15 de fevereiro de 2010

Separação

De um lado, uma mulher berra palavras inconfundíveis em meu ouvido. Do outro, um senhor nada lógico intervém na sobriedade de todos com seus pedidos absurdos. No meio do caos, atordoado por gritos intermináveis que mesmo quando pausados ecoam por todo o meu corpo, eu não consigo me manter firme a uma opinião, por mais que devesse, e fico sem reação.

A mulher, histérica e angustiada de tantas situações anteriores, avantajada de recursos retóricos pré-determinados, se põe como a voz de uma razão duvidável, passando comandos que, a vista de toda a história, poderiam não fazer sentido. Seus trajes leves esvoaçantes desviam qualquer atenção e, demarcando em cheio o seu cabelo curto encaracolado, deixavam a sua imagem embaçada como um todo. O homem calvo não de velhice, mas de desamparo, isolado de uma vida que há tempos era dele, se torna um contrapeso dentre todas as afirmações feitas até ali, e mesmo inovando não significativamente com suas explicações, se mantém rotineiro à sua pretensão de sempre.

Os argumentos ali fundados por ambas as partes em toda a discussão se perdem no trajeto do entendimento, e em pouco nenhum dos dois faz mais ideia de qual luta está lutando. O jeito, depois que a lógica não tem mais rumo, é continuar questionando causas perdidas, pelo simples desejo de se esfaquearem um ao outro, pouco a pouco. A ira dos dois amargamente se debruça montanha abaixo, crescendo a cada relevo que encontra pela frente, e em algum ponto desse caminho ela há de me achar, e me dominar.

Ainda sem reação a situação mais absurda, eu me porto como um burro no pasto, não podendo crer em qualquer opinião depois de ouvir tanta inutilidade. Convencidos, os dois tentam me usar como testemunha para atingir seus objetivos críticos, às vezes beirando a intenção de me usar como mero orador de uma opinião não minha, às vezes pelo profundo desejo de me ter aliado à sua escolha, por mais que eu não concorde ou queira tomar partido de algum dos lados. Em momentos como esse é impossível pensar, e então a melhor solução é se manter calado.

E, conforme o tempo passa, os dois se irritam mais com a minha falta de posição, e eu acabo por não ter nenhuma noção de quem eu sou naquele momento. Sendo apenas um pedaço de carne colocado de pé, me sinto um inválido entre berros e socos no ar, mas, por fim, não consigo fazer nada; meus pensamentos instintivos não me permitem. Afinal, ali de pé com ideias e críticas em punho, um machucando o outro, aqueles são meus pais, e por mais que eu tente achar uma resposta definitiva para o que toda essa rebelião infinita significa, eu não consigo, até porque nenhuma das versões dessa história ilógica faz jus em minha cabeça.

8 de fevereiro de 2010

Febres de Caxambú

­ ­ ­ ­ Tarde demais, Ian já podia sentir
­ ­ ­ ­ a meia-fase da luz do seu quarto acessa,
­ ­ ­ ­ mesmo de olhos fechados.

­ ­ ­ ­ Por conveniência, tivera que fingir dormir
­ ­ ­ ­ na noite anterior para enganar seus pais e,
­ ­ ­ ­ de manhã, parecer descansado.
­ ­ ­ ­ Mas Ian sabia de experiência passadas
­ ­ ­ ­ que tudo era apenas uma formalidade.

­ ­ ­ ­ Durante toda a noite, ansioso demais
­ ­ ­ ­ e beirando a insanidade, seus pensamentos
­ ­ ­ ­ rodeavam campos da sua imaginação cultivada de anos,
­ ­ ­ ­ e a concentração que Ian tinha neles
­ ­ ­ ­ superava a sua pouca vontade de dormir.

­ ­ ­ ­ Com a luz agora em sua claridade mais forte,
­ ­ ­ ­ Ian se sentia pronto para levantar
­ ­ ­ ­ e fazer com que sua noite às claras fosse uma ponte sólida
­ ­ ­ ­ para o que seria o dia mais feliz de sua vida
­ ­ ­ ­ e, ao abrir os olhos, distinguia na parede
­ ­ ­ ­ o calendário que o guiara até o dia presente.

­ ­ ­ ­ Com o olhar fulminante naquele pedaço de papel
­ ­ ­ ­ que só fugia à perfeição por faltar um dia a ser marcado,
­ ­ ­ ­ Ian já pegava a caneta no parapeito da cama,
­ ­ ­ ­ estrategicamente posicionada há semanas,
­ ­ ­ ­ e com o maior sentimento de realização possível,
­ ­ ­ ­ rabiscava o último dia atolado.

­ ­ ­ ­ Agora com uma vontade incontrolável de comer
­ ­ ­ ­ qualquer coisa que cruzasse seu caminho,
­ ­ ­ ­ logo no auge de sua hiperatividade,
­ ­ ­ ­ Ian se levantava da cama a toda voltagem.

­ ­ ­ ­ Hoje ele podia dizer que ia viajar,
­ ­ ­ ­ e a inquietude em sua respiração
­ ­ ­ ­ chegava a doer o peito estufado.