28 de maio de 2010

Liberdade Condicional

Numa fábrica, vários produtos são produzidos diariamente. Para tal produção, são necessários dois produtos já existentes e de modelos diferentes, que, ao utilizarem de suas funções, criam o novo elemento. A novíssima mercadoria, a partir de sua condição de produto-bruto, passa por milhares de experimentos e procedimentos que, a longo prazo, vão determinar a sua liberdade mercante com outros mercados e fábricas. Durante toda a sua vida útil, o novo produto é treinado minuciosamente pelos outros produtos seniores, de forma a que o pequeno e inexperiente tenha chances e expectativas de, um dia, chegar ao patamar mais alto de linhagem produtiva dessa fábrica.

Nesse processo, deveras duradouro e positivamente constante, o novo produto é forçado a criar funções próprias para seu funcionamento ideal, embora essas funções e praticidades sejam descaradamente copiadas das mercadorias velhas e descartáveis que os treinaram. Dessa forma, todos os mínimos detalhes seguidos pelos aprendizes devem ser levados em consideração, tanto para seu sucesso quanto para, coincidentemente, a reposição das mercadorias velhas e atualmente inativas no mercado. Afinal, para chegar a ser o mais cobiçado, o produto não pode falhar em nenhum de seus aspectos de vida, incluindo, dentro outros, seu modo de funcionar, modo de inteligência artificial, modo de coloração, modo de locomoção, modo de armazenamento, modo de preparar sua fala pré-determinada e, acima de tudo, seu preço.

E nenhum preço é concebido de mão-beijada, pois céus, durante todo o seu período ativo, o produto é forçado a trabalhar tão intensamente para, algum dia, poder comemorar na escala mais alta de nivelamento produtivo, chegando a acreditar que essa meta é maior que o próprio orgulho ou mesmo vontade de ter sido inventado. Mas, no fim, o preço do esforço vivido é compensado pelo preço tabelado no status de poder aquisitivo maior, dado ao produto vencedor.

Porém, cruel como só a fábrica produtora, resoluta em continuar a produzir quantas mercadorias quanto conseguir, a triste verdade é que nem todos os produtos, desde sempre determinados, são capazes de alcançar a sua tão esperada linha de chegada. De verdade, pouquíssimos conseguem. Números ínfimos. A robótica dessa fábrica é a mais difícil de ser totalmente centralizada por um só produto, pois de tanta complexidade tecnológica, é impossível não deslizar em alguns erros durante o tal treinamento eterno. Dos treinadores, poucos são mercadorias que atingiram o ápice de sua linhagem, e o resto é composto por produtos que perderam sua funcionalidade na tentativa de conseguir chegar ao topo.

Em suma, desde sua nascença, os novos produtos são modelados por agentes já experientes naquele mesmíssimo tipo de modelagem, e, sem recursos pensantes, os recém-nascidos se deixam levar e aderem ao tipo de criação igualitária que todos os produtos têm. Afinal, desde nascidos eles são submetidos a um modelo de produção rígido e que não merece contestação por parte de nenhum dos aderentes. A liberdade mercante de ir e vir do novo produto, concebida em primórdios de sua invenção, como registrado em todas as suas certidões feitas, não passa de uma mentira em letras mínimas de um contrato ou, em outras palavras, de uma verdade condicional.

Afinal, de todos os produtos produzidos nessa fábrica, desde a sua inauguração, apenas uma porcentagem mínima deles foi difícil de ser classificada e nomeada por ter essa forte virtude de opinião, pois nunca se propuseram a tamanha indolência ou almejaram o topo da linhagem produtiva, questionando aos donos os seus direitos de pesagem, dessa forma sendo sempre repulsados do processo de crescimento mútuo dos outros produtos. A outra porcentagem irrefutavelmente esmagadora, porém, foi desde sempre carimbada com um código de barras diferenciado e o nome “Humano” no plano da frente.

22 de maio de 2010

Canções de Telefone

O telefone toca incessante.
O ruído desanimador
é acentuado a cada chamada,
parecendo a cada bipe mais alto
o som monofônico.
A cabeça tem defesas hilofórmicas
e desatende ao barulho
em seus primeiros sinais,
ignorando-o não mais
que solenemente.
Pelo contrário, no clique
de um frouxo botão,
ela se concentra em um outro elemento
ainda muito anterior
ao importuno telefonema.
Uma música então se propaga transbordante,
provindo com classe de cantos mágicos
e penetrando clássica e ingenuamente
por todas as paredes de concreto humanas
conquistando o inteiro espaço restante.

Provocante, diminui com esplêndida expressão
todos os outros sons enlouquecedores
de terceiros, e com destreza revigora
a profundidade anonimamente vivaz
de todos os tórpidos ouvintes.