13 de setembro de 2010

Vício em Pé

Atrás das cortinas, sento num palco
defronte com nenhuma platéia.
O espetáculo terminara há dias,
mas eu tenho continuado sentado aqui
por todos os que se passaram.

Imóvel, tinha me proposto à dependência
às custas de um mero prazer psicológico,
também com o argumento de querer poder explicar
como é absorver o sentimento,
aos que não o sentem.

No entanto, logo após o término
do efeito químico,
me senti tão vazio e frívolo
que tinha me tornado incapaz de redigir
sequer uma nota de geladeira.

Naquele dia, longe deste,
tinha acordado cedo e explicado
a quem quisesse ouvir, ou a quem
indagasse nojentamente a minha situação,
o porquê do meu vício.

Desde então, tenho continuadamente
aguardado o meu retardo forçado
recobrar-se ao estado pleno de pessoa sã
para, só depois de vários ciclos,
aperceber-me de algo notório.

Tinha descoberto que,
para explicar o tão temido efeito,
teria de retornar à posse do meu vício
e sentir tudo outra vez,
pois não conseguia lembrar de nada.
Mesmo assim, tenho também buscado soluções
que de todo não funcionam,
para poder seguir viciado
e enganar aos outros
com o álibi de estar tentando.

Afinal, sempre que preciso pensar,
recorro ao meu vício na esperança
de que ele me carregue a lugares inatingíveis
quando se vive com os pés firmes
e fincados num chão de concreto.

Porque, de verdade,
vicioso é ter que sustentar um vício
por tanto tempo. Neste palco abandonado,
aqui sim é do balacubacu. Tem que aprender
a dançar conforme a música.

7 de setembro de 2010

Seis Mil Hospitais

Mil hospitais, para a cura de candidatos
desprezíveis como seres, maculados e
grosseiramente inumanos, com coragem
de expor o rosto nada envergonhado
a nível nacional de televisão,
à frente de toda uma população
que acredita de coração e alma,
que estas figuras, sim,
são símbolos de revolução.

Dois mil hospitais, para a cura do deboche
e falsidade de alguns candidatos,
que sorriem enquanto falam as letras
de um texto programado,
mentiroso ao poço do fundo da alma.
Mentem para todos, para todo o povo,
prestam-se ao pior dos pecados:
não de mentir apenas em branco,
mas de manipular a mentira
na cabeça de milhões de retardados.

Três mil hospitais, para a cura da presidenta
que eleita será se disser que construirá
seis mil hospitais públicos de qualidade,
quando, na verdade, pretende de antemão
comparecer a todas as duzentas e sete
entrevistas em Paris, nas quais apertará a mão
de um outro presidente em reciprocidade.

Quatro mil hospitais, para a cura de um ineditismo
e ponto de vista não objetivados em campanha,
já que, hoje em dia, para ser considerada,
a candidata se agacha aos pés de um monarca,
com esperanças de realeza, e de que será abraçada.
Afinal, é de pleno igualitarismo que o povo,
burro em sua santa ignorância como jamais registrado,
receba de braços abertos a presidenta curada.

Cinco mil hospitais, para a cura de quatro anos
do povo amigo, que serão suficientes para deixar-lhes
na mesma vida maldita, por ter votado na candidata
que lhes prometeu, além de hospitais,
mais seis mil escolas e universidades
em apenas um tempo de vida,
com toda a infraestrutura nota um bilhão
que sabemos ter o nosso país.

Seis mil hospitais, para a cura de um cidadão
louco qualquer, que eu faria questão de estar vivo
para ver passar por cima de todos e,
também em rede nacional equiparável,
encher o peito e ter bolas para dizer,
“Isto tudo é uma merda que está errada,
estão mentindo para você com sorrisos na cara:
sua realidade em longo prazo, maldito unitário!”

4 de setembro de 2010

Mentiras

A porta escancara-se,
ensurdece o tímpano
do ouvinte eventual.
Ela entra no quarto
com propriedade assustadora,
e ao mesmo tempo
aparenta desespero pessoal
aniquilador de sorrisos.

Ele, tranqüilo, já sabe do que se trata
e, portanto, finge não ouvir.
À beira do pânico,
histérica ela se acalma
com seus próprios dotes anestesiantes,
e senta-se à frente dele
num ato perceptivelmente programado.

Olhando-lhe no assombro
de suas linhas cansadas
e no fundo dos olhos,
à centímetros de distância
Ela começa a tagarelar incontrolavelmente,
ainda que com serenidade de tom e espírito
visivelmente forçada.
Enquanto fala, é evidente notar que,
aos poucos, uma pequena massa
começa a criar forma
no interior de sua boca.

Ele retribui com o olhar mais seco
que pode manipular,
e ouve suas palavras
apenas por não ter mais recursos
à que combater a cobiça dela.
As palavras que ouve e que são absorvidas
caminham ao seu cérebro
como fogo ateado. Arde.

Ela continua a falar e dizer
e argumentar e papaguear,
e corre demais com sua fala moldada
em mínimos detalhes,
formatando também a massa crescente
que lhe escorrega pela língua ao falar.
Quer abster-se do castigo
e busca-lhe por perdão.

Ele ouve desinteressadamente para,
por vezes, poder modelar expressões
de deboche no rosto.
No fundo, Ela apenas sonda tentativas
de dizer todo o possível
pela busca por compaixão.

Olhando-a na beleza
de suas linhas delicadas
e no fundo dos olhos,
agora à metros de distância
Ele levanta-se e, com todo o desprezo
que pode encenar, lança-a o olhar
inconfundível de censura.
É melhor parar.

Automaticamente Ela reage
e recomeça a tagarelar incessante
e tediosamente. São tantas palavras
aglomeradas em frases que, em pouco,
a massa em crescimento
finalmente configura-se num tamanho enorme,
fruto de toda a conversa dita
e gravada nas paredes.

Enfim, ao invés de letras agrupadas,
Ela habilidosamente retira a massa pelos lábios,
agora grande o suficiente
para quase não caber entre a garganta
e o céu da boca, e lhe estende envergonhada,
como se isso lhe esclarecesse tudo.

Ainda olhando-se
e deixando-a segurar a massa
pelo tempo que fosse,
demonstrando-se nem um pouco complacente
Ele arrisca suas próprias palavras e,
pedindo para esquadrinhar-lhe a expressão,
quer que Ela lhe pergunte
se Ele realmente conseguiria
engolir tanta mentira.