2 de janeiro de 2010

Guerra no Porão

Joel corria pelo porão do navio buscando munição em cantos estratégicos e programados, e cada segundo perdido era precioso a essa altura. As impiedosas caravelas abriam fogo sem preocupações, para todos os lados, fosse em direção a terra ou às tantas outras navegações em volta. Não lhes importava acertar exclusivamente ao inimigo, contanto que estivessem adquirindo o maior número de feridos. As bombas, estupidamente jorradas dos vários canhões, se viravam contra todos, e ninguém podia se declarar salvo. O ar se tornava rarefeito à medida que o nevoeiro natural da região se misturava à enorme quantidade de fumaça projetada para fora dos canos armados, de forma a que, juntos, formassem uma massa densa e escura, pairando gentilmente às águas do Riachuelo.

Afora toda a situação, Joel tinha que se manter estável durante todo o período da batalha, e com mãos firmes carregava munição suficiente de volta ao seu posto, e logo já estava atirando mais balas de canhão, às cegas. Todos os seus colegas de anos de treinamento, cujos ele reconhecia a cada um, individualmente, e a todos como um grupo, passavam em imagens rápidas diante de seus olhos, podendo olhá-los, ainda que fosse impossível enxergá-los. Ao perceber a si mesmo como participante ativo de uma guerra, porém, se lembrava de tempos em que a discussão central era puramente sobre como eventualidades nacionais os colocariam em ambientes de batalha, e quanto tempo isso demoraria a acontecer.

Das lembranças de outros tempos, a que se fundia em sua memória mais constantemente era a de quando falara com sua família pela última vez, há tanto tempo. Sua esposa e seus dois filhos entendiam a causa da sua partida e sabiam que ela aconteceria em algum dia evidente. Ainda assim, deveriam estar aguardando em casa, sem saber o que estaria acontecendo ao pai e marido, sem saber o que ansiar.

Mas, afinal, agora ele estava ali, e não em casa.

Pelo humilde espaço entre o cano do seu canhão e a abertura pela qual sua boca se encaixava, Joel conseguia distinguir algo do que acontecia lá fora. Ele conseguia ver senhores bem-vestidos e armados nas proas e popas das outras caravelas, posicionados em combate. Conseguia ver a água do rio, por onde, às vezes, ele jurava ver corpos boiando, irreconhecíveis como pessoas, vidrados desonestamente e tendo perdido toda a sua dignidade. Conseguia ver uma das margens do rio, aonde se aglomerava uma quantidade de todo tipo de gente, de negros a brancos, de índios a asiáticos, numa multidão sem nenhuma organização, numa dança inquieta com pistolas, espingardas, lanças e canhões.

Todo esse contexto de guerra que Joel assistia poderia ser classificado como estilo de vida pela maioria dos combatentes ali. Mas agora, tendo sentido a experiência, percebia o quão estúpido era aspirar por algo dessa natureza. Tinha passado toda a sua vida se preparando física e psicologicamente para essa batalha, para ser parte dessa guerra e poder se orgulhar de tal feito. Todos os do Corpo de Fuzileiros Navais presentes, inclusive os fora desse navio, guerrilhando água afora ou mesmo em terra firme se prepararam para esse acontecimento que poderia ser declarado, no mínimo, sem graça. O desinteresse por essa guerra crescia gradualmente em Joel, e a sua ainda presença naquele lugar, lutando, matando pessoas que ele nunca vira, destruindo patrimônios e memórias, respirando aquele ar imundo, era uma simples consequência da sua inscrição feita há anos. Há tantos anos que Joel nem se lembrava porque havia se alistado.

Afinal, com todo esse caos que ele se forçava a continuar vivendo, pessoas estavam sofrendo por nenhum motivo aparente. Joel ainda não entendia ao certo o que uma guerra significava, mesmo levando em consideração os vários conceitos pensados e repensados. Ele tinha visto dezenas de pessoas automaticamente desqualificadas pelo mundo boiando por toda a extensão do rio, além de ter enxergado uns sete ou oito homens aleatórios sendo pisoteados na multidão à beira-rio. E, apesar de toda a devastação, ele tinha consciência de que controlara um dos canhões, e ficava se perguntando quantas pessoas ele havia matado naquele dia, ou quantas ainda mataria.

Num sentimento incrível de culpa e rebelião associados à obrigação de estar ali e servir com todo aquele descaso, Joel nunca se sentira tão mal. Olhava para seus colegas e questionava seus pensamentos, querendo que eles se sentissem da mesma forma, que soubessem como era ficar à deriva num momento em que nada pode ajudar. E acreditava que eles entendessem.

Mas, de qualquer forma, as mãos de Joel continuavam a atirar bala de canhão uma atrás da outra, sem parar. Seus movimentos eram automáticos e ele os fazia convicto de que era o certo, mesmo sabendo o contrário. E, para o rompimento da rotina com satisfação, toda a munição em estoque acabara com esta última bala lançada, e cabia a Joel decidir se, afinal, ele correria pelo porão para reabastecer sua base, e recomeçar.

22 comentários:

Murilo disse...

Muito bem escrito. Parabéns.

Pink Adm disse...

parabens belo texto

by sxgamex.tk

joao pedro disse...

muito bom msmo

Pobre esponja disse...

Guerra é isso mesmo. Os laranjas lutando por algo chamado pátria, algo fictício deveras.
Este conto lembrou-me um filme, que passou dia desses, cujo tema era o natal; e os soldados da segunda guerra (de 3 países diferentes) fizeram uma "pausa" para comemorar entre eles a data. Louco né?

abç
Pobre Esponja

Tielly disse...

Ei,teu texto é mto bom,é tão realista ao mesmo tempo é tão literário (uma ótima combinação para um texto)
Bjo**

lperon disse...

parabéns pelo
blog

Valério Br Jogos e Animes disse...

Nossa d +++++++
a razou ^^
muito bom continua assim

Pedro disse...

Heey,
Otimo texto!!


Hehhehehe

Jel S. disse...

Cara, que narrativa IMPECÁVEL! Difícil de encontrar algo tão bem escrito na blogosfera!
Parabéns, de verdade!
E quanto a guerra... seu princípio básico é esse, as pessoas que lá estão lutando por falsos ideais aos quais foram submetidos.
___
http://planetabandonado.blogspot.com/

Rodz Online disse...

Bom texto apesar de muito longo e de estar com espeçamento pequeno q dificulta a leitura...

abçs

八洲商店 disse...

Cara, seu blog é simplesmente demais! Só o layout já me fascinou!!!
O conteúdo escrito, nem se fala! Parabéns!!!

Ah, sim! Respondi ao seu comentário lá no meu blog. Se possível, sigamos um ao outro!

Grande abraço!!

Rubens Yusuke

www.yashimashoten.blogspot.com

V_ Leal disse...

Às vezes a pior é guerra é a interna.

L ! disse...

Vc se expressar muitíssimo bem, jovem!
Feito raro, nos dias de hj.
^^'

http://adytaness.blogspot.com/

[ Visite-o ]

Lucas Dinizz disse...

minha grande pergunta é como alguém consegue escrever tudo isso? muahaha. só consigo escrever besteira, nada sentimental. belo texto. abraçs

LADY DARK ANGEL disse...

tipo vc escreveu bm,so q esse genero nao me agrada muito

ZueiTuaFoto disse...

Belo texto.

Abraço

Renata disse...

muito bom mesmo, parabéms

Rogerio disse...

uma guerra..uma sensação de estar no meio dela..lutando para sobreviver...atirando para todos os lados para acabar com os inimigos...

Flavi disse...

Muito bom! Queria escrever assim rss...

Feliz 2010!

Beijos

Anônimo disse...

SEU TEXTO É SIMPLESMENTE ESPETACULAR,MUITO BEM ESCRITO. QUE VC CONTINUE A TER IDÉIAS MIRABOLANTES.....
BJS!!!!

FELIZ 2010!!!!

myra disse...

Adoorei ^^

parabens ")

Esther Saldanha disse...

Seus textos são muito bem escritos meu caro, me encanto por todos que leio. Meus parabéns.

abraços