7 de julho de 2010

Quando Miro Vai à Praia

A praia estava linda como sempre. Apesar de toda a escuridão e o nevoeiro gélido do momento, o âmago espiritual do ambiente era o que definia o seu valor na pele de quem o sentia. Também, nunca tinha estado tão vazia. Ao estacionar seu carro no acostamento de um asfalto alto e recém-fundido e ir andando pelo calçadão de quiosques fechados, Miro percebia o lugar um tanto quanto o desejava: solitário. Nem a avenida pouco convincente em sua grandiosidade nem a areia branca estavam habitadas, talvez apenas por alguns animais dessa noite de nuvens negras ao céu, e Miro dependia da solidão para sobreviver pelo tempo que corresse.

O mar era de uma inquietude tão serena que, se não fosse por sua dimensão continental e seu barulho audível mesmo das montanhas, pelo menos àqueles que se subentendiam conectados, seria provável que Miro mal o reparasse no espaço, também devido a todo aquele negrume. Seu cheiro salgado era tão enjoativo que Miro não poderia parar de senti-lo jamais, muito menos numa madrugada quente e convidativa como essa, infernal em seus acontecimentos.

A procura de um lugar anacrônico nesse momento trouxe Miro ao pedaço mais marginalizado da praia, num horário aquém do pensável em ali se estar por qualquer mente semi-sã de contexto metropolitano. Era contraditório Miro ter procurado um lugar tão belo e transbordante em sossego para cavar sua raiva após ter-la enterrado mais fundo em seu peito, conforme andava. Contudo, era possível relacionar algum tipo de sentimento contido com os fatores inusitados da praia, como as trevas temporárias e a solidão.

No calçadão, a sensação de desinibição de Miro ainda não era completa e, num trecho da caminhada, as luzes dos postes altos tinham se vandalizado a apagar, e agora mais cego que nunca, foi esse o pedaço que Miro escolheu para se dirigir à areia e, sentado nela em pleno descompromisso, esperar. Para ele, as primeiras horas da manhã eram mutáveis conforme o pensamento, assim como a praia – de água, areia e ar renováveis. Nesse quesito, ele se encontrava no lugar origem da imprevisibilidade.

Se tornar previsível todos os entendimentos da vida fosse possível, talvez ela tivesse mais graça – o contrário do que muitos poderiam contestar. Das experiências se pressupunha depressão, principalmente quando se tratava de uma vida abalada. Em boa parte do passado e há de recente, sua cabeça nunca esteve tão ligada a nada por muito tempo, numa fixação única de persistência, como tendo relações com tudo num ritmo constante e natural, de quem propicia ações automaticamente, e isso corroia seu trajeto. De vez em quando, portanto, era necessário um foco preciso, e sem planejamento Miro encontrava situações favoráveis para consegui-los da forma mais falsa e irreal que pudesse inventar, como essa, até que seus planos voltassem a desabar e o ciclo se reconstruísse.

Reflexões em flexões não muito bem trabalhadas eram recorrentes nos devaneios de Miro, e agora ele já esperava sentado fazia muito tempo. Já era quase de manhã, e o seu período de castigo ordenado deveria estar chegando ao fim, ao raiar do sol. Olhando para o céu, Miro percebia nuvens muito densas, quase que camufladas ao céu preto de tão carregadas, porém separadas o bastante para evitar um dilúvio. Assim como acontecia com o nevoeiro, o vento transportava sem muita expressividade as nuvens para lugares aleatórios aos lotes vagos no céu e, portanto, a distribuição final ainda era uma dúvida.

Em minutos, a cerimônia auto-reflexiva de Miro estaria acabando, e ele estaria limpo e sóbrio por algum tempo indefinido, até que tivesse de retornar a esse mesmo ponto, e descarregar as energias. A ansiedade pelo raiar do sol era concreta, mas não muito espiritualmente humana. Para quem sempre se dirigiu à esperança da resolução como uma virtude constante, era de mais consistência que ela deixasse de ser de importância carnal e, possivelmente, a cada vez que Miro buscasse por ela nesses termos, que se tornasse mais material e manuseada.

Assim, o sol finalmente começava a se mostrar bastante fraco e inexpressivo num horizonte inatingível no oceano, que continuava tão negro quanto antes, ainda forte à imposição de uma luz miserável. No mais, ironicamente, essa luz se aprontava a continuar não cobrindo as terras que lhe pertenciam, mesmo estando em nascimento e, logo, em pleno fulgor. Deveras, essa luz prometia ficar ainda mais fraca com o amanhecer, o contrário do que podia se pensar, pois as nuvens negras no céu, enfim lançadas em suas posições finais, nesse pequeno espaço de tempo em que Miro não se importou em assisti-las crescer, cresceram.

Em pouco, todo o espaço que antes era negro proveniente do universo, agora era negro das nuvens e seu filho nevoeiro. Agravadamente férteis, em instantes inesperados uma chuva forte e grossa começava a cair sem pena, furando quaisquer solos. O sol desapareceu em seus próprios terrenos, o mar começava a se revoltar com a água concorrente, revirando-se em seus eixos, e Miro se portava completamente intacto na areia.

No fim, seu rito não fora simulado por inteiro, incompletamente saciado, e isso o chateava profundamente, o trazendo de volta à estaca zero de sua recomposição periódica. Seu corpo era imóvel a partir de agora, derrotado, e aos poucos a única força que poderia movê-lo, exclusivamente, era a da areia em erosão que cismava e implicava a ir-lo afundando em puxadas grosseiras para baixo, nas cavidades abertas pela água.

32 comentários:

thaaty disse...

caaaramba. seus textos me impressionam cada vez mais. Adorei! Ja escreveu ou pensou em escrever um livro? eu compraria *-*

Caio Gomes disse...

CARA GOSTEI MUITO DO TEXTO, VOCÊ ESCREVE MUITO BEM, A GENTE COMEÇA A LER NEM TEM PRESSA PRA ACABAR...

EM RESPOSTA AO SEU COMENTS LÁ NO MEU, VC É PARENTE DO MICK JAGGER? RAPÁ QUE PÉ FRIO! POR FAVOR, TORÇA PRA HOLANDA NA FINAL! KKKKKKKKKK

ABÇS!

Vainer Polo disse...

vc escreve muito bem...Parabéns

Jonatas Fróes disse...

E no final, Miro pensou, refletiu, se isolou, voltou pra humanindade e continuou se sentindo do mesmo jeito. O que acontece constantemente com qualquer um não é mesmo?

[]'s

http://musikaholic.wordpress.com/

jaka disse...

legal o texto, o mar e seu poder energizante-cleaner-revigorator .

Kleverson Morais disse...

incrível... fiquei sem saber o que dizer. Muito bom o seu texto.

Yuri Casari disse...

Muito bom o texto rapá!
Escreve muito. E deixa eu perguntar uma coisa: Porque aNpulheta com N?

The Bines disse...

" Em pouco, todo o espaço que antes era negro proveniente do universo, agora era negro das nuvens e seu filho nevoeiro"

achei esse trecho muito profundo.Parabéns!


http://biadsm.blogspot.com/

Vanessa disse...

"e se a morte fosse em cores e a vida preto e branco?"

Amei,

Vanessa Pinho

http://www.fabriciapinho.com.br/blog/

Macaco Pipi disse...

se é loco mano
AEHEAHAEHAE
NAO SEI PQ
ACHO ENGRAÇADO OS TEXTOS AQUI

Mundo Irado disse...

os textos dos seu blog são muito bons

parabens

http://mundosirados.blogspot.com/

Sequelanet disse...

Texto muito bom e bem escrito. Sempre achei seu blog ótimo em todos os aspectos: desing simples e objetivos e textos bem construídos.

Nayara disse...

parabéns .
vc escreve muito bem :)
adoro textos assim .

Vanessa disse...

Adorei seu texto!
Que coisa boa ficar olhando ou ouvindo o mar *-*

www.vanessafunnygirl.blogspot.com

O Jardim disse...

Gostei! Você escreve bem!

Conto com sua visita lá no meu blog
jardim-das-hesperides.blogspot.com

Estou seguindo aqui, espero você lá :)

Vainer Polo disse...

legal

Blog Lomadee disse...

Parabéns pelo blog.
Ótimo post.

Loverocklive disse...

Os textos que vc coloca aqui no blog são realmente perfeitos. parabéns e continue assim.

Brunosh disse...

caramba cara, surpreendente teu texto... estou te seguindo já...

só uma duvida... por que ANpulheta?,

grande abraço

Caetano disse...

Você escreve bem e tem um vocabulário louvável. Parabéns, mais um ótimo texto.

http://analisefc.blogspot.com/

Carolina Martins disse...

Se você for na comunidade e perceber, comentei no tópico "comentado!" e coloquei o link do meu blog, estava me referindo ao usuário loverock, do seguinte blog: http://www.loverocklive.com/2010/07/satellite-15the-final-frontier-novo.html (onde você mesma pode conferir meu comentário e a hora exata.), e não ao usuário João, do blog http://anpulheta.blogspot.com/. Infelizmente, aconteceu esse engano. Acredito que postamos na mesma hora, pois tenho certeza que o último blog a ser comentado era o http://www.loverocklive.com/ :)

Confira e espero que entenda o que aconteceu.

Carolina Martins disse...

Acabei esquecendo de comentar sobre o texto.

Belo texto. Você escreve super bem. Bom vocabulário e bom desenrolar na história :)

"Se tornar previsível todos os entendimentos da vida fosse possível, talvez ela tivesse mais graça – o contrário do que muitos poderiam contestar." :)

Fabiane Aline disse...

Belo texto, você sabe escrever muito bem. Não é um texto cansativo de ler. Parabéns, continue assim.

Espero a sua visitinha.

Beijinhos.

Guilherme disse...

bom texto vc escreve bem!

neetho b. disse...

sinto que eu também compraria seu livro haha (:
você é muito bom nisso hein!

já meu negócio é falar dos famosos haha-q
te espero no meu blog:
http://retrojovem.blogspot.com

Rodrigo Ferreira disse...

Sucesso para seu blog


Você escreve muito bem


abraço



http://friendsciaoficial.blogspot.com/

jaka disse...

bom o texto ta na hora de atualizar, rs

Fabiane Aline disse...

Já comentei nesse post, passei para te convidar conhecer o meu blog. O seu blog é bem legal. Beijos.

Karla Hack disse...

a inquietude do mar caiu no meu ser ao ler seu texto...
Mais um maravilhoso post, com muita probidade, inteligência e charme!
;D

Naty e Carlos disse...

"Nunca corra atrás de quem você ama. Simplesmente deixe que o tempo traga até ti quem realmente te ama..."
Uma Feliz Semana
BJS

Henrique Alvez disse...

Achei esse texto um tanto divagante, mas acho que era essa a intenção. Afinal, acabou transmitindo exatamente o que representa o personagem: Solidão.
Nada mais solitário que divagar pelos próprios pensamentos meio a uma busca que nunca acabará de fato.

Excelente.

Guilherme Lombardi disse...

Sempre com excelentes textos.