20 de outubro de 2010

Medicina

Ser médico e suas vantagens. Desde cedo, prepara-se psicologicamente para salvar vidas no futuro; a partir da escola primária, o alimentam de certezas para com a profissão que devem ser cumpridas, e mesmo antes do esperado, já se encontra redigindo fichas de óbito em casa, sozinho, como treinamento para os anos de real atividade, e de invariável rotina. Percebe-se que, de todos os esclarecimentos, o dele é o mais evidente em pauta, e em poucos anos o formando torna-se formado.

Logo que exige seu trabalho como a quem exige seu dinheiro, nota-se preso à responsabilidade do que lutara por anos. Se não agora, talvez pudesse salvar a sua própria vida, ainda que a dos outros fosse mais importante: por elas ele aspirava. À seqüência, prefere morar em hospitais na tentativa da salvação alheia, mas em pouco se vê virando noites naquele café adjacente ao cruzamento de quatro hospitais, preenchendo suas treinadas fichas de óbito – desta vez válidas – uma vez que quatro vezes expulso por erro médico.

No café, a família lhe aparece nos vidros refletida enquanto se recorda da cobrança que lhe era ajustada, recaindo sempre ao financeiro os que falavam. Tentara decidir por si, mas quem diria, lhe carregaram até ali: pais, escola, o resto da família e da vida. Até mesmo a prezada orientação vocacional que, naqueles tempos, o obrigava a hesitar quando competindo consigo em respostas nada além de sinceras.

Quem sabe não poderia matar, também, o garçom de pé num canto: mais uma menos uma ficha preenchida em seu registro de pouco valia, mas aquelas credenciais e uniformes tão diferentes, esses ele queria.

10 de outubro de 2010

Amicãs

Acomodam-se juntas as quatro,
num quadrado perfeito dito inviolável
de quatro pontas, e acolhedor
de todos os tipos de mulheres,
das quais se fecham por vértices
uma morena e uma loira,
uma ruiva e uma morenaça.

Tem-se por prova que o quadrado
se fecha quando conveniente,
oportunista imprescindível
aos tempos em que se precisa
de uma área total, além de concreta,
para cálculos eventuais.

Pois, dadas ações de puro proveito,
acordos por parte das arestas
que suportam o peso dos pontos mulheris,
são feitos em complacência
para deixar que o quadrado se desfaça,
e que cada mulher seja uma solitária reta.

E, apesar de compartilharem do poder
de se fazer voltar ao plano inicial,
pouco importa aos pontos de mulher
a situação de a unidas retornarem,
agora que retas já foram,
e o quadrado especial
já não lhes fazer justo interesse.

Enquadrando a sinceridade dessas vértices
ligadas por arestas sempre frágeis,
a verdade está no que se diz
por todas e cada uma das beldades:
que tanto faz como tanto fez
serem quadrado ou serem reta,
contanto que tomassem a posição
de uma temida forma geométrica.

No fim de todas as contas, conclui-se
que quadrados são formados
por quaisquer retas,
sejam relacionadas
ou individuais num plano.

O esforço, no entanto,
cabia à cartografia, decidir
se permaneceriam quatro amigas
de formatos harmoniosos,
ou quatro retas paralelas
de auto-suficiência linear.