30 de dezembro de 2011

Cia de Teatro


O anfiteatro era vicioso no que dizia respeito ao seu formato único e repetido por toda sua construção. Além de seu palco destablado mais baixo que a platéia e portanto inferior à crítica, de três planos paralelos e interceptados por nada além do próprio espaço era feito o anfiteatro que em semicírculos triplamente se formava para todos os seus quatro lados que, por fim, formava uma meia-lua rente ao chão que subia cada vez mais alto para platéias superiores e, no entanto, menos analíticas – afinal, quanto mais próximo do céu mais perto do sol escaldante de verão novembrano carioca, que nesta época especificamente encontra-se à sensação de 51ºC à sombra, estava o público alto e, ao mesmo tempo, queimado de suor pelo querido sol que o impedia de racionar qualquer “Qual o seu nome?”. Rente ao chão estava também o próprio espaço que separava os planos mas, nesse caso, por preencherem o espaço e talvez apenas por este motivo, pessoas o ocupavam em todas as suas três faces para que se unissem de alguma forma embora estivessem cada uma em seu plano particular, talvez pelo sol ou por receios pessoais ou pelo sol, mas todas presente de corpo apenas.
            Era possível contar três meninas e quatro rapazes em cena, todos feios. Quem sabe se não eram todos belíssimos e incrivelmente maravilhosos quando em sombra mas, à menção de situação solar irreversível, estavam todos feios. Embora formem uma cena una e indivisível estão cada um tão desconectados de si e principalmente dos outros que, neste momento e neste aspecto, vivem para si. Vivem para si e interagem com a cena de tal modo que, de tão absortos em interação, fecham-se em si mesmos para refletir sobre o vivido e assim se esquecem de viver, o que neste caso é o que menos aparentemente acontece.
            De primeira vista encontra-se a mais bela de todos os feios: uma moribunda estirada no primeiro patamar da platéia, o que a tornaria mais culta e inteligível, uma vez que dois patamares longe do sol, porém não a torna. Pode-se imaginar que arbitrariamente escolhera morrer a suportar todo o calor que ainda assim lhe tocava a pele sem qualquer carinho, o que fazia com que a moribunda, embora visivelmente inconsciente de tudo, estivesse cada vez mais a par dos acontecimentos universais já que em sua tentativa de fuga ao sol, tornara-se tão conecta a ele que agora incidia luz própria. Tratava-se de purificação enquanto ser humano em sua completa desgraça, o que levou a moribunda a seu maior desafio em vida: a morte, de tal modo que agora não se mexia em um milímetro sequer e não dava quaisquer sinais de que talvez pudesse estar participando da desintegração ao redor, ainda que não fisicamente, afinal agora mesmo inconsciente a moribunda de tudo sabia pois astro se tornara.
            De segunda vista pouca coisa era perceptível, mas na cena em questão qualquer movimento mínimo seria evidente afinal tudo era muito sereno embora derretesse. À pouca coisa trata-se um dos rapazes que incontrolavelmente estúpido pela maciez do sol esvaziara-se de quaisquer emoções ou pensamentos e esvaíra toda sua angústia de vazio contida em um pedaço de papel quase queimado que encontrara no segundo patamar do público, onde agora habitava. Com o papel mecanicamente tentava alcançar à alguma reação das pessoas e portanto fingia divertir-se com o chamar-las atenção, pedido ao qual ninguém respondia largando mais uma vez o rapaz vazio, vazio. Em desespero continuara suas tentativas de causar comoção, tentara inclusive amassar e jogar a então bola queimada em meio a cara da moribunda, que por certo não reagira já que solarmente morta, e falhava incessantemente. Por fim atraíra reação do outro rapaz, este no primeiro patamar, portanto mais lúcido, que embora lúcido aparentava estar tão vazio quanto o rapaz vazio, isto apenas se descartarmos a possibilidade de que o segundo rapaz talvez vazio estivesse tão absorto em preocupações antigas e, infelizmente, próprias, que à menção de insignificância da bolinha de papel, aceitara distrair-se com aquele que por demais já havia se distraído. Jogavam um ao outro, portanto, a bolinha de papel: o rapaz vazio ao rapaz talvez vazio e o rapaz talvez vazio ao rapaz vazio, até que tudo tornou-se mecânico e ambos voltaram ao estágio inicial de subordinação a tudo e, principalmente, ao sol.
            Após a primeira e segunda vistas ao sol, a visão se cansa e é difícil a distinção total de uma cena que invariavelmente pinta-se de roxo e azul e verde e amarelo e roxo e rosa e azul de acordo com a vontade dos raios do sol, deixando tudo muito confuso. No entanto, à vista cansada é possível identificar um terceiro rapaz que, sentado quieto no segundo patamar e inteiramente concentrado em algo superficial, embora faça de tudo para tornar o superficial em algo profundo e estranhamente acolhedor, foca-se de coração e corpo e alma e olhos e por inteiro à aceitação da cena dentro da cena, ou seja, a peça em si que enfim é pregada no anfiteatro. Concentra-se portanto na atriz principal de sua própria cena, a segunda menina a aparecer e no entanto a primeira viva, e viva de tão modo que trabalha toda a sua ordenação sobre a terra que faz o rapaz vidrado não tirar-lhe pedaço com os olhos. A segunda menina encontra-se no patamar zero, no palco da vida que ao menos está contida no anfiteatro e portanto, por estar de pé e a postos no palco destablado, esta é a verdadeira estrela de conceito inicial, e não o sol. Para ela o sol porta-se como mero coadjuvante em uma cena rápida que ela mesma prega e controla, assim como controla o rapaz vidrado que, embora tenha o sol como seu regente maior, prende-se à terra mais pela presença da estrela do que do astro. Prende-se pela existência de toda aquela situação sujeita a deixar-lhe ali pelo tempo que preferir, afinal por vontade própria não se levantaria nunca – a não ser, é claro, que a estrela resolvesse pregar-se em outros lugares e, portanto, apenas assim, ele se moveria. Intactos então estão o rapaz vidrado e a estrela que, por meio de forças como a da gravidade ou de atração e repulsão, embora não saibam, completam-se um ao outro, já que mútuos.
            Por último percebe-se a última menina que por si só escalara ao último patamar e por lá perto do sol deitara-se confiante no valor que a luz teria em seus olhos. Subira ao topo para ter certeza de que com a luz próxima da retina não se queima olhos e sim virtudes, afinal cego é aquele que quer ver o que quer. Assim, privara-se da dor de ter os olhos cegos para que pudesse enfim ir à caça de todas as suas vontades no mundo e resolvera contentar-se com a realidade: de imediato postara uma das mãos sobre a cabeça na direção dos olhos, deixando com que a luz a banhasse por inteiro, com exceção das pupilas. Tinha ciência de que estaria cortando tratos com seus sonhos e suas excepcionais loucuras em vida as quais seriam dolorosamente deixadas, mas tinha ciência também de que estar próxima à realidade significava estar próxima ao anfiteatro e portanto a todos ali presentes, que poderiam se resumir apenas em uma pessoa: o último dos rapazes. O último dos rapazes, embora prestasse contas à última menina, tratava-se como, de todos, o mais distante dela, fazendo questão de arrudiar incontrolável o anfiteatro de um lado para o outro de cima para baixo, sem parar sequer um segundo em alguns dos patamares ou, ainda, no palco. Dessa forma portam-se a última menina no topo e o último rapaz a rodeá-la infinitamente, o que causa desconforto aos dois igualmente.
A última das meninas e o último dos rapazes não se completavam a toa, afinal sua forma de complemento era de todas a mais ensaiada. É evidente que último e última não formam par em lugar algum pois é como se tentássemos somar zero e zero ou diminuir um de um. A fórmula para o complemento pleno de dois não pode, em hipótese alguma, dar-se pela combinação de último com último, a não ser que ambos tenham a intenção de anularem-se um ao outro e, portanto, não se complementarem. Para que desse certo a ocasião infernal apesar do sol dos dois últimos, eles teriam de portar-se como pares de condições opostas e apenas opostas, sem mistério ou instituição alguma, como portavam-se o rapaz vidrado e a estrela, como controladora e controlado, ou como se prestavam o rapaz vazio e o rapaz quase vazio um ao outro, já que um era com certeza vazio e o outro apenas talvez, ou mesmo teriam de ser os últimos de relação igual à moribunda e o sol, que por tanto odiarem-se um ao outro, completam-se por um estar vivo e o outro morto. Portanto, à irresolução iminente os últimos continuam a se questionarem com dúvidas, embora ele ande e ela deite.
À cena que se forma no anfiteatro não se pode tirar qualquer conclusão absurda além da óbvia que já devem ter-se dado conta de que o sol é tão quente que faz do anfiteatro subir radiação. Dessa forma não há expectativa maior: era verão. 

14 de dezembro de 2011

Rua Maria

Um passo nessa rua podia ser maior que outros três quaisquer, andados em qualquer lugar. A experiência do andar magnificava-se nesta rua: além dele, que andava, nada mais havia – além da rua. Parecia óbvio que, por passar todos os dias, santos ou não, naquela rua cheia de graça, ele aposentou-se da surpresa de vê-la passar por baixo de seus pés e, pelo contrário, ansiava diariamente por esse momento diário, embora não tivesse a mínima pretensão de qualificar todas as outras ruas pelas quais passava com o mesmo gosto. De verdade, nem sequer pensara em gostar das outras ruas, pois mal sabia que elas existiam, e por isso presenciava todos os dias a sensação de surpresa por passar em um lugar nunca antes conhecido pelo qual ele passava todos os dias.
         Esta rua era única. Tão esta e tão única que lhe dera um nome: rua Maria. Cheia de graça – pela qual ele esperava. Ele andava por Ela com o mesmo pavor gostoso de quem sabe estar fazendo errado, com cada essência do proibido batendo no peito para muito além do coração, para mais próximo do revirar o estômago. A experiência do viver magnificava-se nesta Rua: ele se sentia vivo e não morto ao viver esta Rua. Ele entendia a Rua e criava histórias para Ela. Contava a si mesmo que a Rua era assombrosa e, de noite, estupidamente perigosa – não pelos homens que assaltariam homens, mas pela própria benevolência da Rua que, apaixonada por si mesma, atacava qualquer um que nela pisasse. Contava a todos que a Rua era assombrosa e, de manhã, misteriosa – ninguém nunca faria ideia do quanto um raio de sol pode ofuscar acontecimentos. Não satisfeito, mandava pessoas contarem a outras pessoas que, para elas, a Rua era um assombro. “Um assombro de linda, nem feia nem comprida.”
        Com o tempo ele criou monumentos sobre a Rua para exibir em outras ruas, diminuindo-as. Com o tempo não suportava mais passar por outras ruas, sentia seus pés queimarem de angústia e, no entanto, não poderia igualá-las a Rua Maria, pois Rua Maria é esta e é única. Com muito tempo não poderia mais aguentar passar noites em claro de sua varanda a observar a Rua mais linda sustentar aquelas duas moças que vagavam pela madrugada com ares de Maria.
Tempo demais longe de Rua Maria se fez e ele não suportaria mais estar em outro lugar. Estando em outro lugar ele deixava de ser ele e, portanto, deixava de ser. Em busca da sobrevivência e, acima de tudo, por sua existência, ele haveria de ser. E para ser ele teria de estar na Rua Maria, sendo Rua Maria.
De mais em mais ele foi para a Rua com a ânsia no pescoço de nunca mais pisar em outro lugar, e ele agora é Rua Maria e Rua Maria é Rua Maria. 

15 de setembro de 2011

Sobre Garfos e Facas

À mesa sete estranhos. José o sétimo, assim como poderia ser o terceiro ou sexto, mas simpatizava com o número sete e portanto sétimo lhe cabia como contagem. José tinha um objetivo único à mesa e indispensável em qualquer hipótese: comer. Sabia que a comida estava bem ali a sua frente e sabia que teria de fazê-la desaparecer o quanto antes, afinal os estranhos de primeiro a sexto já o faziam. Tudo que José consegue enxergar, além dos seis estranhos que no momento se encontram desfocados por fazerem parte do célebre segundo plano do seu campo de visão, é o seu prato sujo de comida ainda intocada, o Garfo que escolhera e a Faca que não escolhera.

José detesta Facas e por isso nunca as escolhe. Nunca as quis por perto em mesas e portanto nunca as escolhia, escolhia apenas o seu Garfo. No entanto, por vezes lhe apareciam tipos em suas mesas a lembrar-lhe que se esquecera de pegar uma Faca e por si mesmos delicadamente lhe entregavam uma, esperando um sorriso de plena satisfação e agradecimento a espalhar por todo o rosto. Os episódios foram se tornando mais frequentes e enfim José decidira que pegaria as Facas sozinho: as pegaria às cegas e as colocaria ao lado do prato à mesa, como há de se fazer, e dali ela não sairia. A Faca que José encara nesta mesa de seis estranhos que ainda comem foi fruto de sua própria vontade obrigatória de pegar Facas.

Portanto José começara a comer. Com o Garfo. Com o Garfo ele consegue partir e pegar e empurrar e chutar e enrolar e espetar e cortar e colocar na boca e tocar à língua e saborear e ranger os dentes e engolir. Não se coloca Faca na boca pois ela não lhe permite intimidade – apenas Garfos. Enquanto come José olha à volta e percebe que todos os seis focados se utilizavam de Facas para comer. Mas nenhum deles abre mão de Garfos. Esta atitude não mostra respeito ao Garfo, mas desrespeito à Faca, pois a Faca é dispensável. José come apenas com o Garfo. No entanto, os estranhos estão muito na frente a acabar com a comida de seus pratos, embora isso se deva mais à demora de José para começar do que às Facas.

José come mais rápido pois a ideia é que todos acabem à mesma hora, e Garfos ou Facas a parte, o pacto da mesa não pode ser quebrado. Enquanto come rápido José pensa o porquê de ter pego tanta comida, e pensa sobre o quão detalhadamente egoísta é o pacto da mesa, uma vez que a escolha de começar é inteiramente própria, mas a necessidade de terminarem todos juntos é obrigatória, e não ao contrário, para evitar a demora alheia que ninguém conseguiria suportar, a não ser que sustentassem um belo sorriso feijoado no rosto. José já comeu metade do seu prato mas seu prato continua como um prato cheio.

O prato é interminável. Se o tempo conta, o prato há de se restaurar sete vezes, já que José é o sétimo estranho. Enquanto poderia ter sido o primeiro. José observa os seis pratos de migalhas apenas, e observa as migalhas e percebe que a ineficiência de uma Faca só se resolve à proposta de migalhas. Garfo nenhum é tão audaz com migalhas quanto Garfo e Faca juntos, embora José tenha certeza de que Faca seria mais ineficiente sozinha que Garfo, e por isso ele é mais essencialmente importante. Migalhas duram pouco e José precisava comer pelo pacto da mesa. Precisaria usar a Faca contra a sua vontade.

José a pegava de uma vez e a colocava no prato com Garfo e comida para comer, mas não era acostumado à Faca e não sabia modelar, tudo saía mais errado que apenas Garfo, nada cortava ou chutava como Garfo, nada parecia natural ou automático como comer de Garfo, não sabia usar Facas por nunca ter gostado de Facas, detesta cortes e Facas cortam a boca, não dá para levar Facas à boca. Faca insossa transforma comida em insossa, mas não o Garfo, que é mais forte. Não gostava de Facas por nunca ter aprendido a usá-las, Faca insossa transforma José insosso, Faca inadequada, Faca que espirala pelo prato fazendo graça, a biscate da refeição. José largou a Faca de volta ao seu lugar. Não terminara de comer, só espalhara mais a comida que agora transbordava pelos cantos do prato. À volta, todos os talhares cruzados indicavam falta de necessidade de uma Faca para se cruzar com um Garfo que não precisa cruzar: Garfos são únicos. José olhava no olho de cada estranho tentando conhece-los. Conheceu não pelos olhos que afinal eram estranhos, mas pelo cruzar característico de uma cultura de momento na qual o deboche impaciente faz questão de estar.

José levantou-se com o sorriso mais verde da alface que sempre detestou, mas comera por obrigação, assim como usara a Faca por obrigação, e expulsara-se da mesa sem uma palavra ao primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto ou sexto. Em vez de falar preferiu colocar seu prato cheio e frio no centro da mesa e carregar o Garfo consigo. A Faca largada seria acolhida pelos estranhos da mesa, embora ela os encarasse deslealmente como de costume, e José andaria longe e feliz com o Garfo entre os dentes.

11 de setembro de 2011

O Agrião, a Alface e a Couve

O agrião pergunta a alface.
"Que tempo faz o tempo hoje?"
A alface não sabe responder e agonizante avermelha suas cores agonizante, alaranja-se e arosa-se e avermelha-se em todos os gradientes solares até o matar-se.

O agrião redestina a couve.
"Que tempo faz o tempo hoje?"
E se doura a couve em exuberância sem fim até que vira ouro reluzente e ouro não presta, e lha pegam viva por sua lindíssima lindérrima cor e a comem, como se morta em suicídio.

O agrião cansado a si mesmo.
"Que tempo faz o tempo hoje?"
De perguntar o tempo a fio perdeu o tempo o agrião, reduziu a si todos os segundos de sua vida contados, e tal qual as outras se colore em quaisquer cores menos a verde, de desgosto de questionar para sempre o tempo sem portanto sempre deixá-lo solto para que alguém o viva plenamente.

12 de agosto de 2011

Insone

Dorme como só. Tranquilo, estupefato e apodrecido tranquilamente na cama se revolta a si mesmo, e prefere dormir. Dorme como só não dorme melhor por ausência, a ausência que lhe falta. Não pode contar consigo enquanto dorme: já é ausente para si mesmo em vida, que dirá em morte – no mais, uma morte isolada, em principal por si mesmo que lhe esquece de que morreu. Pressente ausência portanto o quarto está vazio. Ninguém dorme a não ser ele. Ninguém dorme a não ser ele que não consegue dormir. Está sozinho com os outros e está sozinho, e consigo estão os outros, mas há ausência no quarto.

De olhos fechados além da escuridão ímpar observada ele observa tudo dentro de si, por dentro dos olhos e para dentro dos olhos. Olhos fechados não o conduzem a mais do que ao seu próprio eu ausente, o que nem nada significa. Não significa. Pensa portanto em abrir os olhos amplos grandes angulares para conferir ausência outra que não a sua própria e os abre infielmente cerrados, como a uma porta de madeira verde encostada – nem aberta nem fechada, o que traduz zero significância, ainda pelo fato de que não existe madeira verde – ou um muro por si só, o que define dois lados com os quais o muro não compactua de posição. Infiéis. Aos olhos abertos encontra a escuridão, embora não a sua própria, mas escuridão tanto quanto.

Não define traços nem características, não define. Não difere sua escuridão de escuridão alheia da qual se apropria, as tem como as mesmas. Talvez por isso não signifique presença. Olha a volta como a quem busca madeira verde ou presença. De tamanha confusão não define nem um nada ao vácuo perplexo – talvez complexo, já que indefinível. Não define escuridões, por isso abre e fecha os abre-fecha olhos repetidos infielmente.

Não abre nem fecha, abre e fecha, como não define e difere muros de madeira e escuridões. Ausência plena em si e outra em outros que não o têm à hora da vida, que dirá à hora de dormir. Nanará portanto volta a dormir como só.

22 de julho de 2011

Criminalizando Dé Branco

Meu nome é “Sou um advogado criminalista”. Por ora posso dizer que relato apenas a verdade, como um registro do que é real por trás do que é visto – o que, em outras palavras, eu afirmaria como “enxergar”. A verdade, no meu caso, e no de pessoas tão privilegiadas quanto, rolava pelo vento com a otimização da força do vento enquanto no tempo.

A areia quase não compunha mais grãos aqueles que conhecem todos como os compostos da areia, e este fenômeno químico-físico remetia tão somente ao calor invariável daquela praia quente e paradisiacamente infernal de tão quente. Decerto a afabilidade dos grãos já inexistentes da areia era verdadeira contanto que conseguissem se sentar todos os presentes na areia corrida de quentura, tendo a mim como objeto secundário-planista ou mesmo coadjuvante na cena, ou deitar-se obviamente, dependendo da coragem de cada um – para mim eu sabia a fraqueza da minha pouca vontade, mas nada que de empurros outros eu não andasse.

De pé na areia alguns humanos invejáveis e, deitados, mais alguns semi-humanos ou “quase humanos”, ou ainda “seres na tentativa de tornarem-se humanos”, aos quais eu me incluía com um falso sorriso no rosto que, ao menos, em outros tempos, era branco.

Os invejáveis eram de todo os mais visivelmente aparentes na cena praiana por sua cor quase negra de tão preta, embora não remetessem nenhum deles à escuridão sórdida em que alguns dos deitados, entre eles um advogado criminalista que por mim é chamado de eu, se inseriam. Inseríamo-nos nós deitados, leia-se, à escuridão constante da vida por termos nascido deploravelmente brancos como uma ex-folha-de-papel, daquelas brancas como o sol em mormaço noturno.

Os deitados na areia deitavam – na areia quente e corrida quase inexistente de grãos de tão quente – para igualarmo-nos aos de pé quase negros de tão pretos embora contassem com toda a iluminação que a vida pode proporcionar. Os pretos de pé, unicamente pelo simbolismo de liderança imposto, eram liderados por Dé Preto, e todos de pé por bondade incontestável e incalculável ofereciam cursos e competições aos branquelos coitados de vida para que ao menos alguns pudessem se validar como aptos a seres humanos.

Paradisiacamente desgraçados eram exclusivos à competição que havia de ter começado fazia horas pois da quentura da areia já nada eu sentia e enfim me prestara emocionalmente a deitar na areia nem tão quente de tão inexistente. Deitados todos enfim estavam e a competição afinal começara e pelo menos alguma benevolência Deus teria tido para comigo mesmo que branco eu, perdão meu Deus, ao mandar à areia quente inexistente o vento que de novo varria o nada em que eu deitava.

Fato é que dali a pouco os de pé foram-se a viver fora da praia, da areia e do mar e depois voltaram-se uns aos outros com Dé Preto a os estimular, a checar à competição tão largamente demorada do “empretar-se-ão todos, seja hoje ou amanhã”, Dé Preto encorajava os deitados a continuar, “inclusive você o mais branquelo, que aqui desde aquele dia deita sem levantar”, a mim ele se dirigiu com grande olhar, e de olhar a olhares e olhares a competição foi passando, esquentando, delirando, infernizando, esfriando, amortecendo, acalorando, acontecendo e terminando, até que afinal recebi das profecias orais de Dé Preto a concretização.

Concretizei-me àquele dia como cimento puro, embora preto e não branco, com a aura mais brilhante de luminosidade cósmica que obscurecida de passados sombrios e, hoje, ao futuro do ontem, condenáveis. À saída daquela praia de areia inexistente perguntara-me Dé o nome do eu em mim que sucedera em empretizar-se sem contudo negralizar-se. Respondi aquém do esperado com “Meu nome é ‘Sou um advogado criminalista’ para resolver o meu próprio crime de ser branco”.

16 de junho de 2011

Monetizando Dé Preto

Na estante Dé tem colecionados potes onde guarda dinheiros de variados tipos, desde moedas a cédulas. Etiqueta-os ordenados por valor unitário, e o espectador de frente os vê como a potes de moedas de cinco centavos e logo depois de dez e então de vinte e cinco em diante até que metal vira papel e vem o popular dois reais e aos cinco e depois dez, vinte, até que desembocam todos num pote magérrimo de notas de um milhão. O espectador curioso que se prestar a abrir os potes de Dé e conferir seus conteúdos vai notar primeiro que o pote milionário encontra-se vazio, mas entendam: ao abrir dos potes de cinco centavos, estes recorrentes, e de dois reais, estes recebidos todos dos fãs frequentes de Dé na Boate, percebe-se que juntos somam por aí a um zilhão de euros, embora o espectador tenha esse número apenas como conta inexata. Ciente, Dé providenciou um economista e aguarda avaliação.

30 de maio de 2011

Dislexia

água pela anda garça A

vento pelo anda água A

ar pelo anda vento O

espaço pelo anda ar O

nada pelo anda espaço O

nada pelo anda nada O

nada pelo anda nada O

nada pelo anda garça A

garça pela anda nada O

vento pelo anda garça A

garça pela anda ar O

garça pela anda garça A

espaço pelo anda garça A

água pela anda espaço O

garça pela anda água A

nada pelo anda garça A

tudo pelo anda nada O

nada pelo anda tudo O

mim pelo anda nada O

sono pelo anda mim O

vento pelo anda sono O

nada pelo anda vento O

vento pelo anda vento O

24 de abril de 2011

Sobre Donos de Cabelo

Andavam ao vento os dois, ou caminhavam, para ter enfeitada a cena, como seria em compatibilidade com o enfeite do flutuar dos dois ao vento repleto de charme que lhes conferia carisma ainda mais extravagante. Ele andava cortando com o pescoço o vento e contando com o pescoço os caminhos a caminhar num ângulo favorável a visão enquanto o outro flutuante se balançava pelo balanço do pescoço do primeiro.

Eram andando dono e seu cabelo, Dono de Cabelo forçadamente bagunçado por aquilo a que ele atribuía a palavra “vida” logo seguida da expressão mais orgasticamente maravilhosa, “o sofrer” – que por nós será chamada de expressão não apenas pelo fato da verbal substantivação, mas porque ao momento seguinte em que se sofre, se expressa, o contrário de se calar, principalmente quando numa história contabilizamos um Dono de Cabelo que de reprimido tem apenas os fios capilares em seu couro nobre cabeludo. De volta ao caminhar pelo vento, o caminhante era um Dono de Cabelo que sofria de seu auto-estereótipo.

O Dono do Cabelo era de fato um bon vivant pois lhe caía como luva o cabelo na cabeça da qual ele gostava de ter autonomia sobre. Caía-lhe bem o cabelo que desde primórdios de infância pré-definira e modelara sua personalidade tardia e nem um pouco vazia, afinal preenchimento capilar não lhe faltava e portanto vinham no pacote os escrúpulos. E a verdade mais sincera, doa a nós oniscientes ou a quem doer, é que o Cabelo também adorava ser o cabelo do Dono do Cabelo. Eram juntos como carne e unha, embora soubessem que carne e unha nunca teriam formado dupla tão boa quanto fios e couro, logo cabelo e cabeça.

Tinham orgulho mútuo um do outro inclusive, o Cabelo do Dono por este lhe comportar com tamanha competência, e o Dono orgulhava-se do Cabelo por este lhe servir com igual tamanha competência. Parecia incrível ao Dono do Cabelo que seu Cabelo nunca tivesse precisado da insolência de uma Escova, arquiinimiga de todos os Donos de Cabelo por toda a Terra, e por isso ele o cultivava como a maior conquista da vida dos dois até então. Outras pessoas, nas entrelinhas as ordinárias que podem ser classificadas como Escovadoras de Cabelo, uma vez que sua posse sobre qualquer cabelo é refutada ao mínimo detalhe do toque de uma Escova, imaginavam o orgulho de Donos de Cabelo quando percebiam que esse era seu título, principalmente quando eles desfilavam com seu Cabelo ao vento.

Tinha-se por prova de experiência e portanto de resistência por parte dos Donos de Cabelo que ao estereotipar-se deste título, o Dono de Cabelo em questão tornava-se de imediato o que neste mundo denominamos semi-celebridade. As conseqüências deste resultado seriam evidentes quando tivéssemos clareza que da soma de uma semi-celebridade Dona de Cabelo à outra semi-celebridade emergente, o próprio Cabelo, estaríamos de frente com uma celebridade completa que enquanto no campo de visão de qualquer ser humano mediano, ou Escovadores de Cabelo, provocaria certo alvoroço absurdo e inconsciente na faixa social Povão da Escova, afinal era incontestável a verdade de que ao escovar de qualquer Cabelo, danificava-se o cérebro por tempo indeterminado, quando não infinito.

A cena então era extraordinária enquanto passava a dupla de semi-celebridades que coexistiam porém não sobreviveriam separadas, o Cabelo por si só jogava-se para trás e para os lados e então em redemoinho até que o Dono do Cabelo se prestasse a ajudá-lo e lhe conferisse formas e conceitos absurdos, despenteando e penteando os fios assiduamente embora sem o auxílio assassino de uma Escova, subentendendo-se “com as mãos”, afinal sabemos as conseqüências de uma Escova, as quais definiram a vida dos espectadores Escovadores desta cena. O crucial para o Cabelo e seu Dono, visto que eram ambos semi e juntos portanto uma única celebridade, título que comprovadamente causava pane nas cabeças já empanadas, era que, de todos os Escovadores que lhes observavam maravilhados, nenhum poderia ter a audácia de se hipnotizar e querer lhes acompanhar até sua casa e lar, balbuciando com outros na faixa Povão da Escova em uma demonstração daquilo que temos por algazarra. Teriam que passar o Dono e seu Cabelo, andando ou talvez caminhando, mas apenas passar.

E passando em fases tranqüilas e absurdas e de volta às tranqüilas, embora nenhuma fase absurda do passar tivesse chegado ao alerta de emergência “Alvoroço e Algazarra”, o Dono do Cabelo se orgulhava de toda a cena que se desenrolava e transmitia a mesma felicidade ao Cabelo que se espalhava ainda ao vento, e novamente teriam conseguido os dois ter passado por mais um aglomerado no qual todos os Escovadores ficaram hipnotizados e ainda assim nenhum os seguira até em casa, objetivo este diário e único de todos os Donos de Cabelo, “passar e hipnotizar enquanto não estar sendo seguido”, eles saíam martelando de casa.

Pelo orgulho de serem juntos celebridade e de terem terminado o dia como planejado, a honra que trouxeram os dois se expandia pela casa do Dono do Cabelo, logo o lar do Cabelo, em um ambiente naturalmente desescovado e de ventania contida, e da verdade mais incontestável, daquela que se enquadra na mais honesta, a revelar-se agora que Dono e seu Cabelo descansam leves porém rígidos em seu flutuar sonolento nunca a ser acordado, doa a nós oniscientes ou a quem doer, é que ao abrir de nove portas e treze caixões no cômodo mais longínquo e inesperado da casa do Dono do Cabelo, logo o lar do Cabelo, e então à chave vacilante na fechadura de um baú, encontramos apenas nós e nenhum Escovador na mais súbita subconsciência do Dono e seu Cabelo uma bela, reluzente, alto-astral e gasta de uso Escova, o que não denigre em nenhum modo a imagem formada de celebridade conjunta do Dono e seu Cabelo, afinal subconscientes Donos têm Escovas, e em subconsciência até Escovadores têm que nunca escovaram seus ex-Cabelos.

10 de abril de 2011

Chica

Passava mal havia dias, não respirava e não comia, nem de sua sede bebia. Descobrira que o efeito era incurável mas não podia se deixar vencer, era muito fácil. Lutou por meses caídos em anos e de nada se curava, continuava sem comer e nem beber, mal respirava. Decidira então que iria morrer, o faria de bom grado já que tentara e não conseguira sobreviver. Com a morte não se brincava e se o tempo lhe clamava então com o tempo ela estava. Dissera que iria para o chão e de lá seu corpo permaneceria sem alma e parado coração, e foi-se feliz para se juntar ao clamor hostil mas necessário dessa vida febril. No chão arrebatada esperava que lhe carregassem e lhe carregara não a morte, mas mãos divinas que a puseram de volta ao alto em grande porte. Tentara outra vez irritadiça, e se jogando do abismo sofrera em silêncio da doença de outros tempos mestiça. De novo lhe colocara a mão no cosmos defraudos, e não entendia o que se passava pelos mortais laudos. Já uma vez tentara vencer e não conseguindo se juntara ao inimigo, portanto agora outra vez ao invés de ao chão ir, pelos céus voando iria partir. Atirou-se com dificuldade ao céu pavoroso e voou com pesada leveza pelos ventos em senhorio gozo. Passou bastante tempo até que enfim morrera o pássaro voando, de todos os privilégios do voar desfrutando. Voara por toda a vida e em seu último suspiro não fora trazido ao solo, e tampouco suas asas morreram fechadas como deveriam se de eventual encontro ao chão e ao dolo colo. Está agora sem dor e sem sofrer, em paz percorrendo acres dos céus do amanhecer e do anoitecer, pois suas asas não morreram vivas por cortes temporais, mas vivas para sempre em todos os eternos vitrais.

14 de março de 2011

Revolução Cósmica

O sol já não mais se chama sol. Chamam-lhe Vênus em prol de acontecimentos muitos em que a pouco o sol explodira-se e deixara suas chamas a Vênus, que em certo modo já era estrela – embora planeta no sistema, da Terra era vista como estrela, o Sujeito da varanda a via reluzente no infinito e no entanto não estava perto de ser ouro ou planeta. Vênus agora regia o sistema Venar de erupções caóticas à Terra. O Sujeito via o sol mais claro e denso da varanda e se protegia com as mãos de tanta luz. Ou melhor, via Vênus. Via inclusive uma nova Lua que acidentalmente se reconstituíra da explosão do sol. Chamaram-na Sol. Tínhamos Sol e Lua de luas no céu, agora também de sóis portanto. Sol era lua e Vênus era sol, mas Lua continuava tão lua quanto antiga Lua. De tamanho declínio Lunar, em miséria estrelas da antiguidade somadas às estrelas compartilhadas da implosão solar, estas que também levaram o nome de sóis, vieram a brilhar tão quase mais que a Lua, tão quase. A real Lua tornara-se Meia-Lua quando o sol tornara-se Lua e Vênus o sol, e agora como Meia-Lua regia meias marés e meias brisas em solos em que o Sujeito preocupava-se com a falta de ventos ondulados e ondas aventadas, sem contar que os dias tornaram-se mais longos pois Vênus funcionava como luz no presente cosmo, e era natural que de mais perto irradiaria chamas que de mais demorariam a sumir. Também o que chamavam de noite virou o Pós-Dia, que não deixa de ser Dia, diante de complicações como a luz excessiva de estrelas que pintavam o céu de branco-azulado mesmo quando Vênus se punha, e ficava o céu azul esbranquiçado também pela luz do Sol que agora funcionava à noite como lua. O Dia agora era Dia quando era dia e quando caía a noite, e o Sujeito na varanda contemplava seu azar cósmico. Não comia pois não sabia quando sentir fome e também não bebia pois a sede já se fora e voltara e mudara, nem ao menos dormir conseguia com tanta luz, fosse dia ou noite ou pós-dia, tentava o breu que não vinha. Quando à luz acontecia o fechar de olhos, à luz o Sujeito os forçava a abrir e acordar inclusive se tornara um problema, ficava então de olhos fitados aos céus iluminados afinal a Noite Escura já não existia desde que o ex-sol explodira.

2 de março de 2011

A Traficante e o Traficado

Gislane não sabe o que faz do pobre espírito. Está agora de pé em seu trabalho prestes a vender quatro unidades de TicTac a um cliente hippie adepto de dreadlocks fumados, e do pior que viria a acontecer, está ciente disso. “Qual vai ser o sabor?”, ela pergunta e o maluco responde em sussurros que era chegado num Heroísmo eventual e numa Coca por sobrevivência, então dois de cada lhe serviriam, e Gislane receosa de problemas hesita, mas acaba por vender os pacotes e “Deus salve essa alma e que ele continue a comprar comigo”, ela pensa.

O sujeito agora saía da banca envergonhado e com uma ligeira dor de barriga de quem faz algo errado, após ter recebido da dona da venda os pacotes e só os ter aceitado depois que uma senhora terminou de escolher seu livro de receitas e se mandou dali, para não passar mais vergonha. Sentou-se ali mesmo no banco vizinho, puxou seu fósforo falho mas servil e acendeu sem pudores a primeira caixa, esta repleta de heróis, e embora envergonhadíssimo pensou que ninguém por ali lhe diria para fazer o contrário, afinal seria como se não soubessem todos daquela área que Dona Gislane acabara de abrir seu negócio de TicTacs disfarçado de banca de jornal. Não iriam lhe denunciar, e ainda que tivessem esta intenção, sua vontade de consumir beirava ser autoabusiva.

Gislane, no entanto, de dentro da banca enquanto vendia a mais um tictacteiro herói ou acocalhado, embora este mais normal e mais discreto, viu o drama do hippie afora e pôs-se a correr e a severamente adverti-lo. “Não tá vendo o posto policial logo em cima aqui, homem? Guarda esse teu brinquedo fora antes que falam, Sand!”, ela falava em quase berros enquanto Sanderson, o hippie, apenas expunha em câmera lenta seus argumentos de que ninguém os denunciaria e de que os policiais sozinhos não perceberiam nada. “Guarda!”, gritou de novo Gislane e atraiu o pior. Dois guardas que passeavam na rua acima atenderam ao chamado com urgência e logo estavam abaixo em companhia de Dona Gi e Sand, perguntando sobre qual teria sido a ocorrência.

E pronta Dona Gi se adiantou a explicar que Sand havia apenas comprado umas TicTacs em seu estabelecimento e distraído havia esquecido de pegar seu troco. Ela vinha correndo atrás dele para lhe devolver o seu dinheiro quando eles, guardas, de prontidão atenderam ao seu alarme falso. Alarme verídico entretanto aconteceu à menção da palavra “TicTac”, ao ouvi-la os dois policiais se puseram a relaxar os músculos e ir desaparecendo novamente pela rua acima, e os guardas iam sumindo entre sorrisos e cerimônias quando no ímpeto mais súbito da lembrança, Gislane reconheceu um deles – “sim, o que forçara o outro a se afastar”, ela pensava – como a um de seus compradores.

Maravilha. O policial robusto e autoritário como era devia gozar de usufrutos suficientes para fazer uma pequena grande divulgação passiva, necessária para o reconhecimento em escala municipal do estabelecimento de Gislane. Iria mandar notas ao maior jornal do país para que ela, Dona Gi, pudesse à noite estar sentada em seu sofá lendo o jornal roubado de sua própria banca depois de um ordinário dia de trabalho e ver a notícia com a seguinte manchete, “TicTac da Dona Gi na Cidade Alta é sucesso absoluto”, e a legenda, “Policiais, hippies e ordinários aproveitam o novo estabelecimento.” A notícia poderia também sair na televisão se o policial assim quisesse, afinal emissoras adoram noticiar fatos.

Dona Gi agora sorria a um Sanderson maculado e infantil, que por sinal deixara de ser um estorvo e se tornara inclusive o pontapé alavancado para o início e decorrer brilhante deste novo e insubordinado sistema tictacteiro nacional.

22 de fevereiro de 2011

Descicatriz

A facada não transpassa. Pelo contrário, revira a pele
e sobrepõe-se inchada para o lado de fora
elevada ao mesmo comprimento da profundidade.

O corte não jorra. Em teses anti-realistas
suga o sangue para dentro na mesma medida
em que o expeliria se fosse tomado o rumo aceito.

O soco não afunda. O caminho que faria decrescente
na cartilagem retorna à crescência e incha os ossos do corpo,
embora o inchaço dos músculos recalque ao seu interior.

O tiro não mata. Mata em trilhamento inverso
quando se propõe a revigorar o sangue sugado,
a crescer em inchação óssea saudável e a nivelar a pele.

A cicatriz não marca. Inversa ao que se preparam os anti-cortes,
socos, tiros e facadas, seu resultado não é a marca irredimível,
mas o cair solitária do corpo, rindo de seu dono desmarcado.

A descicatriz marca. Marca tanto quanto facadas
não transpassam, cortes não jorram e tiros não matam
e socos não afundam e cicatrizes não marcam.

15 de fevereiro de 2011

Menina Abaixo e Menina Acima

Da janela a Menina Acima via o centro comercial detalhado abaixo, embora apenas visse. Não observava ou fitava como é comum a muitos a prática. Via por cima, do alto embaçado. Era em noite uma madrugada e acima de sua cabeça era tudo negro no momento como há horas havia sido azul escarlate, mas embaixo de seus pés além do chão no qual se sustentava ela podia ver a iluminação intensa e claramente irremissível que mesmo à distância irradiava definições de rostos reconhecíveis se conhecidos de antemão. Afinal chegara o grupo miseravelmente definível pelo qual ela esperara desde horas em que o céu ruminava azuis límpidos quando tomara a decisão de que precisaria reencontrá-los ainda que à distância. Como se ela estivesse à espera e na torcida inversamente natural ao que acontecia nos andares públicos abaixo, o que ansiava aconteceu em generalização de detalhes exatamente como ela havia suposto.

O grupo abaixo apertava o passo e desabotoava a calça enquanto seguiam a linda Menina Abaixo solitariamente independente do ciclo empresarial – “linda”, como a Menina Acima pensava, “apenas até este momento” – e lhe tiravam a beleza quando a calça já há muito tivesse caído. A Menina Acima de cima apenas via como as coisas haviam de acontecer e mesmo que conformadamente horrorizada, não se prestava a socorrer qualquer que viesse a ser o destino da linda – “linda”, como ela insistia em pensar, “apenas até este momento” – Menina Abaixo. Mais um amontoado de minutos facilmente contáveis pelo relógio silencioso mas atrativo da parede no canto ia passando lenta e rapidamente, dependia apenas para quem na cena, e o grupo sabotador de lindas continuava a cumprir tarefa usurpando da Menina Abaixo o linda de seu rótulo. Era admirável a facilidade com que drenavam sua pele e esquartejavam com os olhos, com as mãos e com todo o resto de seus corpos órgão por órgão da maravilhosa Menina Abaixo. Mais um amontoado de segundos dificilmente contáveis pelo relógio silencioso no canto da parede, pois o relógio não marcava segundos, ia passando agora animadamente de cem metros para baixo e indiferentemente de cem metros para cima. E o grupo eventualmente foi-se feliz e lindo pelo centro anoitecido.

A Menina Abaixo continuava pouco linda e perdendo sua beleza, afinal com certeza o grupo teria meios a que roubar inocências mesmo à distância, que a propósito teria sido a mesma distância de anteontem da Menina Acima, e um pouco mais da distância da Menina Acima de hoje. Neste momento ambas as meninas compartilhavam da mesma ternura arrombada, e entendam que deixaram de ser lindas. Ela Acima tinha certeza de que rótulos passavam fáceis pelos filtros, e Ela Abaixo de que o sorriso que achariam que ela iria carregar seria de veracidade apenas segundo a sociedade.

Não mataram a Menina Acima, o grupo, pois do chão ela ascendia, nem esfaquearam tampouco a vida da Menina Abaixo. Misericordiosos não roubam vidas, como o grupo teria sido às duas ex-lindas. Apenas lhes furtaram o brilho nos olhos pelos quais a ausência de cor não lhes permitia observar ou fitar, apenas ver. Agradecidas com ilustre generosidade, elas apenas não piscariam mais o brilho no olhar, e carregariam sozinhas os ex-rótulos de ex-beldades, afinal “lindas”, as Meninas Acima e Abaixo pensariam ad infinitum, “apenas até aquele momento abrilhantado.”

11 de fevereiro de 2011

Festejando Dé Preto

A festa aniquilava a todos os tipos de garotões e garotonas, tendo em mim um ponto de referência. A quadrilha se estendia periodicamente conforme as demais princesas iam chegando a engrandecer a dança, que logo teve em si um verdadeiro fuzuê. Também, foram as gingadas da dança que me levaram sóbrio à cozinha, onde encontrei as garrafas de bebidas duvidosamente azuis e alguns cilindros de erva ainda não acessos. Uma pena ter me portado como me portei, mas naturalmente à menção de utilizar os vícios, dei-me conta de que meu contrato na Boate me proibia de danos mentais e joguei um dos enrolados acessos em plena bebida aberta, antes que a labareda de chamas vivas se cauterizasse por cima de mim. No desespero, abortei-me de quaisquer medidas pensadas e comecei a jorrar a água da pia ao lado no fogo acesso, que logo veio a apagar. Infelizmente no acaso vim a queimar seriamente dois dedos, o que não me retornou muita culpa sincera, tendo em vista que nenhum dos dois compunham músculos importantes no meu corpo. Ainda assim, tomei a decisão de me consultar com algum médico da Corte, para ter a certeza de que nenhum tecido muscular se feriu no acidente.

8 de fevereiro de 2011

A Vitrine da Loja de Animais

Nós estamos adotando. Apesar de tudo, aprendemos que da vida vamos tirar vários ensinamentos, e sofrimentos e pensamentos e discernimentos, e este último vinha sendo o mais doloroso de todos, indescritível em palavras. Basta dizer que não o desejo nem ao menos ao meu mais letal inimigo. Minha esposa Nina perdeu o nosso filhote recentemente e vínhamos estando em profunda depressão. Ela não é infértil ou tem quaisquer desses problemas que a impediriam de ser uma perfeita mãe, mas o baque foi tamanho que por ora adiaremos os problemas. Por ora nós estamos adotando.

Soube de um lugar inadiável a qual teríamos que prestar visita se estivéssemos com real vontade de adotar. E estamos, então viemos o quanto antes ao estabelecimento para saldar dúvidas e quem sabe não nos apaixonarmos por algum bebê. O lugar é inacreditavelmente acolhedor e simpático, me parece inclusive saudoso. Mas Nina não acha o mesmo. Desde que chegamos ela tem fechado a cara e reclamado em olhares o seu descontentamento com a fachada do lugar, sem contar que ao entrarmos a sua impressão foi ainda pior e só então ela começou a se mostrar preocupada em palavras. Mas não importa, não há motivo para a estranheza. A loja é linda.

Impressionei-me já na vitrine, é cautelosamente organizada e limpa. Os bebês têm cada um seu próprio espaço de exposição no vidro, e repito que a organização não poderia ter sido melhor feita. Os espaços são divididos por barras metálicas no degrau interior da vitrine e ali eles expunham nossos filhotes. Enquanto entrávamos parei Nina na vitrine para vermos os bebês. Eram todos mansos como o nosso teria sido se nós não o tivéssemos perdido, e também extremamente graciosos. Infelizmente as três graças fazendo seu espetáculo eram de raças miseravelmente opostas às nossas e seria impossível tê-los. Dois eram pretos, eu sou loiro e Nina morena, e ambos brancos. Seria demais antinatural. O terceiro era albino e pálido ao extremo a ponto em que talvez viesse inclusive a adoecer. Não seria bom para mim ou para Nina, já sofremos muito com a perda do nosso bebê e, como disse, por ora estamos adiando problemas. Então depois de mostrar a Nina a bela mas insatisfatória vitrine, finalmente entramos na loja com Nina me marcando com olhares.

O interior era ainda mais bonito. O centro da loja era circular descrevendo vitrines à volta por trás dos balcões de vendedores sorridentes, e eram tantos filhotes que eu e Nina nos perdemos por um instante. Ela parecia perdida em palavras e seu rosto expressava algo repulsivo, contudo apenas até eu puxá-la para perto das vitrines e tê-la a opinar comigo.

Chegamos a um canto onde todos os bebês eram brancos e carinhosos com os visitantes, inclusive com Nina que se mostrava impaciente. Estávamos apoiados nos balcões tão perto dos vidros que podíamos ver em detalhes o rosto de cada um. E então, como se reconhecesse em mim um pai, um deles loiro como eu veio em nossa direção e se pôs a cheirar o vidro com o rosto pressionado. Parecia súplice mas feliz, e olhei para Nina sorrindo enquanto ela me censurava a cara. “Isso é doentio, Miro”, ela disse, e não consegui entender seu argumento. Era lindo ver crianças felizes.

Fomos nos arrastando para o lado enquanto víamos mais e mais bebês, eu maravilhado. Era impossível que tivessem conseguido juntar tanta pureza em um só lugar. Na roda gigante em que íamos nos descrevendo pela loja, encontrei por duas vezes um bebê que remexia seu pote de papinha insistente e nunca tirava um pingo de comida de lá. Fiquei intrigado, o bebê deveria estar faminto à procura de subsistência e nem sequer o olhavam.

“Acho que aquele bebê está com fome”, falei a um vendedor próximo e absurdamente distraído.

“Perdão?”, óbvio, o ligeiro não ouvira.

“Aquele filhote”, apontei para o bebê que continuava colocando a mão no pote, “acho que está com fome.”

“Ah, sim”, o vendedor mexera em alguma coisa embaixo do balcão e tirara algumas balas que agora mastigava, “ele está de dieta, não vê que ele está um pouco gordo?”

Olhei mais uma vez atentamente o bebê e vi. Ele estava muito mais rechonchudo e redondo como se pronto a sair rolando do que todos os outros filhotes. De fato ele estava gordo. Quanta prepotência imaginar que deixariam o bebê com fome quando zelavam pelo bem de sua saúde. “Claro”, respondi ao vendedor que acenou, e ao me adiantar para continuar a visita em círculos, fui puxado pelo braço. Era Nina.

“Quero ir embora”, ela parecia profundamente chateada.

“Mas por quê? O lugar é fantástico!”

“Você sabe que nunca gostei de lojas assim, Miro”, seus olhos cintilavam de decisão. Eu tinha certeza que sairíamos logo dali. “Falei que seria melhor se tivéssemos ido a um criador, você viu o que fizeram com aquele pobrezinho?”

“Que pobrezinho? Não têm pobrezinhos aqui, Nina, você não notou?”, sorri para ver se lhe arrancava alguma satisfação. Provavelmente ela estaria se referindo ao bebê gorducho. “Os bebês aqui são muito bem cuidados.”

O rosto de Nina se transformou de levemente enraivecido a altamente preocupado. “Os o quê?”, ela me perguntou. Nina estava agindo muito estranho, parecia em câmera lenta.

“Os bebês”, eu repeti. Ela se mostrou ainda mais aturdida, agora inclusive como se dividida entre se acalmar e se esbaldar. Sussurrou um quase inaudível “Vamos embora” e me puxou pela mão para cada vez mais perto da porta da loja. De vez em quando em suas viradas de rosto eu podia ver que seus olhos estavam marejados. Enfim saímos da loja e então Nina começou a chorar em imperceptível silêncio. Não entendi o porquê e me apressei a acalmá-la. Por ora estávamos adiando problemas, não podíamos ter mais problemas. “O que houve agora, amor?”

“É uma loja de animais, Miro...”, sua fala penetrou raso nos meus ouvidos e apenas depois de levantar minha cabeça, olhar para trás e perceber escrito acima da então belíssima vitrine as palavras “Mundo dos Animais – Cães, Gatos e Aves”, é que me dei conta do quão profundas suas palavras poderiam ter sido ou do estrago que elas me teriam feito. Larguei Nina por um segundo, e ainda olhando para a vitrine via os bebês de diferentes raças engatinhando em círculos e súplices enquanto pressionavam o rosto contra o vidro.

Céus, estou delirando.

1 de fevereiro de 2011

Ampulheta de Amores

Acalorado pelo frio
de insólita indiferença,
em busca vai
de sua ampulheta de amores.
Achou por todo o tempo
que fosse de coração aberto,
quando a ampulheta
era de grãos amados
que passavam rápido.
Virou há tempo
o amor uma vez,
para torturar-se enquanto via
areia correr em sordidez.
Sentia na pele cada grão
do vidro da ampulheta velha
e triste enferrujada,
que em pouco tempo passava.
Sentia muito por breve
aquilo que logo
não lhe era nada.
Assim perdurava a relação
até que passassem todos os grãos,
o obrigando novamente
a virar a ampulheta em vão.
Virando, rodava e girava
a ampulheta falha.
Esperança tinha
de que a ampulheta
de tanto girada
e revoltada, algum dia
falhasse em falhar
na estrutura embicada,
e pudesse travar um dos grãos,
emperrando a todos os outros
e ao tempo na transição.
Poderia sentir, então,
como uma pré-saudade,
o que seria amar forte
o grão certo em sumidade.

25 de janeiro de 2011

Itinerário de Edições

Fugiu. Ele fugiu sem ambições ou remorsos ou pensamentos enquanto corria altivo ao ponto de ônibus, apesar de ter fixo no semicerrar de seus olhos o destino previsto. Pela primeira vez ele se encontrava no lugar mais sucinto de sua história sem um destino qualquer planejado, tendo em mente a imposição de que o traçar de planos ao ponto de ônibus seria o último em sua vida. Deixara em casa nada material, a não ser que viessem a achar palpável seu fantasma ali vívido de outros tempos. Remoto como só e agora também avulso, peneirava suas amizades e pesava seus sonhos na corrida contra o vento. E é de sempre que sonhadores rebuscam alto seus destinos até que a gravidade tenha tato falho a puxá-los para baixo quando os percebe flutuantes.

A correria agora era portanto de moços e moças esbarráveis no majestoso ponto de ônibus lotado. Joel fugitivo peregrinava perdido por entre rostos e não conseguia decidir-se em que rumo tomar. Discorreu então sobre a possibilidade fatídica porém incontestavelmente conveniente de pegar o primeiro ônibus que viesse, com as primeiras pessoas que entrassem e os acontecimentos primeiros que sucedessem. E lá vinha o ônibus lotado.

Juntava-se então à fila métrica de gado a rebanhar em bancos ambulantes, tendo em mente seu pensamento auto-subordinativo de que este seria seu veículo. Perderia peso e peneiragem ao esperar, mas tinha para si que seria uma das exigências de sua aventureira viagem. Embicava sonhos e horrores à entrada luminosa do ônibus e mal conseguia manobrar a mochila pesada por entre os passageiros. Pagou ao cobrador da escada de entrada num estica-empurra indigno de sua atenção enquanto se espremia na comunhão forçada e evasiva.

Joel pensaria estar em um hospital se este não andasse. Além de sua aparência, talvez simbolicamente o fosse pelas várias pessoas de vidas, amores e razões diferentes que se aglomeravam pela falta de instrução primária e buscavam a cura em conjunto. Ele não poderia deixar de se parabenizar por escolher esta específica cura, e não podia parar de olhar fundo nos olhos de cada pára-quedista no ônibus. E a freada do motorista foi tão brusca que fez com que todos xingassem alto numa rebelião controlada e por tempo marcada. Por fim, resolveu que teria que conhecer a si mesmo para então desvendar entornos inacessíveis aos pobres de espírito. O foco de Joel recaía de exatidão neste ponto ao qual ele insistia em se desfocar: era pobre de espírito e teria que se consertar.

Admitia com dor no coração que seus anos foram por todo vividos em conveniência. Teria vivido consigo em seus desejos reais apenas em subconsciência por todo o tempo, de resto aos outros se mostrava como se pronto a agradar o mundo. Tentou-se pelo mais fácil e até hoje não havia comparecido a nenhuma superlotação fugitiva. Estaria preocupando aos familiares em casa e aos colegas melhores amigos com seu desaparecimento, e não se importava. Teria que reconciliar-se com Joel fugitivo.

Como se não fosse pouco sua imposição social, mais do que estar em casa temia ser sua casa, cheia de objetos e pessoas suntuosas pouco válidas. Temia ainda mais ser os lugares pelos quais passava por freqüentador assíduo, e matava-se de medo de ser como a personificação desse levantado de muros e praças. Por isso fugia. Longe não saberia como se comportar e cederia ao natural do seu eu, e esperaria.

Fugia. Ele fugia e não fazia idéia para onde. Sua mochila pesada ainda incomodava a paciente do hospital ambulante, submerso em má saúde, e ele não podia fazer nada. “Perdão, senhora”, Joel gaguejava vez ou outra quando percebia ser incômodo, e se sentia vazio cada vez que pensava não saber aonde estava indo. Ainda que o letreiro luminoso lhe indicasse claramente o destino a que o levava, Joel nunca teria ido a tal lugar em sua outra vida, e não poderia imaginar o que lhe aguardaria lá ou o que faria quando desembarcasse. As conseqüências eram difusas.

Os pontos subseqüentes da viagem passavam despercebidos pelas janelas devido à lotação e à má vontade do motorista de ajudar os passageiros que queriam ir para casa, fossem espremidos ou não. Joel se perguntava se algum deles teria o mesmo objetivo que o dele, de fugir para qualquer lugar que lhe fosse apresentado. Contudo, era difícil acreditar que qualquer um quisesse andar naquele ônibus. Truncava, chacoalhava e rangia a cada centímetro andado. Percebia apenas agora enquanto olhava pela janela que não conhecia meio palmo do itinerário descrito por seu salvador, e não teria certeza de que este lhe cabia como o correto.

Percebia apenas então que o único itinerário indigno de ser testado seria o de retorno para casa, afinal não tinha certeza de suas amizades aptas à lealdade ou do que estaria conseguindo absorver da vida enquanto absorto numa vivência constante e desfragmentada. Todos os outros, no entanto, poderiam ser editados em fugas cada vez mais recorrentes pelo Joel fugitivo. Editara tanto sua vida que lhe parecia simplório manusear rumos de antemão, e sempre que se sentisse infligido tomaria a atitude de mudá-los.

Então chegara ao ponto final onde eventualmente Joel fora deixado sozinho. Inconscientemente achou que fosse o ponto final, por estar noite e cansado. O ônibus, porém, era circular, e Joel já vinha deitado havia horas desde que todos os outros passageiros desceram às suas casas, abrindo espaço em cadeiras para ele, quando livremente absorto em sonhos, pensou ter parado e sido despejado do ônibus pelo ponto que não andaria mais.

“Te perdeu, amigo? Tá aqui faz horas”, o trocador tinha vindo do início ao fim do ônibus para a pergunta. Parecia preocupado.

Acordado e ainda ambulante, um Joel bêbado de gente olhou pela janela agora totalmente visível e depois ao trocador, e em frações de segundo respondeu enquanto sorria.

“Não. Estou fugindo.”

17 de janeiro de 2011

A Promessa do Dia 2

Olho para o ano que passou com olhar de anteontem.
Olho para as pessoas de anteontem com o olhar da semana passada.
Olho para a semana passada com o olhar construído no ano que passou.

Vejo no ano que passou pessoas arrependidas e dispostas a mudar.
Vejo na mudança causada por novos anos a mentira mais material.
Vejo mentiras materiais em todos os anos e em todas as viradas de ano.

Percebo que as viradas de ano psicografam emoções e as põem em pauta.
Percebo que emoções da virada são criadas pela imposição da mudança.
Percebo que a imposição da mudança em tempos artificiais é de extrema conveniência à virada do ano.

Confesso que deixo de acreditar por ora em felizes anos novos pois não os desejo confortável.
Confesso que não os desejo pois aprendi a ter na mudança o moralismo de sempre, e não adiá-lo ao último dia do ano.
Confesso que mudanças verdadeiras são pelo coração marcadas, e não aguardadas ao último instante de um ciclo impessoal.

Prometo que não prometo.

11 de janeiro de 2011

Cócegas

Ninguém me disse ser fácil,
o conhecimento já estava em mim.
Apesar de falarem, nunca me contam
o que há de fácil e difícil,
e tenho que procurar entender
por mim mesmo. No momento, porém,
já dançaria com tamanho conforto.

Às menções dos nomes, levantando-se
iam cada um por sua vez extasiados,
controlados por fisiológico, embora
pesados de coração mole tremendo.
Sentia-me um tanto quanto igual
embora me confortasse com o fato
de que já vivenciara o momento.

E pois chegara a vez de quem queria,
a minha. Intrigado com amenidade
imperceptível, me olham no fundo
da pele dos pés ao fio capilar torto,
então ao fio sanguíneo dos olhos.
Ereto de formas curvas balanço
e finjo não ver, garanto posição.

Impetuosos, me dirigem a palavra
calmos, cegamente confiantes
em minha autoconfiança. Hora há
de se responder o questionamento
e de súbito me pego sublinhando letras
incondizentes com o aprendizado
esperado, me portando como vaia.

Logo se percebe a automutilação
por expressões em todos os rostos,
quando no fim minha pretensão odiosa
encheu o ambiente e penetrou
à cabeça de todos. Soberbo eu,
me viram os jurados mutilados
enunciando apenas, “Fez-te cócegas.”

1 de janeiro de 2011

Reunião do Partido dos Jogadores

À mesa, dez candidatos.

A mesa, redonda a receber um círculo de opções futuramente governamentais, resplandecia uma imensa estrela vermelha impressa em seu centro com as iniciais “PJ”, em letra branca, devidamente inscritas, e um utensílio (provável que fosse de cozinha) em madeira anteriormente polida, para que girasse com facilidade por toda a estrela.

À volta, os dez pré-selecionados se encaravam em apreensão tranqüila, cada um com um olhar distinto e revelador de suposições apenas mal-fundamentadas. Quisessem ser escolhidos ou não, estariam à prova do Processo de Seleção Oficial da Candidatura Presidencial do tão estimado (pelo menos, aos tempos em que os sentados não almejavam o cargo) Partido dos Jogadores.

O comandante, agora levantado de um pseudo-trono a pouca distância da mesa Jogadora, de pé a rondava de forma a que, quando finalmente girasse o aparato de carvalho que apontaria duas cobaias dentre as dez presentes, não pudesse ser um dos selecionados. Em posição, esticou a mão e, de sutileza quase perceptível, girou a barra de madeira que, após várias voltas imprecisas, teve sua parada em dois perfis por certo peculiares.

Um deles, um homem jovem (o único à mesa) de pele, olhos e cabelos morenos e ralos. Seu sotaque, ouvido de outras ocasiões, era de um ex-caubói do profundo interior – razão possível pela qual integrava o grupo dos Jogadores, que há anos cismava em receber gente desses fatores, alegando ser o deles o melhor Jogo de cintura e senso de humor.

A outra, uma mulher – também a única à mesa. De aspecto pesado e levemente viril, ondulava cachos de um cabelo castanho vítima da gravidade enquanto simulava um sorriso tão amarelo quanto os raios solares ao encontro de uma loira. Diferentemente do escolhido anterior, seu senso de humor era claramente variável e ainda mais autêntico.

Contudo, de volta à competição em rixas, os oito desclassificados já se dirigiam a outra mesa vizinha da Jogadora - alguns cambaleando alegres, outros saltitando alegres. Enquanto se ajeitavam confortavelmente, os dois pré-candidatos se preparavam à próxima fase.

Porventura treinado, uma espécie de garçom – ou mesmo escravo, resgatado do século dezenove pelo poder absoluto do Partido dos Jogadores – trazia à mesa de rivais descontentes dois tabuleiros interativos para a realização da segunda e decisiva etapa: uma batalha do mais prezado “Cara a Cara – Congresso”.

A postos, o jovem e a mulher se muniam de fichas que continham suas personalidades a serem descobertas, e iniciavam o conflito.

“É corrupto?”, perguntava o pré-candidato em seu sotaque, e recebia de imediato uma resposta positiva de sua adversária. A essa afirmação, o pré-candidato já abaixava apenas duas de suas vinte e quatro personalidades à berlinda.

“É corrupto?”, replicou a candidata, na certeza de estar cortando o mal pela raiz. À resposta afirmativa, abaixou, também, apenas dois de seus vários amigos impressos no jogo.

“É a favor das drogas?”, perguntou o candidato.

“Não”, o desgosto na voz da candidata era claro. Perderia mais rápido com essa pergunta. De fato, o candidato sorriu e abaixou, agora de vinte e duas peças, mais nove. Estava muito mais perto de descobrir a ficha da adversária, portanto. Era a vez da candidata.

“Dá festas nos fins de semana?”, ela achou válida a pergunta, talvez lhe arrecadasse mais algumas peças.

“Sim,” respondeu o candidato, emocionado, “em quase todos”. A candidata abaixou apenas cinco de suas vinte e duas peças, e agora os adversários se enfrentavam num conflito de dezessete a treze peças.

“Tem hectares ilícitos?”, o candidato sabia jogar. Porém, a candidata afirmou com a cabeça, enquanto ele abaixava mais quatro de seu tabuleiro. A disputa seguia de dezessete a nove.

“É líder de distribuição de renda aqui nas internas?”, a candidata arriscou a pergunta. Se sim, recuperaria o jogo quase perdido. Se não, poderia perder. Mas a resposta do adversário foi um “Sim” arrastado em seu sotaque, e a candidata já abaixava onze peças, sorridente, virando o jogo.

“Os filhos estudam no exterior?”, o candidato perguntou e candidata respondeu “Sim”. Abaixadas as peças, os dois estavam pertíssimo de descobrir um a ficha do outro, estando seis para a candidata e cinco para seu adversário.

“Já foi Presidente?”, numa jogada de pura sorte, o triunfo era, mais uma vez, das mulheres. Em suas seis peças, apenas um teria sido presidente, e a resposta do candidato apenas confirmou sua vitória.

“Já”, e o jogo estava encerrado. A candidata, de novo com seu sorriso amarelaço de dentes, se levantava da cadeira num pulo e abraçava todos os presentes. O derrotado, recluso, não sabia se comemorava a vitória da outra ou a sua derrota, e no que não conseguia decidir, preferira permanecer sentado pelo tempo que lhe fosse concebido.

Enfim, o Processo estava completo, e o Partido dos Jogadores já contava com sua candidata, os representando honrosamente nas eleições agora tão próximas. Sem demorar, os fotógrafos já entravam na sala, até então exclusiva aos pré-candidatos, para a sessão de fotos de divulgação à imprensa, anunciando finalmente a futura mulher do povo. Num canto, eram todas as câmeras e microfones voltados à ela, desconcertada e quiçá preparada, simulando sua situação.

Entre sorrisos e flashes, e informações que perdurariam secretas apenas àqueles na sala, estava escolhida a nova Presidente. E, aflita, ela prometia a si mesma reger o país com tanto esforço quanto o que fora necessário para vencer as duas Etapas de seleção ao cargo mais decisivo de sua vida.