30 de agosto de 2010

Bique

Em uma mão, minha caneta preta.
Sua tinta rija desenvolve traços certeiros
no papel, intensa na cor que a caracteriza
aos que de longe a vêem lisa pois macia,
brilhantemente bem escrita.

Na outra, caneta de um azul frio inconvincente
tem carga completa, embora descreva palavras
secas pelo tempo e oscilantes a cada letra,
ora esboço ora robusteza. Foscos são os traços que,
além disso, também quase furam o papel.

Nas mãos, duas canetas.
Uma azul e uma preta.

26 de agosto de 2010

Efeito Placebo (Conto)

O elevador subia o mais lento possível, com trancos eventuais em lugares específicos de sua rota, demonstrando a velhice tanto dos cabos quanto do corredor pelo qual o cubo negro passava. Em sua demora, eu aproveitava para me ver num espelho em desgaste, horrivelmente embaçado, que cobria, por inteiro, uma das paredes do elevador, e me sentia desfocado. A imagem refletida em seguidos cortes paralelos era digna de se encontrar em um espaço como tal, de tão suja que estava para igualar-se ao ambiente.


Minha testa brilhava como um espeto em brasa; minhas roupas molhadas como se eu tivesse nadado em mar aberto; minha bolsa de couro tão maltratada, que se desfiava em silêncio; e o cansaço dos meus olhos fazia com que se fechassem a qualquer chance dada. Nesses termos, eu não poderia estar mais suado. Deveras, o dia também não ajudara o meu emocional físico, insistindo em acentuar todo o desconforto do meu corpo em todas as ocasiões em que eu bancara o aventureiro, saindo solenemente à luz do dia.

Com um tranco especial, o elevador parara definitivamente no andar programado e, logo que sua porta começava a abrir, eu já forçava a entrada. Enfim, meu destino final era alcançado, quando tudo o que eu queria era chegar em casa, e assim eu me estendia a outra porta que facilmente se portava como deusa a alguns metros do elevador, e tocava a campainha.

A mente a mil, pensamentos borbulhando, a minha empolgação por estar a passos de um paraíso exclusivamente meu era imensa. Eu aguardava ansioso, e aqueles lá dentro demoravam a me atender. Queria entrar. Toquei a campainha novamente. Com os ouvidos exageradamente aguçados, eu tentava distinguir algum som vindo de dentro, mas tudo que conseguia ouvir era a minha respiração falha. Precisava entrar. Impaciente, toquei o minúsculo botão da campainha sendo grosseiro, e insisti em deixar meu dedo a pressionar, até que o barulho se tornasse demasiado irritante. E esperei até que alguém aparecesse.

Mas, contrariado, depois de mais de quinze minutos à espera de algo inexistente, nenhuma voz conhecida me gritou que estava tendo dificuldades para achar as chaves, e ficou claro que não havia ninguém em casa. Mesmo não me permitindo acreditar, ao perceber a tragédia, prestei-me a, pelo menos, sentar no chão gelado do corredor, de costas para o meu lar e de frente para essa outra porta essencial em um passado distante, que agora já se fechara. Em pouco, a luz sensorial do cubículo estranho se apagou, e o que eu mais desejava era que alguma das portas se abrisse.

Meu tédio emergente fazia o papel de me consumir as ideias e soluções para o problema, e sentado ali, sozinho e vulnerável, eu não conseguia pensar em nada. Num esquema mais prático, imaginava que, em algum momento, mais cedo ou mais tarde, alguém passaria por ali para me levar embora, servindo de alavanca para qualquer que fosse o meu destino. Afinal, tanto o elevador quanto o apartamento eram inatingíveis naquele instante. Ademais, levei tempo para enxergar o quanto aquele corredor, em ocasiões míseras, podia se transformar em um lugar gélido e sombrio. Parecia incessante a verdade de que, em momentos ruins, os habitantes de todo aquele andar e até mesmo do edifício inteiro se punham a desaparecer.

Entretanto, todos os ausentes não fariam falta, mesmo se estivessem presentes. Afinal, eu não precisava de ninguém que não morasse no apartamento que lambia minhas costas, minha única aspiração. Dessa forma, eu haveria de esperar sentado pelo tempo que durasse o sempre, à espera de qualquer um que me carregasse para dentro. Eu, um eterno idiota, sentado no capacho depois de um dia incrivelmente exaustivo, sem ter acesso à minha própria casa. E chaves não faziam diferença, contanto que eu pudesse contar com alguém infiltrado para me deixar passar ao meu estimado santuário.

A lógica, no entanto, foi a única que me abateu de forma devastadora, fazendo o sentido dos mais puros e refinados. A casa era minha, e chaves eram dispensáveis, contanto que houvesse alguém para me abrir as portas. Na situação corrente, portanto, eu não podia depender de ninguém para essa satisfação específica, e tudo o que eu tinha que fazer era procurar a chave dos céus em algum dos meus vários bolsos. Maravilhado, comecei a explorar todos os buracos possíveis remendados em meus trajes, encontrando tudo de mais desinteressante pelo caminho, até que meus dedos tocaram o objeto coringa em minha experiência inusual do dia.

A chave pequena e discreta começava a reluzir prateada quando me levantava do chão áspero, automaticamente obrigando as luminárias no teto a se acenderem a meu dispor. Extasiado, de pé e com as mãos tremendo à imagem da tão bela porta se abrindo, eu já enfiava a chave na fechadura e a girava, ouvindo os cliques mais orgasmáticos da minha vida. E a porta estava desbloqueada.

Entrei no apartamento com um sorriso amarelo imaginário tão grande, que, se fosse real, deslocaria minha mandíbula. A sala, cômodo de recepção a visitantes e fachada de toda a casa, se encontrava tão escura e fria quanto o corredor lá fora, apesar de estar serenamente arejada pelos ares quentes de verão que adentravam a janela escancarada num canto. Andei até meu quarto em preparo para uma estada longa em casa e, logo que entrava já largava a bolsa pesada e gasta num espaço pré-determinado no chão, e já ia tirando as minhas roupas mais suadas enquanto me deitava ritmicamente na cama mais confortável.

Deitado, eu fitava o panorama do meu quarto como se fosse ouro, com seu armário de carvalho antigo a um canto, uma mesa de granito negro presa à parede oposta e uma estante branca à frente da cama, evidentemente ordinária. A estante estaria por completo vazia se não fosse por um frasco também muito branco, posicionado estrategicamente de situações anteriores por mãos necessitadas, e que seria de importância vital naquele dia. Afinal, era o frasco que saciava majoritariamente a minha vontade infantil de voltar para casa e, mais a fundo, para o meu quarto, desde a última vez que eu saí.

Com esses pensamentos em mente, eu me deixava levar pelo reflexo desajeitado do meu corpo e me levantava da cama em um pulo, deslocando-me rapidamente em direção à estante. Lá, com os olhos perfeitamente alinhados à tampa do frasco e o nariz quase colado à madeira branca, eu trabalhava minha mão para que pegasse o tão lindo frasco e, com ele dormente em minha palma de dedos protetores, andava até a mesa negra para ali depositá-los.

Tremendo, eu já colocava o frasco sobre a superfície e o abria frenético, imediatamente enfiando alguns dedos à procura de qualquer cápsula disposta a ser minha e, em segundos, já tinha a preciosidade recorrente eleita. Vermelha e branca, listrada diagonalmente em sua forma cilíndrica, fitando-me estava a cápsula incandescente, em relevo à mesa plana, chamando-me por seus poros. Fiquei ali, parado por alguns instantes, apreciando a beleza da cápsula colorida em evidência sobre a mesa preta, porém só até o transe ser quebrado e eu me perceber vivo novamente.

O chão não estava nada perpendicular à minha posição eventual, de pé em pernas bambas, mas eu havia de buscar minha auxiliar pelo resto da casa de imediato. Portanto, num ato estabelecido, iniciava a caminhada até o lugar mais arejado onde tomaria posse d’água. Ao passar pela porta do quarto, mesmo à distância, eu já conseguia distinguir uma garrafa de plástico maltratada com várias reentrâncias, jazendo fria e quase vazia na mesa de centro da sala, apesar de comportar uma água relativamente quente e antiga. Chegando ao lugar sem ter enfrentado nenhum obstáculo que não meu desequilíbrio, dada a falta de seres humanos na casa, já abraçava a garrafa de modo a maltratá-la ainda mais e, relutante, eu a guiava de volta ao quarto da cápsula.

Finalmente estacionado em definitivo em meu quarto, eu me sentia aliviado por estar cara a cara com a mesa negra e seus pertences. Ali, sentadas harmonicamente à minha frente, minhas duas preciosas sorriam indigentes, provocando-me a fazer, de novo, com que sua essência me manipulasse. Livre de culpas eu assentia e, se porventura, num impulso minhas mãos levassem a linda cápsula diretamente à garganta, que logo seria banhada sutilmente por água, eu seria consertado.

Portanto, sem pensar duas vezes e treinado em inúmeras ocasiões anteriores, num impulso minhas mãos levavam a linda cápsula diretamente à garganta, que logo era banhada por uma água tênue em demasia contente por ser parte de mais um plano de paz. Nessa situação, eu aguardava tranquilamente, até que as duas penetrassem, de tão fundo, a minha alma, e me deitava na cama enquanto fechava os olhos, à espera.

Enfim, agora que ambas eram inexistentes, a cápsula e a água requentavam o calor do meu corpo para, instantaneamente, fazer com que minhas pernas retomassem a estabilidade e que meus pensamentos fossem recompostos. Deitado singelamente numa cama única, se referenciada ao resto da casa, esta pobre de gente e espírito, eu não poderia me sentir menos solitário. Toda a minha vida passava sempre como flashes em meus dias, mas, nesse momento em particular, mais do que nunca, eu a sentia viva e propensa a ser minha manipulada.

Reabilitado, eu me levantava em pés descalços e guardava o frasco com cápsulas irmãs de minha amiga de volta à estante clara, local provável onde eu o acharia em futura ocasião, pois, em deliberação, meus destinos iminentes estariam sempre a salvo se eu coexistisse com minhas cápsulas sem princípios ativos e seus efeitos placebo.

19 de agosto de 2010

Trinta e Um

12:42 desmerece meu esforço
quando pretendo realizar
a ceia em seu âmago perfeito.
É cedo demais
para encher-se de temperos.

13:13 comporta poucos luxos
e caprichos, pois, a esta hora,
meu sensor materno
ativa a clarabóia
de que já passa da hora.
É tarde demais.

19:42 é exemplo de respeito e plenitude,
onde aguardo a senhora da foice
de pé com sorrisos:
devemos aguardar o esperado.
Espere!

20:13 denigre minha reputação
de paciência calva, em meu vício
de desavergonhadamente
esperar pela senhora bastarda
há mais de uma metade de hora.
Céus, é tarde demais.

42 sustenta uma vida
de perdições infinitas.
Nunca me contento
pois é cedo demais.
Prefiro aguardar!

13 me trará uma vida prematura
de incompetência programada,
pois a diferença estrutural
entre a vida e a morte,
nesse primor cronometrado,
se minimiza a apenas
trinta e um minutos.

31, assim que passado,
libera alternativas.
É possível existir
ou esvair-se,
sem meios-termos.

11 de agosto de 2010

Personagens

- Porque tu és tão ordinariamente sonhador?
- Porque você também é.
- É de muita pretensão dizer tal coisa.
- Pois que seja, não anula a verdade.
- Isto pode vir a causar-me confusões.
- Já existem confusões. O que eu digo te reflete em ações.
- Mas eu ainda não sei lidar com elas, tudo sai errado.
- Aprenderá.
- Estou demasiado velho para isso.
- Qualquer dia você há de perceber a essência.
- Quando? Em meu leito de morte?
- Depende apenas de sua capacidade afetiva.
- Em que sentido?
- De não relacionar-se intimamente contigo mesmo.
- Absurdo! Estou sempre comigo.
- Deve aprender a deixar-te de lado.
- Impossível! Sempre vivi como a mim mesmo.
- Eu também estou sempre contigo, e já te larguei.
- Grande merda! Afinal, quem é você?
- Eu sou você. Não me vês neste espelho?
- Loucura que você é eu, pois não pensa como eu.
- Penso como tuas profundidades. Você as desconhece.
- Mentira! Eu penso em minhas próprias profundidades.
- Tem absoluta certeza?
- Certamente. Penso como carne e osso do meu ser.
- Carne e osso pressupõem fraqueza.
- Não a mim, pelo menos. Preparei-me para isto.
- Tem absoluta certeza?
- Obviamente! Agora veja, e você ousa dizer que pensa!
- Eu penso.
- Pensa como quem, merda?
- Penso como sendo tua personagem nesta vida.
- Não existem personagens! Isto é a realidade!
- Realidade que eu idealizo. Cada passo.
- Cansei de falar contigo. Foge de mim!
- Isso não é possível. Não gosto.
- Você mesmo disse que me largou há tempos!
- Mas também disse que continuo contigo. Ingênuo.

2 de agosto de 2010

Quem é Você?

Intensamente focado numa concentração comum a muitos,
ele alcança pontos determinantes em que, ao fechar os olhos,
se sente desaparecido do mundo e do universo,
senão inexistente, num negrume tão forte em ausência de cor
e de vitalidade, que não se reconhece nem um pouco vivo.

O que escreve e o que diz expor são mera insignificância,
tanto para os outros, que hão de se submeter a tal nível
e ter de fingir ouvir ao que ele expressa, quanto para ele próprio,
que ao tentar explorar seus sentimentos e devaneios guardados,
se nota como um completo idiota relevando coisas nulas.

Prefere não se abster da humilhação, porém, e nem dos danos
que lhe são causados ao tentar se passar por opinante de vontades
e desejos profundos que, até o cume de sua ínfima reciprocidade,
ele acreditava ser de preocupação global, mas que hipocritamente
se revela não condizer em um consenso de apreensão.

Ele é apenas um falso opinante sem nenhum seguidor
e que em suas profundas divagações sobre tudo,
acaba por provocar uma sensação raivosa que, mais tarde,
se transforma em um quê de pessoa totalmente soberba
com fome de querer conquistar um reconhecimento inatingível,
o que só piora sua situação de otário em constante retrocesso.

Poderia simplesmente calar-se em prol pacífico e em total
despreocupação, mas a vontade de querer saber se, algum dia,
seu fingimento divulgará resultados, é o que o incita a continuar enganando
àqueles que, também com firmeza, dissimulam seguir suas idéias,
pois, no fundo, a troca de informações não ultrapassa limites verdadeiros.

Modéstia e presunção sem nenhuma objetividade preenchem sua cabeça,
cada vez mais o fazendo se sentir como um ser humano nulo de existência.