23 de dezembro de 2010

Você Se Preocupa?

Um homem deitava em seu sofá de sete lugares, estofado com penas de gansos escoceses e reclinável, de forma a que a posição de quem sentasse ficasse perfeitamente alinhada à televisão de plasma na parede, de cinqüenta e duas polegadas, com transmissão máxima de alta qualidade e som dolby surround stereo 5.1 - o suficiente para quebrar todos os vidros da casa.

Ele esperava por um programa esportivo que anunciaria, oficialmente, os novos jogadores titulares do seu time de futebol. Enquanto esperava, ansioso, rodava os duzentos e setenta e sete canais do seu plano de TV a cabo à procura de algo interessante para preencher seus minutos restantes. Os canais abrangiam os mais variados assuntos, de desenhos animados pastelões a seriados científicos sobre o universo; de programas de fofoca a reality shows de fofoca; de apresentações de videoclipes a shows com transmissão ao vivo. Era realmente muito ao que se assistir e o homem parou, finalmente, em um telejornal. Como sempre, as novidades não eram novas - pelo contrário.

Os assíduos tele-espectadores desse jornal teriam de admitir que as notícias diárias, no fim, se resumiam a uma só palavra: tragédia. Acidentes de carro, quedas de avião, pontes ruindo, florestas queimadas, assassinatos, suicídios, afogamentos, prostituição, incêndios, tráfico, pobreza, fome, pedofilia, corrupção, analfabetismo, conflitos regionais, discriminação, racismo, preconceito... Nossa, o mundo estava cheio de problemas - problemas abertos à mim, àquele homem, à todos.

Nesse exato momento, uma família teria acabado de morrer num acidente de carro; várias mulheres teriam perdido os seus maridos num avião que caiu; uma cidade perdera seu caminho com uma ponte que ruiu; uma floresta não era metade do que já fora, agora queimada; uma empresa perdera seu chefe assassinado; uma mulher teria tirado sua própria vida; o mar teria matado um bebê; pré-adolescentes se aventuravam sexualmente nas ruas por dinheiro; um dos maiores prédios do mundo pegara fogo; crianças eram encorajadas por seus pais a fumarem seis tipos de ervas; famílias dormiam debaixo de marquises, passando fome; coroas tentavam cumprir seus desejos de abusar de crianças; policiais teriam desviado dinheiro; uma idosa aprendia a ler; países orientais brigavam por suas terras; um homossexual teria sido espancado na rua; um negro teria sido assassinado por um médico; anões choravam por terem sido ridicularizados...

Tanta coisa estava acontecendo ao mundo, e onde estava aquele homem deitado no seu sofá confortável, assistindo à sua televisão com 277 canais de última geração, esperando por notícias banais sobre o seu time, para ajudar? Com o que aquele homem estava se preocupando no momento em que todas aquelas fatalidades tomavam espaço?

Provavelmente estaria se preocupando com a sua gravata que deveria, por lei, ser mais bonita do que a de seu colega de trabalho; ou estava se preocupando em aspirar qualquer e todo o pó do seu lindo sofá; ou estava se preocupando em escolher as palavras certas para conquistar aquela mulher; ou estava se preocupando em comprar a edição mais nova da revista de celebridades; ou estava se preocupando em preparar aquela festa para invejar os amigos...

Em suma, deveria estar se preocupando com qualquer dessas idiotices cotidianas que, infelizmente, fazem parte da vida de todos. Aquele homem, assim como todos - ou a maioria - no mundo, teria sido criado pela televisão, pela propaganda e pela mídia para estar sempre agradando aos outros.

Não importa àquele homem que dois terços da África passe fome contanto que esteja escrito Calvin Klein em sua cueca; não importa àquele homem que existam crianças viciadas em cocaína contanto que a sua festa tenha sido a mais bombástica do ano; não importa àquele homem que pré-adolescentes se prostituam contanto que sua televisão tenha mais que 300 canais; não importa mesmo àquele homem que florestas sejam queimadas contanto que ele namore a mulher mais gostosa do bairro; realmente, não importa a ninguém que nada de ruim aconteça contanto que essa pessoa esteja maquiada de forma esplêndida com os padrões ridiculamente estabelecidos pela sociedade.

Sabe, eu não culpo aquele homem. Apesar de ele não ter tido a capacidade de entender que a vida é feita de muito mais do que aquela bolha fútil em que ele vivia, ele estava simplesmente vivendo a sua realidade. Contudo, a melhor forma daquele homem enxergar o mundo que estava à volta do contexto em que ele vivia seria se, em geral, ele conseguisse expandi-lo.

No caso, agora por descaso, já era hora e ele voltava à sua programação esportiva, sem antes ao menos ter prestado atenção ao nome do canal de notícias, enfim descartável.

15 de dezembro de 2010

Carina

De leve, do súbito sou tomado pela imagem da beldade
chorando em silêncio os seus baldes de nada,
acarretados pela vida que escolheu ou que lhe foi dada,
isso ainda não se sabe.

Chegar por chegar levaria meu rosto à vermelhidão,
uma vez que, de suas penas atuais, intimidade não tenho
para perguntá-las ou, logo após, entendê-las.

Residir no coração dos outros é daquele estranho prazeroso,
o desconhecido do gozo, ter para si as lamentações
daquele que te guarda e chorar com elas, não por pena,
mas por dor própria.

Alimentar esperanças de falsas intitulações levam a nada
quando não se tem certeza do alimento,
por isso chegar ao passo em que chegando, como disse,
me levaria sem retorno ao poço do descontentamento.

Superficialmente, talvez não soubessem os outros que tivemos,
a beldade e eu, um caminho pelo mundo.
Inexpressivo, às vezes a quem quisesse assim afirmar,
ou mesmo para ela. Para mim, expansivamente valia.

Conformá-la não me satisfaria por completo,
dadas as conformações anteriores que, de nenhuma modéstia,
de pouco acrescentaram à diminuição dos prantos.
Teria eu que exercer a diferença de bom grado.

Dessa forma, palavras são fáceis de sair e não penetrar,
o que poderia caber a mim mudar.
E, depois de tentativas suadas, por todo o passado,
ainda acredito não ter conseguido.

Longe dela, a vejo chorando em continuidade, sem saber o que fazer
quando remete à mim a questão da insignificância.
Quero ser mais do que já pude ser, e não consigo.

Só deus sabe o que ela vê em mim ou como me vê,
seja pelo antigo que tivemos ou pelo presente engavetado.
Queria fugir ao infinito para, quando voltar,
poder sentir o que sinto hoje em relação ao passado.

No fim, estou à frente da beldade do infortúnio.
E, embora compromissado com as sessões de recuperação
dos nossos eus, nos percebo virando de costas um para o outro
quando a ocasião falha.

Meu maior medo em colocar agora os pés a correr é de,
ainda há quilômetros de você, te ver chorando pelos cantos.
Quero-te feliz e ainda assim não te quero para mim,
porque o passado, sinceramente, não volta.

6 de dezembro de 2010

Sonhos Afilhados

Nina não está mais grávida
Nem eu fértil ou apto a conceber à vida
Mais dois os três sonhos.

Por enquanto abster-me-ei
Das dores de parto, entenda
Prendi a respiração neste último.

Acabou por não sair por bastante tempo
E quando finalmente veio a calhar
Caiu-se um desmaio sobre meus braços.

Penso que ainda possa sucumbir à vida ele
Assim como todos nós que estão lá.
Vã mentira, eu nem ele estamos lá.

Penso inclusive que poderei deixar
Este um desmaio por aqui mesmo
Neste chão gelado, infértil por ora.

Entenda, por favor, uma vez mais
Não posso me fazer sofrer, sensibilíssimo
Por isso que passou ou por aquilo que virá.

O que virá, virá. Virá e virão
Sempre os momentos ruins
E sairemos deles sempre.

De cabeça à outros, momentos
Ruins péssimos horrendos
Até que um melhor venha.

Por Deus talvez seja pretensão demais
Dizer que perdi um filho,
Por dois motivos dentre milhões.

Sobre como ainda não o perdi de fato:
Quem conhecer um sonho vai saber
Que ele persiste vivo - este é o primeiro motivo.

E, por segundo e último nestas constatações,
Sobre como eu não tenho filhos.
Tenho sonhos.