17 de julho de 2010

Brasil vs Portugal

O jogo estava um falso espetáculo. Na tela da televisão, o gramado verde era transmitido com uma cor tão nítida que chegava a ser impossível acreditar na veracidade daquele tom, pelo menos aos olhos das pessoas que deveriam estar vibrando com a partida, naquele estádio. Contudo, vários pontos amarelos e azuis, vermelhos e brancos se deslocavam com uma desmotivação visível àqueles milhares de quilômetros de distância, passando a impressão de que estavam ali tão somente para enfeitar o campo, fazendo o quanto pudessem para desnaturar aquele verde exuberante.

À metros daquela tela límpida e sutilmente tediosa, sintonizados na mesma vibração dos torcedores vivos no estádio, Victor e Ian se decompunham com o tempo e a crescente ridicularização daquele jogo. Sentados no sofá e vestindo as mesmas cores do seu time favorito à vitória, aos poucos eles iam transformando o sofá apenas branco em branco e amarelo, conforme deixavam seu corpo amolecer à falta de movimento, e se fundiam ao tecido. Logo, numa casa completamente desabitada, com exceção dos dois moribundos, era difícil distinguir o que era de essência humana e material mobiliário.

Victor se portava como quem assistia a uma palestra eternamente arrastada sob os ombros dos palestrantes, com temas girando entre as eras paleozóica e cenozóica. De fato, seria mesmo possível imaginar que ele degustava uma dessas reuniões se não fosse por sua posição obviamente fora dos padrões, com uma das pernas passadas por debaixo da outra, essa que, por sua vez, se abrigava dentro de um buraco aberto na almofada, enquanto ele apresentava braços cruzados em cima de toda essa orgia óssea e uma coluna positivamente estalada na diagonal.

Ian, por outro lado, não fazia questão da luxúria imposta pelo dono da casa quando se tratava de bons modos. Do outro lado do sofá, ele permanecia deitado em ares não mais que pacíficos, em posição acrobaticamente aceitável, e demonstrava estar mergulhado num sono repentinamente recente. Naquele momento, ele violava o código de um bom torcedor, mas certamente seu cansaço o teria tomado em uma partida tão emocionante quanto esta, e agora ele dormia tão tranqüilo que nem aparentava respirar.

Certamente, o ambiente estivera silencioso fazia tanto tempo que nenhum dos dois tinha se prestado sequer a olhar para os lados, se levantar e sentir o que acontecia nos arredores tanto internos quanto exteriores – muito menos Ian, que perdera os sentidos antes de poder pensar em reagir dessa forma.

Mesmo assim, Victor enfim decidira se pronunciar como ser digno e capacitado de movimentos, e numa virada de cabeça que lhe custara quase todo o relaxamento adquirido, olhara aos lados para sentir a situação atual. De início, não percebera que Ian estava absorto em um sono inesperado, tendo que lhe ser necessário ter retornado sua cabeça à posição original para somente então notar o fato.

Ao enxergar o acontecimento simplesmente milagroso para uma hora dessas, os olhos de Victor brilhavam ao ver o amigo dormir tão serenamente. Finalmente, à sombra daquele dia obrigatoriamente entediante, e também de seus pensamentos de natureza maquiavélica, Victor enfim encontrara uma brecha para fazer algo realmente interessante. No fim, o cochilo de Ian viera a calhar como a salvação de um dia que prometia ser passado completamente em branco e, na fobia pelo fazer, Victor já podia planejar cem situações diferentes para se aproveitar dessa falha.

Com o cansaço e lentidão inteiramente vencidos, ele já se levantava de um pulo do sofá, desagregando-se de todos os tecidos enroscados, atirando vários panos aos ares, e começava a andar de um lado para o outro no centro da sala, pensando em total silêncio. De passos em passos e pouquíssimo tempo depois, em um ponto resolvera então parar, tendo enfim decidido o que fazer. Ele começava a esquadrinhar a casa como uma planta baixa em sua mente, fazendo análises próprias de onde iria começar ou o que fazer primeiro. Agora, portanto, o esforço se resumia apenas a colocar à prática.

De imediato, começara a andar apressado em direção ao corredor que ligava todos os cômodos da casa, passando por vários quadros esquisitos nas paredes e portas entreabertas, no caminho. Seu destino, no entanto, era a última porta no fim do corredor, estagnada não a um de seus lados, mas exatamente à frente de seus olhos, como se o convidasse a entrar mais facilmente. Ao chegar lá, abrira a porta sem pretensões para se deparar com um quarto vazio de gente e pintado com certo mau gosto, exibindo uma cor diferente em cada parede.

Mesmo assim, o que de fato incitava o interesse de Victor se encontrava atrás de outra porta neste quarto, presa no canto oposto, e que levava ao banheiro. Atravessando o quarto e então a porta, logo à visão do interior do banheiro, seus olhos já podiam distinguir o que ele procurava, sentados com sutileza na bancada da pia. Antes que pudesse pensar e à menção de pegá-los, Victor já saía do banheiro e do quarto, com direção irretornável sempre ao corredor, com um estojo de maquiagem e um batom atados às mãos.

De volta à sala, Victor ria sozinho e silenciosamente ao imaginar a primeira fase de seu plano de distração pessoal completa, conforme chegava mais perto de Ian e se agachava ao seu lado. Posicionado e com as ferramentas prontas para uso, Victor começava a balbúrdia com o estojo de maquiagem. Pegava vários tipos de pós de cores e utilidades diferentes e jogava-os impiedosamente no rosto de Ian, sem tocá-lo. Com os dedos, juntava quase toda a quantidade de poeira que ali continha e, esfregando um dedo no outro, deixava o pó cair desejosamente.

Quando terminara o processo com os pós, fazendo com que todo o conteúdo se transportasse da caixa para o rosto de Ian, Victor começava a etapa mais delicada, com o batom. Além das mais diversas cores, até então inomeáveis, o batom que Victor passava na testa e bochechas daquele moribundo ia demarcando fronteiras entre as partes de seu rosto e desenhando formatos eróticos que, ao seu crítico olhar, apoiavam tremenda graça.

A essa altura, cada parte daquele rosto irreconhecível patrocinava uma cor distinta em seus vários tons, dando a impressão de que, se não fosse dia, aquele moleque perturbado poderia ter facilmente acabado de dormir na casa de um cliente após uma demorada noite de trabalho duro nas esquinas da cidade. No entanto, essa não era a situação, e Victor gargalhava da ocasião de poder aproveitar-se maldosamente da condição de seu amigo indiscutivelmente vulnerável.

Como se já não bastasse, as idéias de Victor continuavam vindo à tona para tornar aquele dia ainda mais especial, e a segunda parte de seu plano, obviamente após ter transformado o amigo em alguém digno de pena, era a que Victor estava prestes a realizar.

De volta ao seu caminhar, dessa vez a porta a que ele se dirigia não era a última da extensão, mas sim a primeira à direita, logo na entrada daquele corredor tão medonho quanto o seu morador. Entretido, dessa vez o destino era o seu próprio quarto, onde ele pegaria sua câmera fotográfica para registrar o momento eternamente em sua história. Assim, depois de já ter procurado a máquina em alguns cantos possíveis e então ter-la achado, Victor voltava à sala com o aparelho ligado em punho, e fotografava toda a beleza de Ian com o seu merecido orgulho de produtor, e sorrisos alegremente bizarros estampados na cara.

Ultrapassada mais essa etapa, agora não restava muito que fazer que não voltar ao seu quarto e, como um estupendo fim de ópera, publicar as fotos tiradas em qualquer lugar com plausível audiência. Portanto, sem hesitar ele já retornava ao quarto e ia se sentando na cadeira defronte com o computador também ligado e, rápido em suas habilidades, passava as fotos diretamente ao disco rígido da máquina, em poucos segundos.

Logo, com as fotos prontamente arquivadas e abertas no computador, o passo final se resumia apenas à publicação em quantas comunidades de relacionamento social quanto fosse possível. No mais, todas as janelas desejadas já tinham sido abertas e carregavam as fotos para diversos sites ao mesmo tempo. Agora, enfim carregadas por inteiro e irrestritamente abertas ao público, as fotos se portavam como motivo de piada incontestável a todos aqueles que, em segundos, já conseguiam visualizá-las e comentá-las.

Aliviado de toda a tensão, Victor respirava fundo por ter conseguido arranjar o que fazer naquele dia morto, e se sentia extremamente satisfeito consigo mesmo, exalando perfumes zombadores. Afinal, o dia fora aproveitado de alguma forma, e ele talvez se lembrasse para sempre do acontecido. De repente, do quarto era possível ouvir os fogos que alguns fanáticos irrelevantes faziam questão de soltar nas ruas: era fim de jogo. Portanto, a esse sinal Victor apercebera-se de que já era hora de acordar Ian e despachá-lo para casa.

Relutante, porém nem um pouco preocupado com o que o amigo poderia dizer ou fazer ao ver-se pintado como um idiota, Victor se dirigia a sala e, aos poucos, mais precisamente ao amigo, enquanto o chamava. Seu tom de voz era estável por hora, mas com os segundos passando à sombra da ignorância de Ian por não respondê-lo fazia com que suas notas subissem, e de pouco em pouco ele ia começando a gritar de longe. Chamava o amigo em voz forte e não ouvia resposta, e se perguntava que diabo de sono profundo era esse que o impedia de ouvir vozes ao seu redor.

Finalmente, como tomando uma posição, fora até Ian e o balançara vibrante, chamando o nome do amigo a centímetros do ouvido dele. O corpo do amigo estava debilmente mole de quem dorme, e ainda nenhuma resposta tinha sido ouvida. Enfurecido, Victor resolvera jogá-lo do sofá, e assim o fez com violência, agora berrando o nome de Ian em tom sarcástico, como se o acordasse para a vida. Mas a cena fora bem pior do que o imaginável.

Ao cair, o corpo de Ian fora projetado como um boneco sem ossos para o chão, sem sequer ter retomado os sentidos nervosos à menção de um susto como aquele, tendo caído em posição incrivelmente estatelada e anormal, imprópria de um ser vivo. Apesar de ter notado o fato, Victor continuava a balançá-lo no chão e chutá-lo de leve nos calcanhares em discreto desespero, mas a expressão sonolenta e impassível do amigo não mudava por nada.

E somente agora, desafiando quaisquer circunstâncias tão impensáveis e imprevistas, era que Victor percebia o que havia feito.

22 comentários:

Casa do Hippie disse...

Abraço do Hippie

kathia disse...

Sério,vou ser sincera.Você não acha que este texto está um pouquinho grande?rsrsrs(desculpe-me pela franqueza).Mas o blog em si está ótimo.

joão victor borges disse...

kathia-

Um pouquinho grande não, tá grande mesmo :\ Mas por algum motivo eu não gosto de postar em partes... seilá. Desculpa o capricho, e obrigado pelo elogio :)

A princess of Bel-air disse...

AH não...está grande ,mas está muito bem escrito XD
Adoreei as descriçoes ^^

Tatiana disse...

Eu achei muito interessante a temática com que vc resolveu tratar o assunto. Fugiu do convencional e foi muito feliz nisso. Adorei

__

http://www.coracaoonline.blogspot.com/

Jonatas Fróes disse...

Um texto sobre tédio. Foi longe pra escrever tudo isso hahaha

[]

Raah disse...

Muito bom seu blog. Só achei o texto muito longo e cansativo e o fundobranco não tah bom.

Hehehhe... a origem do nome do blog. Mas o titulo do blog pode ser ampulheta... só o domínio que não..

http://reciclandoevivendo.blogspot.com/

Larissa Mejía (: disse...

Bom podemos dizer que você escreve demais pessoa! hahaha
tanto em quantidade como em qualidade também (*
Demorei um pouquinho pra ler.
Mas muito bomo teu conteúdo.
se quiser me visitar...
O seu comentário é muito importante para o desenvolimento do meu blog :DD
http://oquepensoeuescrevo.blogspot.com/
Vlws
Beijo

Juηiøя disse...

Diminua um poko mais suas ideias

mas seu blog ta legal mano

visite: http://adolescente-antenado.blogspot.com/

Jonatas Fróes disse...

Já havia comentado anteriormente, não tenho muito o que adicionar. Bom texto!

[]'s

http://musikaholic.wordpress.com

Twister disse...

mano tu escreve bem, no entanto que se empolgou né...mais um pouquinho esse post vira um livro.

ai respondendo a sua pergunta tai outro video de bicho dançando. depois do susseco da tartaruga


http://os-manos-loucos.blogspot.com/2010/07/galinha-techno-dance.html

os manos loucos

Juηiøя disse...

Eu lhe peço encarecidamene que atualize sempre seu blog

por favor

flw

http://adolescente-antenado.blogspot.com/

Yasmin Silveira disse...

Você escreve mto bem! Adorei o post, a temática e o desenvolvimento.
Prabens pelo blog!

http://orasbolotas.blogspot.com/

Rpm23 disse...

escreve bem mesmo, faz parceria com meu blog.

http://imundoo.blogspot.com

Rodrigo Ferreira disse...

Sucesso para seu blog

Vc escreve muito bem

Gostei do seu blog

abraço

http://rodrigobandasoficial.blogspot.com/

♫ Angélica ♥ Kawai ♪ disse...

Adorei a postagem! Mas confesso que não li tudo... pulei umas partes...


=D

Karla Hack disse...

Adorei muito a forma como abordou o tema...
Show!
;D

BlacK SnaKe disse...

teus post sao praticamente verdadeiros editoriais..!

Henrique Alvez disse...

Depois de um tempo, pude voltar aqui e perceber que tenho várias atualizações para ler hahahaha. Farei isso com calma.

Sobre o texto, eu achei bem interessante. Dá pra ver que vc só vem aprimorando sua escrita com o passar do tempo.
Achei um bem inesperado esse final. Definitivamente odiaria estar no lugar do amigo sacaneador, nunca mais me livraria da culpa...

Continue atualizando e espere meus comentários nos outros pots, os lerei conforme puder.

Um abraço.

Wendell Amaro disse...

Nossa, tu escreve muuuito beem !
A temática foi mutio interessante, e o fim me deixou boquiaberto .

Só que o texto ficou grande . hehe

(a única coisa que eu não entendi foi o porque deum cara ter um kit de maquiagem em sua casa, você não especificou, seele era palhaço, travesti ou casado . mas de resto tá ótimo )

http://enorah.blogspot.com/

Guilherme Lombardi disse...

vocçe escvre muito bem, parabéns!

Anônimo disse...

molto intiresno, grazie