27 de junho de 2010

Espiralando

Um grupo de pessoas, de todos os tipos e tamanhos,
se aglomerava num hall de entrada imenso e comercial
defronte com uma porta cristalina de um elevador
e ao mesmo tempo com um lance de escadas
tão majestoso que chegava a doer-lhes os olhos.

O botão do elevador já tinha sido trabalhado anteriormente
e exibia uma luz bastante vermelha em suas bordas,
que refletia consideravelmente nos rostos
de todos aqueles homens e mulheres de pé
com expressões cansadas e maletas cansadas.

A escada continuava intocada mas brilhava também,
sem certamente desmerecer sua beleza,
num tom branco-pérola tão digno de seu material
polido pelo vento que entrava pelas janelas
e pelo olhar nojento e fulminante das pessoas em pé.

O elevador parecia fazer de propósito sua demora
imensurável nos suplícios apressados daquelas pessoas
que na sua pressa tão corrida e embalada, e corrida,
continuavam a esperar pelo elevador impacientes
mas parecendo demonstrar uma paciência inenarrável.

Pessoas estúpidas ou apenas cansadas, maculadas
de tempos passados, prováveis tempos tão preguiçosos
quanto os atuais, morrerão vivas encarando tão seriamente
o elevador que, quanto mais é requisitado de alma,
menos incita uma aparição – ação digna de aplausos.

Andem ou corram, não continuem a esperar o inalcançável
no exato momento em que existem saídas alternativas
a seus problemas cismados em não haver solução viável.
Acordem, bando de estúpidos sofridos que adoram sua condição
virem à esquerda e peguem esse diabo chamado escada.

16 de junho de 2010

Temporais

Do futuro, pouco é válido.
Dele, não posso querer almejar nada.
Não posso querer ter o controle
dos destinos criados por meus delírios,
que, contrariamente, hão de surgir por si mesmos.

Não posso querer planejar em linhas históricas
um rumo qualquer, visto que num segundo
tudo mudará, e minha vida rolará terra abaixo
se eu não souber conduzi-la diferentemente.
Do futuro, não posso esperar um pingo de certeza.

Do presente, pouco é válido.
Por estar vivendo no atual instante,
pareço desmerecer esse fato solidamente,
e não o dou crédito necessário.
No presente, sou motivado a perseguir ações
que me interessam, que eu faço pelo orgástico desejo
ou necessidade do momento.

Das outras ações rotineiras,
cujas são maiores que as prazerosas
e seguidas num ritmo doentio dia após dia,
essas eu não vivo. Elas passam por mim tão batidas
que eu as ignoro, pois precisarei delas para sempre,
e nunca as darei atenção ou vivacidade. Do presente,
vivo apenas o diferente, o que se resume a quase nada.

Do passado, pouco é válido. Como no presente,
tenho capacidade infinita de lembrar as coisas extraordinárias.
Elas vêm à cabeça como um ninho de beija-flores inquietos,
e delas me orgulho. Do resto da minha vida,
um resto maior e sobreposto à quantidade
de lembranças marcantes, eu não me recordo em nada.

De todos aqueles dias pacatos que vivi,
deles não me lembro.
Foram deletados cruelmente,
excluídos de uma história de vida.
Do passado, lembro apenas o diferente,
o que se resume, igualmente, a quase nada.

Demarcadas, então, linhas de existência,
eu apenas levianamente estou vivo,
beirando a condição de moribundo,
pois, do tempo, pouco é válido.
Será que eu indiscutivelmente
vivo toda a minha vida?

10 de junho de 2010

No Poço

Uma lâmpada incandescente
é ao que se assemelha
a luz da televisão ligada,
refletindo duas únicas cores
diretamente no meu rosto,
penetrando sem receios
a minha retina.

Largado nesse sofá gelado,
imóvel eu permaneço, quase afogado
em um etanol imaginoso.
Não tenho forças suficientes
para me erguer e ir me tratar,
pois continuo olhando enfurecidamente
para a televisão.

Na tela, um imenso relógio
ocupa todo o espaço mostrado,
e vai andando e correndo
e fugindo, e contando
de segundo em segundo
todos os segundos que eu cismo
e necessito assistir.

O relógio me agride, me faz pensar.
Estupra a minha mente, me entorpece
e me prende ainda mais ao sofá.
Se eu fosse provido de sustentabilidade,
alcançaria ao controle remoto
para me livrar da crueldade
de ter de assistir ao relógio ticar.

É uma tortura.
Faz-me lembrar de coisas
que eu não quero cogitar.
Decresce segundo por segundo
até se tornarem minutos
e, de má vontade, horas intermináveis,
em contagem regressiva.

Gargalham da minha cara
conforme passam. E eu,
de propósito, não me dou o direito
de mover sequer o braço,
sequer as pernas que se arrastaram
sadicamente ao sofá
para olhar o relógio passar.

Me submeto a tais tipos
de terapias pavorosas, como essa,
para tentar quebrar a dúvida.
Quanto tempo mais
até o fim da minha vida?
E não estou falando
da minha morte.

3 de junho de 2010

Descaso Escolar

Um professor que, vanglorioso num palco em saliência,
na quina de uma sala de aula, enuncia palavras
como quem realmente o faz em vão, o faz em vão.
Sua imagem não passa segurança nem tampouco intimidade,
e cada palavra cantada, ele transmite impressões de que,
mais profundamente, tem certeza de que nada daquilo
está sendo absorvido por nenhum dos cérebros ali.

Um aluno que se sente preso a uma obrigação corroente
e desconcerta-se, numa situação pouco confortável,
quando perguntado se comparece às reuniões diárias
por esforços externos ou por livre e voluntária vontade,
não pode ser produtivo em nenhum quesito
ou ter qualquer outra reação que não seja dormir,
quando presente em um desses agrupamentos matinais.

Portanto, se ambos forem continuar com tamanha hipocrisia,
insistindo em viver de forma desinteressada
por não serem essencialmente movidos à vontade,
é melhor que poupem a si mesmos de tal martírio.