29 de novembro de 2010

Catequizando Dé Preto

Presentearam-me há de recente com um relógio de ouro gigante e, por fontes eu cheguei a saber, valioso. Um de meus alunos prodigiosos da Academia Monárquica vivia me incentivando devotamente a comparecer à sua igreja. Os resultados eram divinos, segundo ele, mas preferi me dedicar à criação corpo-estrutural de sete dias, segundo dietas. Não é pouco nem nada, dia me chega Albertinho com o relógio em suas mãos e me estende, dizendo ser seu maior gesto de gratidão em vida para com a minha pessoa. Porém, disse ele, se eu há de eterno aspirasse ser, para que eu fosse à igreja. Esperteza, no entanto, me trouxe ao equívoco de Príncipe, e assim fiz: relógio de ouro valioso tal qual sua igreja ou seu reitor, portanto me ataria à promessa responsável de rezar ao Relógio todas as vezes que o reluzisse. E esperaria através de Albertinho uma resposta divina. Afinal, plataforma mais que poderosa eu já tinha.

19 de novembro de 2010

Inconsciência na Cama

Dormindo, ele é mas não é,
o que é mais fácil de lidar.
Tem em si o seu eu,
a sua personalidade e aparência,
porém poupados de exercício.

Morrer, para quê?
Alternativa há de se viver
enquanto não se vive,
de alma existente
nos complexos da inércia.

Da superfície é anexado
ao intrínseco da terra
que o provoca a se anular.
Lívido, porém certo
da existência de fantoches.

Do sono, sabe que se porventura
acordar, acordado estará retornado
ao eu adormecido forçado.
Em sono, contenta-se em sonhar
que há de eterno sonhará.

Dormindo, propõe-se à subvida
do que é mas não está, contra
o que está e continua não sendo,
tendo-se por fato que esta relação
de convivência comunal consigo
é das mais difíceis.

Busca-se por soluções, e
cá estão. Quer ser e não estar
enquanto quer estar presente
e não ser, ainda que
em nenhuma das hipóteses morrer,
vá dormir e será eterno.

8 de novembro de 2010

Fumaceiro

Cigarros
os têm na boca
e no olfato da fumaça
que evapora e não condensa,
paira no ar.

Cigarros
feitos na boca
das bocas que insistem
em fazê-los primordiais
à vida.

Cigarros
de necessidade
os têm na boca, posso notar que,
na verdade, os comportam na boca,
mas é feio.

Cigarros
de feiura estrutural
estruturam o corpo
por ter-lhes na boca
com freqüência.

Cigarros
os têm na boca todos,
e percebe-se que
nem água é capaz
de apagar fumaça.

Cigarros
interessantes fogem à boca
e deslizam à boca,
assim como a fumaça
para fora dela.

Cigarros,
um, dois, três, quatro
os têm na boca em simultâneo,
e a fumaça se renova
igual.

Cigarros,
cinco, nove, vinte e oito
os têm na boca
nunca esporádica,
de conseqüência rotineira.

Cigarros,
boca e fumaça
são freqüentes,
são cento e treze
por dia.

1 de novembro de 2010

Apresentando Dé Preto

Tenho 21 anos e, no momento, curso o último ano do Ensino Médio. Para auto-sustentação, trabalho como gogoboy quatro noites por semana. Aliás, foi em razão do meu trabalho que comprei minhas lentes azul-clarão e malhei intensamente os meus músculos entre o pescoço e a cintura. Como extracurricular, tenho o concurso do meu bairro, que ganhei faz cinco anos. Na ocasião, fui classificado na quinta posição e recebi o título de "Príncipe de Guarulhos". A propósito, me chamo Dé.