14 de janeiro de 2010

Pontal Crusoé

­ ­ ­ ­ ­ Eu nunca me senti tão livre.
­ ­ ­ ­ ­ Flutuando num mar aberto maior que qualquer fronteira desenhada nesse mundo,
­ ­ ­ ­ ­ meu corpo é levado para longe de tudo que eu conheço.

­ ­ ­ ­ ­ Nunca me senti tão anônimo na essência de estar só,
­ ­ ­ ­ ­ e é esse descaso que alimenta meu sentimento de liderança,
­ ­ ­ ­ ­ naturalmente automático nessa condição.

­ ­ ­ ­ ­ Estando longe da terra como estou,
­ ­ ­ ­ ­ nada se aplica ao meu viver senão a minha palavra,
­ ­ ­ ­ ­ e eu tendo a torná-la lei.

­ ­ ­ ­ ­ Nessa imensidão azul, a minha sociedade sou eu,
­ ­ ­ ­ ­ e eu não me considero subordinado à nada
­ ­ ­ ­ ­ que meus instintos possam julgar.

­ ­ ­ ­ ­ Estou mais livre do que sempre imaginei que estaria,
­ ­ ­ ­ ­ estou no topo de uma sociedade oposta àquela que eu tanto fugia,
­ ­ ­ ­ ­ escolhendo indubitavelmente me colocar num lugar
­ ­ ­ ­ ­ aonde eu posso seguir a minha justiça.

­ ­ ­ ­ ­ Individualismo não é a questão dessa fuga, pelo contrário.
­ ­ ­ ­ ­ O ideal seria que, naquele continente aquém do atingível,
­ ­ ­ ­ ­ o maior número de pessoas pudesse se reunir à decidir pelo conceito de justiça
­ ­ ­ ­ ­ e rever seus discursos sobre como a hipocrisia é uma solução.

­ ­ ­ ­ ­ Foi pensando nisso que me atirei do primeiro penhasco em direção irrefutável ao mar,
­ ­ ­ ­ ­ para que a correnteza me levasse para qualquer lugar inabitável
­ ­ ­ ­ ­ aonde eu pudesse revigorar minha energia,
­ ­ ­ ­ ­ depois da exaustão que foi viver naquele mundo.

7 de janeiro de 2010

Filas

É nessa vastidão branca,
­ ­ ­ ­ extensa em seus lotes incontáveis,
­ ­ ­ ­ sem solo ou quaisquer estruturas de apoio
­ ­ ­ ­ aonde, inexplicavelmente, é normal sentir-se leve de tal forma
­ ­ ­ ­ que, ao andar, os pés parecem mergulhados em água gelada.

­ ­ ­ ­ Essa claridade perturbadora causa uma cegueira tão natural
­ ­ ­ ­ que, ao cerrar dos olhos, é quase impossível distinguir
­ ­ ­ ­ o rosto de cada uma das milhões de pessoas ali,
­ ­ ­ ­ acompanhando umas às outras nessa terra de ninguém,
­ ­ ­ ­ e que mesmo na leveza corporal de seus pés,
­ ­ ­ ­ sofrem por estar caminhando enfileiradas.

­ ­ ­ ­ E mesmo aqui, onde tudo parece deslizar,
­ ­ ­ ­ o querer do progresso é inevitável,
­ ­ ­ ­ e o sofrimento dessas pessoas na fila
­ ­ ­ ­ é transformado em rápida repreensão
­ ­ ­ ­ quando, num momento, todos percebem
­ ­ ­ ­ que aguardar sem razão é perda de tempo.

­ ­ ­ ­ Olhar às laterais dessa fila sem fim,
­ ­ ­ ­ tentando calcular o tempo de espera
­ ­ ­ ­ até que a liberdade seja devolvida
­ ­ ­ ­ ao coração de todos os bobos que
­ ­ ­ ­ em total devoção por ela aspiram,
­ ­ ­ ­ é nada mais que eufemismo, sabendo que,
­ ­ ­ ­ num ato cruel, a fila obriga à todos
­ ­ ­ ­ a marchar em círculos.

2 de janeiro de 2010

Guerra no Porão

Joel corria pelo porão do navio buscando munição em cantos estratégicos e programados, e cada segundo perdido era precioso a essa altura. As impiedosas caravelas abriam fogo sem preocupações, para todos os lados, fosse em direção a terra ou às tantas outras navegações em volta. Não lhes importava acertar exclusivamente ao inimigo, contanto que estivessem adquirindo o maior número de feridos. As bombas, estupidamente jorradas dos vários canhões, se viravam contra todos, e ninguém podia se declarar salvo. O ar se tornava rarefeito à medida que o nevoeiro natural da região se misturava à enorme quantidade de fumaça projetada para fora dos canos armados, de forma a que, juntos, formassem uma massa densa e escura, pairando gentilmente às águas do Riachuelo.

Afora toda a situação, Joel tinha que se manter estável durante todo o período da batalha, e com mãos firmes carregava munição suficiente de volta ao seu posto, e logo já estava atirando mais balas de canhão, às cegas. Todos os seus colegas de anos de treinamento, cujos ele reconhecia a cada um, individualmente, e a todos como um grupo, passavam em imagens rápidas diante de seus olhos, podendo olhá-los, ainda que fosse impossível enxergá-los. Ao perceber a si mesmo como participante ativo de uma guerra, porém, se lembrava de tempos em que a discussão central era puramente sobre como eventualidades nacionais os colocariam em ambientes de batalha, e quanto tempo isso demoraria a acontecer.

Das lembranças de outros tempos, a que se fundia em sua memória mais constantemente era a de quando falara com sua família pela última vez, há tanto tempo. Sua esposa e seus dois filhos entendiam a causa da sua partida e sabiam que ela aconteceria em algum dia evidente. Ainda assim, deveriam estar aguardando em casa, sem saber o que estaria acontecendo ao pai e marido, sem saber o que ansiar.

Mas, afinal, agora ele estava ali, e não em casa.

Pelo humilde espaço entre o cano do seu canhão e a abertura pela qual sua boca se encaixava, Joel conseguia distinguir algo do que acontecia lá fora. Ele conseguia ver senhores bem-vestidos e armados nas proas e popas das outras caravelas, posicionados em combate. Conseguia ver a água do rio, por onde, às vezes, ele jurava ver corpos boiando, irreconhecíveis como pessoas, vidrados desonestamente e tendo perdido toda a sua dignidade. Conseguia ver uma das margens do rio, aonde se aglomerava uma quantidade de todo tipo de gente, de negros a brancos, de índios a asiáticos, numa multidão sem nenhuma organização, numa dança inquieta com pistolas, espingardas, lanças e canhões.

Todo esse contexto de guerra que Joel assistia poderia ser classificado como estilo de vida pela maioria dos combatentes ali. Mas agora, tendo sentido a experiência, percebia o quão estúpido era aspirar por algo dessa natureza. Tinha passado toda a sua vida se preparando física e psicologicamente para essa batalha, para ser parte dessa guerra e poder se orgulhar de tal feito. Todos os do Corpo de Fuzileiros Navais presentes, inclusive os fora desse navio, guerrilhando água afora ou mesmo em terra firme se prepararam para esse acontecimento que poderia ser declarado, no mínimo, sem graça. O desinteresse por essa guerra crescia gradualmente em Joel, e a sua ainda presença naquele lugar, lutando, matando pessoas que ele nunca vira, destruindo patrimônios e memórias, respirando aquele ar imundo, era uma simples consequência da sua inscrição feita há anos. Há tantos anos que Joel nem se lembrava porque havia se alistado.

Afinal, com todo esse caos que ele se forçava a continuar vivendo, pessoas estavam sofrendo por nenhum motivo aparente. Joel ainda não entendia ao certo o que uma guerra significava, mesmo levando em consideração os vários conceitos pensados e repensados. Ele tinha visto dezenas de pessoas automaticamente desqualificadas pelo mundo boiando por toda a extensão do rio, além de ter enxergado uns sete ou oito homens aleatórios sendo pisoteados na multidão à beira-rio. E, apesar de toda a devastação, ele tinha consciência de que controlara um dos canhões, e ficava se perguntando quantas pessoas ele havia matado naquele dia, ou quantas ainda mataria.

Num sentimento incrível de culpa e rebelião associados à obrigação de estar ali e servir com todo aquele descaso, Joel nunca se sentira tão mal. Olhava para seus colegas e questionava seus pensamentos, querendo que eles se sentissem da mesma forma, que soubessem como era ficar à deriva num momento em que nada pode ajudar. E acreditava que eles entendessem.

Mas, de qualquer forma, as mãos de Joel continuavam a atirar bala de canhão uma atrás da outra, sem parar. Seus movimentos eram automáticos e ele os fazia convicto de que era o certo, mesmo sabendo o contrário. E, para o rompimento da rotina com satisfação, toda a munição em estoque acabara com esta última bala lançada, e cabia a Joel decidir se, afinal, ele correria pelo porão para reabastecer sua base, e recomeçar.