.
A cabeça tem defesas hilofórmicas
e desatende ao barulho
em seus primeiros sinais,
ignorando-o não mais
que solenemente.
Pelo contrário, no clique
de um frouxo botão,
ela se concentra em um outro elemento
ainda muito anterior
ao importuno telefonema.
Uma música então se propaga transbordante,
provindo com classe de cantos mágicos
e penetrando clássica e ingenuamente
por todas as paredes de concreto humanas
conquistando o inteiro espaço restante.

Provocante, diminui com esplêndida expressão
todos os outros sons enlouquecedores
de terceiros, e com destreza revigora
a profundidade anonimamente vivaz
de todos os tórpidos ouvintes.

22 de abril de 2010

Eduarda

­ ­ ­ ­ As canaletas nas bordas de um caminho
­ ­ ­ ­ a mim nunca me disseram respeito
­ ­ ­ ­ porque minha vida sempre esteve fora da linha.
­ ­ ­ ­ Mas também esteve a sua.

­ ­ ­ ­ Pelo menos, o passado de que nos lembramos hoje
­ ­ ­ ­ é o que define o nosso rumo como desigual
­ ­ ­ ­ pois, em subconsciência, todo o resto de nossa trajetória
­ ­ ­ ­ relaxa apagado em cantos de nossas mentes,
­ ­ ­ ­ sejam conjuntos ou individuais.

­ ­ ­ ­ Por muito tempo, os anos passaram como
­ ­ ­ ­ flechas recém-lançadas, diante dos nossos narizes
­ ­ ­ ­ e direto para o além, aonde inutilmente
­ ­ ­ ­ nós tentávamos os alcançar de novo
­ ­ ­ ­ com o nosso singelo caminhar.

­ ­ ­ ­ Tempos de discórdia, nos quais sem pensar
­ ­ ­ ­ nós reclamávamos da vida, majestosos.
­ ­ ­ ­ Ao nos olharmos no olho, calculistas,
­ ­ ­ ­ podíamos arranjar inúmeros motivos
­ ­ ­ ­ para nos amar e também nos odiar.

­ ­ ­ ­ Tempos de discórdia, difíceis de serem vividos
­ ­ ­ ­ em sua época, mas que, ao longo dos anos,
­ ­ ­ ­ cada vez mais se tornavam insuportáveis.
­ ­ ­ ­ No entanto, ainda assim, nós contávamos
­ ­ ­ ­ com o sorriso de um estampado no rosto do outro.

­ ­ ­ ­ Ademais, a maturidade nos avassalava em registros periódicos,
­ ­ ­ ­ com intervalos cada vez menos espaçados,
­ ­ ­ ­ e ao entender como funcionava
­ ­ ­ ­ aquilo que chamamos solenemente de vida,
­ ­ ­ ­ nossos corações batiam assustados.

­ ­ ­ ­ E conforme as semanas passavam
­ ­ ­ ­ nós tínhamos consciência de que,
­ ­ ­ ­ em qualquer dia, a qualquer momento,
­ ­ ­ ­ o destino nos separaria ironicamente,
­ ­ ­ ­ e teríamos que enfrentar o medo sozinhos.

­ ­ ­ ­ Dessa forma, os anos seguintes se passaram
­ ­ ­ ­ originalmente copiados de padrões da sociedade,
­ ­ ­ ­ e depois de muito tempo apenas, tempo demais
­ ­ ­ ­ que, enfim sozinho, eu pude classificar como indescritível
­ ­ ­ ­ a dor da minha solidão.

­ ­ ­ ­ E enquanto eu escrevo isso, minhas últimas vontades
­ ­ ­ ­ antes de desaparecer desse mundo cruelíssimo
­ ­ ­ ­ para nunca mais querer voltar, com quase cem anos
­ ­ ­ ­ de uma experiência bastante simplória,
­ ­ ­ ­ deixo páginas desse testamento, e dessa vida,
­ ­ ­ ­ a você, minha linda.

­ ­ ­ ­ Deixo-te o meu amor, a minha paixão
­ ­ ­ ­ a ardência de toda uma amizade
­ ­ ­ ­ e cumplicidade, em tempos que,
­ ­ ­ ­ embora passados, marcaram para sempre.

­ ­ ­ ­ Deixo-te o meu amor, que intocável
­ ­ ­ ­ num coração meloso como o meu,
­ ­ ­ ­ só pôde ser revirado de tal forma por você,
­ ­ ­ ­ e que mesmo na sua ausência,
­ ­ ­ ­ sempre foi seu.