26 de agosto de 2010

Efeito Placebo (Conto)

O elevador subia o mais lento possível, com trancos eventuais em lugares específicos de sua rota, demonstrando a velhice tanto dos cabos quanto do corredor pelo qual o cubo negro passava. Em sua demora, eu aproveitava para me ver num espelho em desgaste, horrivelmente embaçado, que cobria, por inteiro, uma das paredes do elevador, e me sentia desfocado. A imagem refletida em seguidos cortes paralelos era digna de se encontrar em um espaço como tal, de tão suja que estava para igualar-se ao ambiente.


Minha testa brilhava como um espeto em brasa; minhas roupas molhadas como se eu tivesse nadado em mar aberto; minha bolsa de couro tão maltratada, que se desfiava em silêncio; e o cansaço dos meus olhos fazia com que se fechassem a qualquer chance dada. Nesses termos, eu não poderia estar mais suado. Deveras, o dia também não ajudara o meu emocional físico, insistindo em acentuar todo o desconforto do meu corpo em todas as ocasiões em que eu bancara o aventureiro, saindo solenemente à luz do dia.

Com um tranco especial, o elevador parara definitivamente no andar programado e, logo que sua porta começava a abrir, eu já forçava a entrada. Enfim, meu destino final era alcançado, quando tudo o que eu queria era chegar em casa, e assim eu me estendia a outra porta que facilmente se portava como deusa a alguns metros do elevador, e tocava a campainha.

A mente a mil, pensamentos borbulhando, a minha empolgação por estar a passos de um paraíso exclusivamente meu era imensa. Eu aguardava ansioso, e aqueles lá dentro demoravam a me atender. Queria entrar. Toquei a campainha novamente. Com os ouvidos exageradamente aguçados, eu tentava distinguir algum som vindo de dentro, mas tudo que conseguia ouvir era a minha respiração falha. Precisava entrar. Impaciente, toquei o minúsculo botão da campainha sendo grosseiro, e insisti em deixar meu dedo a pressionar, até que o barulho se tornasse demasiado irritante. E esperei até que alguém aparecesse.

Mas, contrariado, depois de mais de quinze minutos à espera de algo inexistente, nenhuma voz conhecida me gritou que estava tendo dificuldades para achar as chaves, e ficou claro que não havia ninguém em casa. Mesmo não me permitindo acreditar, ao perceber a tragédia, prestei-me a, pelo menos, sentar no chão gelado do corredor, de costas para o meu lar e de frente para essa outra porta essencial em um passado distante, que agora já se fechara. Em pouco, a luz sensorial do cubículo estranho se apagou, e o que eu mais desejava era que alguma das portas se abrisse.

Meu tédio emergente fazia o papel de me consumir as ideias e soluções para o problema, e sentado ali, sozinho e vulnerável, eu não conseguia pensar em nada. Num esquema mais prático, imaginava que, em algum momento, mais cedo ou mais tarde, alguém passaria por ali para me levar embora, servindo de alavanca para qualquer que fosse o meu destino. Afinal, tanto o elevador quanto o apartamento eram inatingíveis naquele instante. Ademais, levei tempo para enxergar o quanto aquele corredor, em ocasiões míseras, podia se transformar em um lugar gélido e sombrio. Parecia incessante a verdade de que, em momentos ruins, os habitantes de todo aquele andar e até mesmo do edifício inteiro se punham a desaparecer.

Entretanto, todos os ausentes não fariam falta, mesmo se estivessem presentes. Afinal, eu não precisava de ninguém que não morasse no apartamento que lambia minhas costas, minha única aspiração. Dessa forma, eu haveria de esperar sentado pelo tempo que durasse o sempre, à espera de qualquer um que me carregasse para dentro. Eu, um eterno idiota, sentado no capacho depois de um dia incrivelmente exaustivo, sem ter acesso à minha própria casa. E chaves não faziam diferença, contanto que eu pudesse contar com alguém infiltrado para me deixar passar ao meu estimado santuário.

A lógica, no entanto, foi a única que me abateu de forma devastadora, fazendo o sentido dos mais puros e refinados. A casa era minha, e chaves eram dispensáveis, contanto que houvesse alguém para me abrir as portas. Na situação corrente, portanto, eu não podia depender de ninguém para essa satisfação específica, e tudo o que eu tinha que fazer era procurar a chave dos céus em algum dos meus vários bolsos. Maravilhado, comecei a explorar todos os buracos possíveis remendados em meus trajes, encontrando tudo de mais desinteressante pelo caminho, até que meus dedos tocaram o objeto coringa em minha experiência inusual do dia.

A chave pequena e discreta começava a reluzir prateada quando me levantava do chão áspero, automaticamente obrigando as luminárias no teto a se acenderem a meu dispor. Extasiado, de pé e com as mãos tremendo à imagem da tão bela porta se abrindo, eu já enfiava a chave na fechadura e a girava, ouvindo os cliques mais orgasmáticos da minha vida. E a porta estava desbloqueada.

Entrei no apartamento com um sorriso amarelo imaginário tão grande, que, se fosse real, deslocaria minha mandíbula. A sala, cômodo de recepção a visitantes e fachada de toda a casa, se encontrava tão escura e fria quanto o corredor lá fora, apesar de estar serenamente arejada pelos ares quentes de verão que adentravam a janela escancarada num canto. Andei até meu quarto em preparo para uma estada longa em casa e, logo que entrava já largava a bolsa pesada e gasta num espaço pré-determinado no chão, e já ia tirando as minhas roupas mais suadas enquanto me deitava ritmicamente na cama mais confortável.

Deitado, eu fitava o panorama do meu quarto como se fosse ouro, com seu armário de carvalho antigo a um canto, uma mesa de granito negro presa à parede oposta e uma estante branca à frente da cama, evidentemente ordinária. A estante estaria por completo vazia se não fosse por um frasco também muito branco, posicionado estrategicamente de situações anteriores por mãos necessitadas, e que seria de importância vital naquele dia. Afinal, era o frasco que saciava majoritariamente a minha vontade infantil de voltar para casa e, mais a fundo, para o meu quarto, desde a última vez que eu saí.

Com esses pensamentos em mente, eu me deixava levar pelo reflexo desajeitado do meu corpo e me levantava da cama em um pulo, deslocando-me rapidamente em direção à estante. Lá, com os olhos perfeitamente alinhados à tampa do frasco e o nariz quase colado à madeira branca, eu trabalhava minha mão para que pegasse o tão lindo frasco e, com ele dormente em minha palma de dedos protetores, andava até a mesa negra para ali depositá-los.

Tremendo, eu já colocava o frasco sobre a superfície e o abria frenético, imediatamente enfiando alguns dedos à procura de qualquer cápsula disposta a ser minha e, em segundos, já tinha a preciosidade recorrente eleita. Vermelha e branca, listrada diagonalmente em sua forma cilíndrica, fitando-me estava a cápsula incandescente, em relevo à mesa plana, chamando-me por seus poros. Fiquei ali, parado por alguns instantes, apreciando a beleza da cápsula colorida em evidência sobre a mesa preta, porém só até o transe ser quebrado e eu me perceber vivo novamente.

O chão não estava nada perpendicular à minha posição eventual, de pé em pernas bambas, mas eu havia de buscar minha auxiliar pelo resto da casa de imediato. Portanto, num ato estabelecido, iniciava a caminhada até o lugar mais arejado onde tomaria posse d’água. Ao passar pela porta do quarto, mesmo à distância, eu já conseguia distinguir uma garrafa de plástico maltratada com várias reentrâncias, jazendo fria e quase vazia na mesa de centro da sala, apesar de comportar uma água relativamente quente e antiga. Chegando ao lugar sem ter enfrentado nenhum obstáculo que não meu desequilíbrio, dada a falta de seres humanos na casa, já abraçava a garrafa de modo a maltratá-la ainda mais e, relutante, eu a guiava de volta ao quarto da cápsula.

Finalmente estacionado em definitivo em meu quarto, eu me sentia aliviado por estar cara a cara com a mesa negra e seus pertences. Ali, sentadas harmonicamente à minha frente, minhas duas preciosas sorriam indigentes, provocando-me a fazer, de novo, com que sua essência me manipulasse. Livre de culpas eu assentia e, se porventura, num impulso minhas mãos levassem a linda cápsula diretamente à garganta, que logo seria banhada sutilmente por água, eu seria consertado.

Portanto, sem pensar duas vezes e treinado em inúmeras ocasiões anteriores, num impulso minhas mãos levavam a linda cápsula diretamente à garganta, que logo era banhada por uma água tênue em demasia contente por ser parte de mais um plano de paz. Nessa situação, eu aguardava tranquilamente, até que as duas penetrassem, de tão fundo, a minha alma, e me deitava na cama enquanto fechava os olhos, à espera.

Enfim, agora que ambas eram inexistentes, a cápsula e a água requentavam o calor do meu corpo para, instantaneamente, fazer com que minhas pernas retomassem a estabilidade e que meus pensamentos fossem recompostos. Deitado singelamente numa cama única, se referenciada ao resto da casa, esta pobre de gente e espírito, eu não poderia me sentir menos solitário. Toda a minha vida passava sempre como flashes em meus dias, mas, nesse momento em particular, mais do que nunca, eu a sentia viva e propensa a ser minha manipulada.

Reabilitado, eu me levantava em pés descalços e guardava o frasco com cápsulas irmãs de minha amiga de volta à estante clara, local provável onde eu o acharia em futura ocasião, pois, em deliberação, meus destinos iminentes estariam sempre a salvo se eu coexistisse com minhas cápsulas sem princípios ativos e seus efeitos placebo.

24 comentários:

Suzy Carvalho disse...

Beem legal =D

Anônimo disse...

Realmente ler textos muito grandes não é a minha. Mas valeu TOTALEMNTE a pena ler este. é realmente MUUUITO bom, de verdade ! Parabéns !

Anônimo disse...

João, nem preciso dizer q este texto é demais né ? Já havia lido, aliás, tenho ele aqui em casa impresso. Mas mesmo assim precisava comentar (: Finalmente vc pôs ele aqui :D Bjs Julia Vital.

Alan Costa disse...

estava na hora de escrever um conto, suas palavras são ótimas, gostei, envolvente, muito bom mesmo.
abraço.

Caio Gomes disse...

muito boom mesmo, um dos melhores que ja vi blogsfera a fora...

http://deixakieto.blogspot.com/

Rony Phanuelly disse...

Muito bom seus textos. :)
Desculpa a demora, estava lendo e tive que sair :) Não te dei calote. shuasha

:) Muito bom mesmo, gosto de seus textos. Esse, apesar de não ser meu estilo de escrita, é fantaástico :O
Gostei bastant. :)
O final é intrigante, o que torna o texto ainda mais interessante. :)
Continue assim *-*
Você tem futuro.

Beiiiijos

• nathy disse...

noossa.. apesar de grande, mtt bom *-* http://refugiodiario.wordpress.com/

Pâmela ;) disse...

olha esse texto deve ser bem legal,porém eu nem li direito uma priquisa kkkkk blog bem legal parabens!

CristaL. disse...

Nossa... Adorei o texto... Não consegui parar de ler até terminar... Vc escreve de um jeito impressionante... Uma simples cena cotidiana virou uma bela literatura... Parabéns...

jaka disse...

da proxima vez, pelo menos mata o personagem, texto longo e chatissimo, o placebo na me levou a lugar nenhum...

indivídua disse...

"Eu, um eterno idiota, sentado no capacho depois de um dia incrivelmente exaustivo, sem ter acesso à minha própria casa."

todo mundo já se sentiu assim, pequenino e encolhido...

parabéns, num texto sobre algo corriqueiro registraste as emoções hmuanas

- Mariana Ferrer disse...

muito legal ;) belo post!

Anônimo disse...

muito legal! gostei da forma que escreves!

Floradas de amor disse...

Gostei bastante desse texto, prendeu por inteiro minha atenção. Voltarei com certeza para ler outros.

Good vibe

KGeo disse...

texto grande e legal

Zélio Marulo Jr. disse...

Oi Sr. joão Victor Borges, você foi em meu Blog e só agora veno retribuir a sua visita e fiquei maravilhado com suas "iscritas", você escreve bem pra caramba.


grande abraço.

www.bloginoportuno.blogspot.com

Bons Ventos!!

luciana disse...

muito bom o texto, a escrita é muito boa. Quanto a historia, instigante, sempre vivemos na ilusao achando que algo é uma solucao quando nao é.

CristaL. disse...

Pow, cara, se eu te dei algum calote foi mal, pq não foi a intenção! Eu só retribuo o calote qndo fazem comigo pq acho sacanagem, mais nada! Não tenho pq fazer isso com vc, até pq eu já comentei aqui no teu blog! Abraço!

Ana R. disse...

Eu achei excelente a narrativa; mas é rica "de mais" em detalhes e faz o texto fica meio monótono - não leve isso como crítica.

E seu blog está muito bom, gostei do design

Bom sábado

PENHA''' disse...

Muitas vezes me senti assim u-u ,
o final é mesmo bem intrigrante.. belo texto''

Macaco Pipi disse...

É O QUE O GOVERNO FAZ NA GENTE

Guilherme Lombardi disse...

Muito bem escrito esse conto, tá me fazendo relfetir sobre algumas coisas!

Bruna Fernanda, 24 anos! disse...

Bom, vou dzr primeiramente q ler esses textos grandes, é dificil :) rs amo escrever, mas ler :D ai ai
enfim, vlw mto a pena ter lido, adorei d vdd...
Parabéns e obg pelo comentário em meu blog!
Volte smp...

Bjão e ótimo feriado!

Karla Hack disse...

Belo ritmo de texto...
Bem intenso, bem criado e inteligente!
Adorei
;D