23 de março de 2010

Efeito Placebo

­ ­ ­ ­ ­ Vermelha e branca,
­ ­ ­ ­ ­ listrada diagonalmente
­ ­ ­ ­ ­ em forma cilíndrica, fitando-me
­ ­ ­ ­ ­ está a cápsula incandescente,
­ ­ ­ ­ ­ em revelo à mesa plana,
­ ­ ­ ­ ­ chamando-me por seus poros.

­ ­ ­ ­ ­ O chão nada perpendicular
­ ­ ­ ­ ­ à minha posição eventual,
­ ­ ­ ­ ­ de pé em pernas bambas,
­ ­ ­ ­ ­ se mexe conforme eu ando
­ ­ ­ ­ ­ ou rastejo até o lugar mais arejado
­ ­ ­ ­ ­ aonde tomaria posse d'água.

­ ­ ­ ­ ­ A garrafa de plástico maltratada
­ ­ ­ ­ ­ com várias bifurcações ao seu interior
­ ­ ­ ­ ­ jazia fria e quase vazia
­ ­ ­ ­ ­ em uma estante de um outro cômodo,
­ ­ ­ ­ ­ e relutante eu a retorno
­ ­ ­ ­ ­ para o quarto da cápsula.

­ ­ ­ ­ ­ Ali, sentadas harmonicamente
­ ­ ­ ­ ­ na mesa à minha frente,
­ ­ ­ ­ ­ minhas duas preciosas
­ ­ ­ ­ ­ sorriam indigentes
­ ­ ­ ­ ­ me provocando a fazer, de novo,
­ ­ ­ ­ ­ com que sua essência me manipulasse.

­ ­ ­ ­ ­ E se porventura num impulso
­ ­ ­ ­ ­ minhas mãos levassem a linda cápsula
­ ­ ­ ­ ­ diretamente à garganta,
­ ­ ­ ­ ­ que logo seria banhada
­ ­ ­ ­ ­ levemente por água,
­ ­ ­ ­ ­ eu seria consertado.

­ ­ ­ ­ ­ Portanto, num impulso,
­ ­ ­ ­ ­ minhas mãos levam a linda cápsula
­ ­ ­ ­ ­ diretamente à garganta,
­ ­ ­ ­ ­ logo sendo banhada sutilmente
­ ­ ­ ­ ­ por uma água em demasia contente
­ ­ ­ ­ ­ em ser parte de um plano de paz.

­ ­ ­ ­ ­ E, agora que são inexistentes,
­ ­ ­ ­ ­ elas requentam o calor do meu corpo
­ ­ ­ ­ ­ para instantaneamente
­ ­ ­ ­ ­ fazer com que minhas pernas retomassem
­ ­ ­ ­ ­ a estabilidade, e que meus pensamentos
­ ­ ­ ­ ­ fossem recompostos.

­ ­ ­ ­ ­ Reabilitado, guardo a caixa com cápsulas
­ ­ ­ ­ ­ irmãs de minha amiga em algum lugar
­ ­ ­ ­ ­ aonde eu as ache facilmente em futura ocasião
­ ­ ­ ­ ­ pois, em deliberação, destinos sempre estariam salvos
­ ­ ­ ­ ­ com minhas cápsulas sem princípios ativos
­ ­ ­ ­ ­ e seus efeitos placebo.

7 de março de 2010

Nina está grávida

Nina está grávida.

Meses antes, a notícia esperando a ser anunciada irradiava os olhos dos parentes sentados àquela mesa quase infinita em senso de curiosidade, e todos poderiam apenas exaltar idéias inexatas do que estava a vir, sem excluir, no entanto, a possibilidade de ser algo grandioso, aliás razão única para todos terem sido convocados a reunião. Em vantagem, os primos se sobressaiam na porcentagem familiar à mesa, e mesmo alguns, em geral jovens, sabiamente já podiam arriscar o rumo de tal revelação, sobretudo quando baseado na mentira de que, repentinamente, um casal sem filhos resolve reunir toda a família em um alegre churrasco de domingo para passageiramente bater papo. Naquele episódio, contudo, o burburinho rapidamente cessara quando Miro, marido de Nina, resolvera acabar com a ansiedade e, se levantando com interesse em um só fôlego, soltara a verdade.

"Vamos ter um bebê!"

De imediato, vivas irromperam de cada um sentado à mesa, e mesmo aqueles que ainda processavam a informação num andamento lento e supostamente retrógrado, logo já estavam em parceria com outros em uma imensa folia. Nina e Miro, aliviados de qualquer pressão depois de tanto sufoco e lágrimas, se relaxavam em pensamentos otimistas para o futuro. A princípio, a idéia de que uma nova vida dependia incontestavelmente de duas pessoas que estavam apenas começando a viver uma carreira no atual momento, e que no processo de aprender a viver, teriam que educar um outro ser vulnerável, era assombrosa. No instante em que souberam da sua realidade, já podiam designar inúmeras soluções e, por vezes, um aborto era o mais cotado, dentre outras opções. No entanto, apesar da gravidez precoce e dos seus dias de luto à eventualidade, decidiram seguir em frente acreditando em um destino intocável e irreversível. O anúncio, consequentemente, tinha sido feito pouco depois de terem aprendido a lidar com a situação e, agora anestesiados, sentiam o seu recém criado envolto de paternidade.

A frente, durante todos os meses de gravidez, Nina se consultava regularmente com o obstetra, e a sua vontade de ter aquele então feto nos braços crescia a cada dia. Os primeiros ultrassons revelavam um abdome muito embaçado com vários pontos opostos, ainda que apenas um deles fosse verdadeiro. Uma futura criança seria. Com o tempo, aquela minúscula bola ia tomando formas um tanto esquisitas, e há três meses grávida, Nina se deparava com um filho cada vez mais seu. Miro insistia em trazer visitas semanalmente para a sua casa e expor as primeiras fotos de seu primeiro filho como um prêmio, uma corrida do ouro cuja linha de chegada se aproximava a ser vencida. O fulgor de seus olhos não desmentia a sua satisfação, e aqueles dias de questionamento em sua vida estavam provisoriamente arquivados.

Os preparativos adiantados para que o bebê tivesse o mínimo de conforto nos dias iniciais de uma esperada longa vida estavam em andamento. O orçamento do casal ultimamente vivia apertado, mas não importava. Era preferível que os dois passassem fome durante alguns intermináveis dias a não receber o bebê com todo o calor possível. Além disso, a família também já se adiantava a ajudar, e com enormes saudações, presentes indiretos chegavam à casa de Miro e Nina por vez ou outra.

Em pouco tempo, o casal não mais se reconhecia, e a diferença entre uma Nina e Miro de hoje para aqueles dois abobalhados de meses atrás, assustados com a idéia de que teriam a sua emergência forçada a crescer de modo mais vívido e rápido, era visível. Enfim amadurecidos, eles se dedicavam abertamente a alguém inexistente, e a chegada cada vez mais próxima do bebê os fortalecia. Do óbvio ao sutilmente claro, a ansiedade para ter aquele filho o quanto antes e poder criá-lo a ser a melhor pessoa do mundo lhes soava como o desafio mais satisfatório, ainda que um dos mais ásperos.

E, gradualmente, o bebê crescia. Sentados de frente com uma médica um tanto eufórica, Nina e Miro eram avisados sobre o parto iminente e como proceder. Quase beirando os nove meses de enjôos e desejos, Nina se preparava para uma autêntica visita à maternidade depois de tanto repensar os acontecimentos, e Miro, enojado, não podia mais esperar um segundo sequer. Passava noites em claro imaginando em cores a chegada do bebê, passava os dias com olhos muito alegres em suas órbitas, exaltantes. Ao ouvir falar em qualquer assunto com relação à paternidade, ele suava frio de inquietude, e o nascimento do homem criado por ele não podia aguardar até meados daquele mês. Contudo, penetrando a pele como os arrepios de toda a eternidade, meados de agosto chegavam, e Nina os sentia.

A sensação era das mais estranhas, como se Nina tivesse a pouca vergonha de urinar em pleno corredor de seu prédio, publicamente. A bolsa havia estourado. Em alarme mas mantendo toda a calma, mesmo chorando, Nina chamava o elevador em desespero, e no momento em que suas portas começaram a abrir, ela inutilmente forçava a entrada. A porta do seu apartamento, como ela a viu, estava apenas encostada quando os bipes anunciaram um elevador se abrindo andares acima, e relutante, Nina chegou até ela.

"Miro! Pelo amor de Deus, a bolsa estourou," seu choro excessivo era de felicidade, mas a pressa em sua voz era inabalável, "corre!"

De um quarto, barulhos imediatos em resposta a berraria podiam ser ouvidos, e logo Miro irrompia pela porta vestindo uma de suas roupas mais desleixadas e carregando as chaves de algum carro na mão. A partir disso, ele a ajudou por todo o caminho percorrido e a fachada do hospital já podia ser vista pelo pára-brisa. Os rostos dos dois estavam coloridos de um vermelho intenso, em evidência o de Nina que há pouco começara a experimentar suas primeiras contrações, e na porta do hospital uma maca já lhes era preparada. Confusos, os enfermeiros andaram por todo o hospital com Nina gemendo na maca e Miro em marcha, logo atrás, para somente depois de algum tempo avisarem aos dois que teriam de esperar alguns minutos apenas, antes que uma sala da obstetrícia estivesse disponível.

Miro não conseguia dizer nada, mas enquanto esperava pela sala, fazia questão de segurar as mãos de Nina com todas as forças e, com olhares de profundo incentivo, avisar a ela que tudo daria certo. Afinal hoje, o maior acontecimento de suas vidas tomaria espaço, e ambos sabiam disso. Solenemente, mesmo depois do que pareceram décadas, os enfermeiros voltaram para buscar Nina e, eventualmente, o parto ia acontecer. Na sala, enquanto sendo conectada a vários tipos de tubos e monitores, uma enfermeira a conduzia por um exame de coerência respiratória, listando os passos certos para manter a calma em um parto como aquele. Em poucos segundos, o médico obstetra já entrava na sala e se preparava para conduzir o bebê à sua vida, e quase instantaneamente, Nina já sentia as dores da coroação; estava dilatada. O médico prontamente se ajeitou à frente e começou a trabalhar, mas, em um momento específico, seu rosto passou de preciso a indiscretamente preocupado.

"Senhor, moça, o bebê de vocês, infelizmente, está em posição invertida," ele falava rápida mas claramente, como se não tivesse tempo a perder, "e às vezes isso há de acontecer, mas para dar à luz com mais segurança, em alguns casos, temos que usar também de métodos alternativos para tirar o bebê, todos eles pouquíssimo arriscados. Vocês consentem?" e pausou seu discurso por uns segundos para, depois de ver as expressões do casal, voltar a falar.

"Também sempre há espaço para uma cesariana, se preferirem."

Em imagens de meses atrás, Nina e Miro lembravam seus planejamentos e de como tinham discutido que a melhor opção seria um parto natural, tanto por questões éticas, quanto físicas quanto médicas, principalmente depois de terem conversado com a clínica obstetra de Nina e terem descoberto que, em quaisquer das chances, Nina não fazia o perfil de uma mulher apta a uma cesárea. As idéias dos dois naquele momento eram únicas, até sincronizadas, e a decisão de cada um separadamente transparecia nos olhos um do outro. Rapidamente anunciado, o médico então prosseguia com o tratamento padrão que descrevera, com enfermeiros preparando mais sedativos e mais fios, e Nina deitava em trabalho de parto.

Então, Miro prontamente posicionado de forma a que pudesse dar as mãos a Nina e assistir ao nascimento de seu filho, o médico recomeçava a apalpar, estudando o melhor método para a retirada do bebê, qualificando, depois de algum tempo, que o parto não precisaria de instrumentos adicionais de grande porte. Ele mexia aqui e ali sem parar em movimentos que não faziam sentido algum, mas finalmente conseguira pôr os pés do bebê para fora, e já anunciara o feito dessa ópera a uma Nina aos berros. Entretanto, ainda que não fosse altamente relevante, a preocupação do médico se desconcertara ao ver os pés do bebê em tom azulado, e mesmo assim, ele continuava puxando com cuidado e guiando Nina precisamente, avisando-a quando empurrar e qual a intensidade dos impulsos, e o bebê ia saindo. Logo, o médico já preparava os braços para saírem sem serem virados, e o procedimento fora completo com sucesso em um sorriso amarelo por parte do médico, percebendo um bebê ainda mais azulado.

O episódio seguinte poderia ser classificado como, no mínimo, de mau gosto. À saída da cabeça do bebê, tanto o médico quanto todos os presentes naquela sala (exceto talvez por Nina, que não enxergava de seu ângulo) ficaram extasiados e incrivelmente apáticos. O bebê, já azul de outrora, saíra com um cínico cordão umbilical enrolado no pescoço e simplesmente não chorava. O silêncio se instalou por toda uma vida, especificamente agora que Nina já não berrava, e Miro começava a reagir a tal visão com imensas lágrimas branco-pérola saindo de seus olhos. Suas feições se transformaram de expectativa para tremenda angústia, e ao olhar Nina nos olhos, tentando colocar todo o seu perdão e miséria naquela intensa troca de olhares, suas palavras mudas foram lidas nas entrelinhas, e Nina chorava tanto quanto ele. E ninguém se atreveu a falar. Enfim, para Nina e Miro, o tão esperado parto estava completo, mesmo às circunstâncias horrendas e pouco prováveis de um destino programado.

E Nina não está mais grávida.