26 de julho de 2010

Luta de Desaparecido

Prefere mesmo é lutar revidando, covarde,
tendo vindo me atacar à porta de minha casa,
linha desenhada e divisória de espaços,
com todo o seu ar pomposo de quem,
de fato, exerce um falso poder.

Mas eu também possuo alguma voz,
e argumento com reivindicações válidas
todo o não ocorrido, assim como você,
até chegarmos ao ápice cívico
de automática violência.
Por vezes, sou eu o covarde.
Por outras, você toma o posto
e o assume como ninguém.
No mais, quando eu estou reinando
também sou imbatível.

Desde sempre, nós poderíamos
apenas idealizar fantasiosamente
o que cada um pensava, em sua versão,
nunca tendo conseguido espaço suficiente
para conhecer ambas as faces.

Assim, suplementamos um ao outro
em muitos significados e instâncias,
armando planos de destruição mútuos e cegos
que, por fim, resultam em nada, feitos apenas
pelo medo do contra-ataque do outro.

Então apercebendo-me, peço meu arrego e me retiro
do campo de batalha, e você, seguindo meus passos,
dá passos na direção contrária.
Num empate de técnicas derrotadas
nós nos damos as costas uma última vez.
Mas como incrível causador de lutas,
não me agüento muito tempo longe
do adversário que há muito me ensinou
a viver de forma desequilibrada.
No caso, um preparo para a vida.

Logo, sem hesitar, te convoco de volta
ao campo, ciente do que pode acontecer.
Terminasse em paz ou em fúria,
sentia que necessitava de você,
sábio, novamente a meu lado.

E quem sabe você também,
como num espelho à mim,
não teria sentido falta dessa mesma rotina
que tomávamos, ou do modo peculiar
de agirmos, deslumbrados a todo instante.

Então, prontamente você retorna, cambaleando
como sempre em suas idéias, e eu nas minhas.
Pasmem! Você não mudou nem um pouco,
e isso me abre sorrisos na cara. Nosso segundo turno
promete ser ainda pior que o primeiro.

17 de julho de 2010

Brasil vs Portugal

O jogo estava um falso espetáculo. Na tela da televisão, o gramado verde era transmitido com uma cor tão nítida que chegava a ser impossível acreditar na veracidade daquele tom, pelo menos aos olhos das pessoas que deveriam estar vibrando com a partida, naquele estádio. Contudo, vários pontos amarelos e azuis, vermelhos e brancos se deslocavam com uma desmotivação visível àqueles milhares de quilômetros de distância, passando a impressão de que estavam ali tão somente para enfeitar o campo, fazendo o quanto pudessem para desnaturar aquele verde exuberante.

À metros daquela tela límpida e sutilmente tediosa, sintonizados na mesma vibração dos torcedores vivos no estádio, Victor e Ian se decompunham com o tempo e a crescente ridicularização daquele jogo. Sentados no sofá e vestindo as mesmas cores do seu time favorito à vitória, aos poucos eles iam transformando o sofá apenas branco em branco e amarelo, conforme deixavam seu corpo amolecer à falta de movimento, e se fundiam ao tecido. Logo, numa casa completamente desabitada, com exceção dos dois moribundos, era difícil distinguir o que era de essência humana e material mobiliário.

Victor se portava como quem assistia a uma palestra eternamente arrastada sob os ombros dos palestrantes, com temas girando entre as eras paleozóica e cenozóica. De fato, seria mesmo possível imaginar que ele degustava uma dessas reuniões se não fosse por sua posição obviamente fora dos padrões, com uma das pernas passadas por debaixo da outra, essa que, por sua vez, se abrigava dentro de um buraco aberto na almofada, enquanto ele apresentava braços cruzados em cima de toda essa orgia óssea e uma coluna positivamente estalada na diagonal.

Ian, por outro lado, não fazia questão da luxúria imposta pelo dono da casa quando se tratava de bons modos. Do outro lado do sofá, ele permanecia deitado em ares não mais que pacíficos, em posição acrobaticamente aceitável, e demonstrava estar mergulhado num sono repentinamente recente. Naquele momento, ele violava o código de um bom torcedor, mas certamente seu cansaço o teria tomado em uma partida tão emocionante quanto esta, e agora ele dormia tão tranqüilo que nem aparentava respirar.

Certamente, o ambiente estivera silencioso fazia tanto tempo que nenhum dos dois tinha se prestado sequer a olhar para os lados, se levantar e sentir o que acontecia nos arredores tanto internos quanto exteriores – muito menos Ian, que perdera os sentidos antes de poder pensar em reagir dessa forma.

Mesmo assim, Victor enfim decidira se pronunciar como ser digno e capacitado de movimentos, e numa virada de cabeça que lhe custara quase todo o relaxamento adquirido, olhara aos lados para sentir a situação atual. De início, não percebera que Ian estava absorto em um sono inesperado, tendo que lhe ser necessário ter retornado sua cabeça à posição original para somente então notar o fato.

Ao enxergar o acontecimento simplesmente milagroso para uma hora dessas, os olhos de Victor brilhavam ao ver o amigo dormir tão serenamente. Finalmente, à sombra daquele dia obrigatoriamente entediante, e também de seus pensamentos de natureza maquiavélica, Victor enfim encontrara uma brecha para fazer algo realmente interessante. No fim, o cochilo de Ian viera a calhar como a salvação de um dia que prometia ser passado completamente em branco e, na fobia pelo fazer, Victor já podia planejar cem situações diferentes para se aproveitar dessa falha.

Com o cansaço e lentidão inteiramente vencidos, ele já se levantava de um pulo do sofá, desagregando-se de todos os tecidos enroscados, atirando vários panos aos ares, e começava a andar de um lado para o outro no centro da sala, pensando em total silêncio. De passos em passos e pouquíssimo tempo depois, em um ponto resolvera então parar, tendo enfim decidido o que fazer. Ele começava a esquadrinhar a casa como uma planta baixa em sua mente, fazendo análises próprias de onde iria começar ou o que fazer primeiro. Agora, portanto, o esforço se resumia apenas a colocar à prática.

De imediato, começara a andar apressado em direção ao corredor que ligava todos os cômodos da casa, passando por vários quadros esquisitos nas paredes e portas entreabertas, no caminho. Seu destino, no entanto, era a última porta no fim do corredor, estagnada não a um de seus lados, mas exatamente à frente de seus olhos, como se o convidasse a entrar mais facilmente. Ao chegar lá, abrira a porta sem pretensões para se deparar com um quarto vazio de gente e pintado com certo mau gosto, exibindo uma cor diferente em cada parede.

Mesmo assim, o que de fato incitava o interesse de Victor se encontrava atrás de outra porta neste quarto, presa no canto oposto, e que levava ao banheiro. Atravessando o quarto e então a porta, logo à visão do interior do banheiro, seus olhos já podiam distinguir o que ele procurava, sentados com sutileza na bancada da pia. Antes que pudesse pensar e à menção de pegá-los, Victor já saía do banheiro e do quarto, com direção irretornável sempre ao corredor, com um estojo de maquiagem e um batom atados às mãos.

De volta à sala, Victor ria sozinho e silenciosamente ao imaginar a primeira fase de seu plano de distração pessoal completa, conforme chegava mais perto de Ian e se agachava ao seu lado. Posicionado e com as ferramentas prontas para uso, Victor começava a balbúrdia com o estojo de maquiagem. Pegava vários tipos de pós de cores e utilidades diferentes e jogava-os impiedosamente no rosto de Ian, sem tocá-lo. Com os dedos, juntava quase toda a quantidade de poeira que ali continha e, esfregando um dedo no outro, deixava o pó cair desejosamente.

Quando terminara o processo com os pós, fazendo com que todo o conteúdo se transportasse da caixa para o rosto de Ian, Victor começava a etapa mais delicada, com o batom. Além das mais diversas cores, até então inomeáveis, o batom que Victor passava na testa e bochechas daquele moribundo ia demarcando fronteiras entre as partes de seu rosto e desenhando formatos eróticos que, ao seu crítico olhar, apoiavam tremenda graça.

A essa altura, cada parte daquele rosto irreconhecível patrocinava uma cor distinta em seus vários tons, dando a impressão de que, se não fosse dia, aquele moleque perturbado poderia ter facilmente acabado de dormir na casa de um cliente após uma demorada noite de trabalho duro nas esquinas da cidade. No entanto, essa não era a situação, e Victor gargalhava da ocasião de poder aproveitar-se maldosamente da condição de seu amigo indiscutivelmente vulnerável.

Como se já não bastasse, as idéias de Victor continuavam vindo à tona para tornar aquele dia ainda mais especial, e a segunda parte de seu plano, obviamente após ter transformado o amigo em alguém digno de pena, era a que Victor estava prestes a realizar.

De volta ao seu caminhar, dessa vez a porta a que ele se dirigia não era a última da extensão, mas sim a primeira à direita, logo na entrada daquele corredor tão medonho quanto o seu morador. Entretido, dessa vez o destino era o seu próprio quarto, onde ele pegaria sua câmera fotográfica para registrar o momento eternamente em sua história. Assim, depois de já ter procurado a máquina em alguns cantos possíveis e então ter-la achado, Victor voltava à sala com o aparelho ligado em punho, e fotografava toda a beleza de Ian com o seu merecido orgulho de produtor, e sorrisos alegremente bizarros estampados na cara.

Ultrapassada mais essa etapa, agora não restava muito que fazer que não voltar ao seu quarto e, como um estupendo fim de ópera, publicar as fotos tiradas em qualquer lugar com plausível audiência. Portanto, sem hesitar ele já retornava ao quarto e ia se sentando na cadeira defronte com o computador também ligado e, rápido em suas habilidades, passava as fotos diretamente ao disco rígido da máquina, em poucos segundos.

Logo, com as fotos prontamente arquivadas e abertas no computador, o passo final se resumia apenas à publicação em quantas comunidades de relacionamento social quanto fosse possível. No mais, todas as janelas desejadas já tinham sido abertas e carregavam as fotos para diversos sites ao mesmo tempo. Agora, enfim carregadas por inteiro e irrestritamente abertas ao público, as fotos se portavam como motivo de piada incontestável a todos aqueles que, em segundos, já conseguiam visualizá-las e comentá-las.

Aliviado de toda a tensão, Victor respirava fundo por ter conseguido arranjar o que fazer naquele dia morto, e se sentia extremamente satisfeito consigo mesmo, exalando perfumes zombadores. Afinal, o dia fora aproveitado de alguma forma, e ele talvez se lembrasse para sempre do acontecido. De repente, do quarto era possível ouvir os fogos que alguns fanáticos irrelevantes faziam questão de soltar nas ruas: era fim de jogo. Portanto, a esse sinal Victor apercebera-se de que já era hora de acordar Ian e despachá-lo para casa.

Relutante, porém nem um pouco preocupado com o que o amigo poderia dizer ou fazer ao ver-se pintado como um idiota, Victor se dirigia a sala e, aos poucos, mais precisamente ao amigo, enquanto o chamava. Seu tom de voz era estável por hora, mas com os segundos passando à sombra da ignorância de Ian por não respondê-lo fazia com que suas notas subissem, e de pouco em pouco ele ia começando a gritar de longe. Chamava o amigo em voz forte e não ouvia resposta, e se perguntava que diabo de sono profundo era esse que o impedia de ouvir vozes ao seu redor.

Finalmente, como tomando uma posição, fora até Ian e o balançara vibrante, chamando o nome do amigo a centímetros do ouvido dele. O corpo do amigo estava debilmente mole de quem dorme, e ainda nenhuma resposta tinha sido ouvida. Enfurecido, Victor resolvera jogá-lo do sofá, e assim o fez com violência, agora berrando o nome de Ian em tom sarcástico, como se o acordasse para a vida. Mas a cena fora bem pior do que o imaginável.

Ao cair, o corpo de Ian fora projetado como um boneco sem ossos para o chão, sem sequer ter retomado os sentidos nervosos à menção de um susto como aquele, tendo caído em posição incrivelmente estatelada e anormal, imprópria de um ser vivo. Apesar de ter notado o fato, Victor continuava a balançá-lo no chão e chutá-lo de leve nos calcanhares em discreto desespero, mas a expressão sonolenta e impassível do amigo não mudava por nada.

E somente agora, desafiando quaisquer circunstâncias tão impensáveis e imprevistas, era que Victor percebia o que havia feito.

7 de julho de 2010

Quando Miro Vai à Praia

A praia estava linda como sempre. Apesar de toda a escuridão e o nevoeiro gélido do momento, o âmago espiritual do ambiente era o que definia o seu valor na pele de quem o sentia. Também, nunca tinha estado tão vazia. Ao estacionar seu carro no acostamento de um asfalto alto e recém-fundido e ir andando pelo calçadão de quiosques fechados, Miro percebia o lugar um tanto quanto o desejava: solitário. Nem a avenida pouco convincente em sua grandiosidade nem a areia branca estavam habitadas, talvez apenas por alguns animais dessa noite de nuvens negras ao céu, e Miro dependia da solidão para sobreviver pelo tempo que corresse.

O mar era de uma inquietude tão serena que, se não fosse por sua dimensão continental e seu barulho audível mesmo das montanhas, pelo menos àqueles que se subentendiam conectados, seria provável que Miro mal o reparasse no espaço, também devido a todo aquele negrume. Seu cheiro salgado era tão enjoativo que Miro não poderia parar de senti-lo jamais, muito menos numa madrugada quente e convidativa como essa, infernal em seus acontecimentos.

A procura de um lugar anacrônico nesse momento trouxe Miro ao pedaço mais marginalizado da praia, num horário aquém do pensável em ali se estar por qualquer mente semi-sã de contexto metropolitano. Era contraditório Miro ter procurado um lugar tão belo e transbordante em sossego para cavar sua raiva após ter-la enterrado mais fundo em seu peito, conforme andava. Contudo, era possível relacionar algum tipo de sentimento contido com os fatores inusitados da praia, como as trevas temporárias e a solidão.

No calçadão, a sensação de desinibição de Miro ainda não era completa e, num trecho da caminhada, as luzes dos postes altos tinham se vandalizado a apagar, e agora mais cego que nunca, foi esse o pedaço que Miro escolheu para se dirigir à areia e, sentado nela em pleno descompromisso, esperar. Para ele, as primeiras horas da manhã eram mutáveis conforme o pensamento, assim como a praia – de água, areia e ar renováveis. Nesse quesito, ele se encontrava no lugar origem da imprevisibilidade.

Se tornar previsível todos os entendimentos da vida fosse possível, talvez ela tivesse mais graça – o contrário do que muitos poderiam contestar. Das experiências se pressupunha depressão, principalmente quando se tratava de uma vida abalada. Em boa parte do passado e há de recente, sua cabeça nunca esteve tão ligada a nada por muito tempo, numa fixação única de persistência, como tendo relações com tudo num ritmo constante e natural, de quem propicia ações automaticamente, e isso corroia seu trajeto. De vez em quando, portanto, era necessário um foco preciso, e sem planejamento Miro encontrava situações favoráveis para consegui-los da forma mais falsa e irreal que pudesse inventar, como essa, até que seus planos voltassem a desabar e o ciclo se reconstruísse.

Reflexões em flexões não muito bem trabalhadas eram recorrentes nos devaneios de Miro, e agora ele já esperava sentado fazia muito tempo. Já era quase de manhã, e o seu período de castigo ordenado deveria estar chegando ao fim, ao raiar do sol. Olhando para o céu, Miro percebia nuvens muito densas, quase que camufladas ao céu preto de tão carregadas, porém separadas o bastante para evitar um dilúvio. Assim como acontecia com o nevoeiro, o vento transportava sem muita expressividade as nuvens para lugares aleatórios aos lotes vagos no céu e, portanto, a distribuição final ainda era uma dúvida.

Em minutos, a cerimônia auto-reflexiva de Miro estaria acabando, e ele estaria limpo e sóbrio por algum tempo indefinido, até que tivesse de retornar a esse mesmo ponto, e descarregar as energias. A ansiedade pelo raiar do sol era concreta, mas não muito espiritualmente humana. Para quem sempre se dirigiu à esperança da resolução como uma virtude constante, era de mais consistência que ela deixasse de ser de importância carnal e, possivelmente, a cada vez que Miro buscasse por ela nesses termos, que se tornasse mais material e manuseada.

Assim, o sol finalmente começava a se mostrar bastante fraco e inexpressivo num horizonte inatingível no oceano, que continuava tão negro quanto antes, ainda forte à imposição de uma luz miserável. No mais, ironicamente, essa luz se aprontava a continuar não cobrindo as terras que lhe pertenciam, mesmo estando em nascimento e, logo, em pleno fulgor. Deveras, essa luz prometia ficar ainda mais fraca com o amanhecer, o contrário do que podia se pensar, pois as nuvens negras no céu, enfim lançadas em suas posições finais, nesse pequeno espaço de tempo em que Miro não se importou em assisti-las crescer, cresceram.

Em pouco, todo o espaço que antes era negro proveniente do universo, agora era negro das nuvens e seu filho nevoeiro. Agravadamente férteis, em instantes inesperados uma chuva forte e grossa começava a cair sem pena, furando quaisquer solos. O sol desapareceu em seus próprios terrenos, o mar começava a se revoltar com a água concorrente, revirando-se em seus eixos, e Miro se portava completamente intacto na areia.

No fim, seu rito não fora simulado por inteiro, incompletamente saciado, e isso o chateava profundamente, o trazendo de volta à estaca zero de sua recomposição periódica. Seu corpo era imóvel a partir de agora, derrotado, e aos poucos a única força que poderia movê-lo, exclusivamente, era a da areia em erosão que cismava e implicava a ir-lo afundando em puxadas grosseiras para baixo, nas cavidades abertas pela água.