25 de janeiro de 2011

Itinerário de Edições

Fugiu. Ele fugiu sem ambições ou remorsos ou pensamentos enquanto corria altivo ao ponto de ônibus, apesar de ter fixo no semicerrar de seus olhos o destino previsto. Pela primeira vez ele se encontrava no lugar mais sucinto de sua história sem um destino qualquer planejado, tendo em mente a imposição de que o traçar de planos ao ponto de ônibus seria o último em sua vida. Deixara em casa nada material, a não ser que viessem a achar palpável seu fantasma ali vívido de outros tempos. Remoto como só e agora também avulso, peneirava suas amizades e pesava seus sonhos na corrida contra o vento. E é de sempre que sonhadores rebuscam alto seus destinos até que a gravidade tenha tato falho a puxá-los para baixo quando os percebe flutuantes.

A correria agora era portanto de moços e moças esbarráveis no majestoso ponto de ônibus lotado. Joel fugitivo peregrinava perdido por entre rostos e não conseguia decidir-se em que rumo tomar. Discorreu então sobre a possibilidade fatídica porém incontestavelmente conveniente de pegar o primeiro ônibus que viesse, com as primeiras pessoas que entrassem e os acontecimentos primeiros que sucedessem. E lá vinha o ônibus lotado.

Juntava-se então à fila métrica de gado a rebanhar em bancos ambulantes, tendo em mente seu pensamento auto-subordinativo de que este seria seu veículo. Perderia peso e peneiragem ao esperar, mas tinha para si que seria uma das exigências de sua aventureira viagem. Embicava sonhos e horrores à entrada luminosa do ônibus e mal conseguia manobrar a mochila pesada por entre os passageiros. Pagou ao cobrador da escada de entrada num estica-empurra indigno de sua atenção enquanto se espremia na comunhão forçada e evasiva.

Joel pensaria estar em um hospital se este não andasse. Além de sua aparência, talvez simbolicamente o fosse pelas várias pessoas de vidas, amores e razões diferentes que se aglomeravam pela falta de instrução primária e buscavam a cura em conjunto. Ele não poderia deixar de se parabenizar por escolher esta específica cura, e não podia parar de olhar fundo nos olhos de cada pára-quedista no ônibus. E a freada do motorista foi tão brusca que fez com que todos xingassem alto numa rebelião controlada e por tempo marcada. Por fim, resolveu que teria que conhecer a si mesmo para então desvendar entornos inacessíveis aos pobres de espírito. O foco de Joel recaía de exatidão neste ponto ao qual ele insistia em se desfocar: era pobre de espírito e teria que se consertar.

Admitia com dor no coração que seus anos foram por todo vividos em conveniência. Teria vivido consigo em seus desejos reais apenas em subconsciência por todo o tempo, de resto aos outros se mostrava como se pronto a agradar o mundo. Tentou-se pelo mais fácil e até hoje não havia comparecido a nenhuma superlotação fugitiva. Estaria preocupando aos familiares em casa e aos colegas melhores amigos com seu desaparecimento, e não se importava. Teria que reconciliar-se com Joel fugitivo.

Como se não fosse pouco sua imposição social, mais do que estar em casa temia ser sua casa, cheia de objetos e pessoas suntuosas pouco válidas. Temia ainda mais ser os lugares pelos quais passava por freqüentador assíduo, e matava-se de medo de ser como a personificação desse levantado de muros e praças. Por isso fugia. Longe não saberia como se comportar e cederia ao natural do seu eu, e esperaria.

Fugia. Ele fugia e não fazia idéia para onde. Sua mochila pesada ainda incomodava a paciente do hospital ambulante, submerso em má saúde, e ele não podia fazer nada. “Perdão, senhora”, Joel gaguejava vez ou outra quando percebia ser incômodo, e se sentia vazio cada vez que pensava não saber aonde estava indo. Ainda que o letreiro luminoso lhe indicasse claramente o destino a que o levava, Joel nunca teria ido a tal lugar em sua outra vida, e não poderia imaginar o que lhe aguardaria lá ou o que faria quando desembarcasse. As conseqüências eram difusas.

Os pontos subseqüentes da viagem passavam despercebidos pelas janelas devido à lotação e à má vontade do motorista de ajudar os passageiros que queriam ir para casa, fossem espremidos ou não. Joel se perguntava se algum deles teria o mesmo objetivo que o dele, de fugir para qualquer lugar que lhe fosse apresentado. Contudo, era difícil acreditar que qualquer um quisesse andar naquele ônibus. Truncava, chacoalhava e rangia a cada centímetro andado. Percebia apenas agora enquanto olhava pela janela que não conhecia meio palmo do itinerário descrito por seu salvador, e não teria certeza de que este lhe cabia como o correto.

Percebia apenas então que o único itinerário indigno de ser testado seria o de retorno para casa, afinal não tinha certeza de suas amizades aptas à lealdade ou do que estaria conseguindo absorver da vida enquanto absorto numa vivência constante e desfragmentada. Todos os outros, no entanto, poderiam ser editados em fugas cada vez mais recorrentes pelo Joel fugitivo. Editara tanto sua vida que lhe parecia simplório manusear rumos de antemão, e sempre que se sentisse infligido tomaria a atitude de mudá-los.

Então chegara ao ponto final onde eventualmente Joel fora deixado sozinho. Inconscientemente achou que fosse o ponto final, por estar noite e cansado. O ônibus, porém, era circular, e Joel já vinha deitado havia horas desde que todos os outros passageiros desceram às suas casas, abrindo espaço em cadeiras para ele, quando livremente absorto em sonhos, pensou ter parado e sido despejado do ônibus pelo ponto que não andaria mais.

“Te perdeu, amigo? Tá aqui faz horas”, o trocador tinha vindo do início ao fim do ônibus para a pergunta. Parecia preocupado.

Acordado e ainda ambulante, um Joel bêbado de gente olhou pela janela agora totalmente visível e depois ao trocador, e em frações de segundo respondeu enquanto sorria.

“Não. Estou fugindo.”

29 comentários:

Jac Bagis disse...

vc escreve muito! adorei o seu texto!

http://seenovidadeeuquero.blogspot.com

Karla Hack dos Santos disse...

Adoro como você consegue juntar a ambientação e o mundo interno da personagem de forma tão harmônica.

Bom final!

;D

ADMIN --- Rui Carlos disse...

Parabens pelo blog.
Soh axo ki faltou template.

dah uma olhada no meu, http://www.maniacosvirtual.com/

Lucas disse...

Como sempre, texto excelente.
parabéns

Millena Blogueira disse...

Excelente!As vezes nos dá vontade de fugirmos sem rumo, sem destinado, sem pensar em nada e nem em ninguém.

Letícia disse...

Que legal o texto... escreve muito bem....
e o Blog tbm é bem legal....

e não se esqueça... sem calotes é o que há
http://leticiaturtle.wordpress.com

Adilson Guimarães disse...

Fugir é a reação imediata de quem já se perdeu por alguma parte do caminho.

William disse...

Pitoresca sua descrição nesse itinerário.
Tá uma espécie de Lost in Space, nos asfaltos da cidade grande.
Abraço

Débora disse...

Ótimo, muito bem escrita e descrita essa fuga.
Adorei o final!
"peregrinava perdido por entre os rosto"... muito bom!
Te senguindo!

Os Confundidos disse...

Faz algum tempo que estivemos aqui, e percebemos que o blog mudou um pouco... Parabéns! ficou muito legal.
E o melhor sempre atualizado!

Abraços!

Guilherme_Arconexo disse...

Interessante o modo como você descreveu essa cena...Gostei. Parabéns


http://nadaaverpontocom.blogspot.com

Duo Postal disse...

Às vezes na vida é bom pegar um ônibus e fugir pra bem longe. O problema é saber definitivamente para onde está indo.

http://duo-postal.blogspot.com

Barbara Nonato disse...

O curioso é que nesse ônibus ou hospital ambulante, onde Joel buscava curar suas dores, apesar de rodeado e amontoado de pessoas, ele estava mais sozinho que nunca; tamanha a desilusão da fuga.Consegui sentir o desamparo sôfrego dele daqui...
Mais uma narrativa sensacional, João!

Débora disse...

A pergunta que fica é de quem Joel fugia? De si mesmo, dos outros?
Da vida? da sociedade?
Ele queria perder-se na multidão, sem destino...minha interpretação...gosto disso!
Comentando pela segunda vez de tanto que gostei!rsrs

Victor Von Serran disse...

as vezes tudo que quero é fugir como teu personagem !


http://universovonserran.blogspot.com

twitter@vonserran

Marcel Camp disse...

NOSSA, SENTI O "PESO" DESSE TEXTO!!!

OU MELHOR, SENTI A AMARGURA DESSE PERSONAGEM E A SOLIDÃO QUE O ACOMPANHAVA...

...PERCEBE-SE QUE COMO "GADO" - como vc bem salientou - JOEL É MAIS UM NAQUELA ROTA, MAS NÃO SERÁ MAIS UM NO DESTINO FINAL!

É UM HOMEM QUE PARECE CANSADO DA ROTINA, DA VIDA OU DA SOCIEDADE QUE O MERGULHOU EM DEPRESSÕES OU QUE ELA MESMA TENHA SE MERGULHADO EM BANALIDADES.

A FUGA DE JOEL TALVEZ JAMAIS SEJA FÍSICA.. MAIS EMOCIONAL!

UMA NARRATIVA PESADA, CARA, MAS GOSTEI MESMO!!!

ABS,
.
.
www.vemaquinomeublog.blogspot.com (Diariamente, um post diferente!)
.
.

Nathacha disse...

è lindo o modo como vc torna algo tão corriqueiro e simples em algo tão rico e belo!
http://www.medicinepractises.blogspot.com/

felipe disse...

Curti o texto, consegues escrever de forma única ^^

Tom Coyot disse...

oh!

Danilo Moreira disse...

Olá!!

Prazer em conhecer o seu blog e o seu trabalho.

Confesso que torci um pouco o nariz quando percebi a densidade do texto, mas a narrativa bem descritiva, sensivel e cativante me prenderam a atenção de tal forma que quando dei por mim já havia terminado de ler.

Talvez porque me identifiquei com este garoto. Ja quis fugir inumeras vezes, do mundo, de tudo, dos outros, de mim mesmo, dos meus erros, das minhas culpas, etc.
Felizmente, a maior fuga que ja tive foi apenas no descarrego palavras no papel.

Ironicamente, este é o segundo texto que leio que se passa num ônibus. To começando a ficar com medo disso...rsrs

Pretendo voltar aqui.

Um abraço!

Danilo Moreira
http://blogpontotres.blogspot.com/

Victor Von Serran disse...

o joel é uma figura ilustrativa ?

fugir,fugir,fugir.....

http://universovonserran.blogspot.com/ o dia do cavaleiro
Te espero lá no meu blog !!!!

Paulo Cheng (Rico) disse...

Dizer que vc escreve bem é chover no molhado. Então só engrosso o filão dos admiradores deste blog. Parabéns, ótimos textos.

JannA disse...

"peneirava suas amizades e pesava seus sonhos na corrida contra o vento"

Fantástico!!!!!

O texto é absurdamente bem escrito e tem em sí, um aspecto q pouquíssimos escritores conseguem, q é fazer com q não importa por quem sejá lido, o texto sempre vai falar ao coração do leitor, seja em uma estrofe ou em todo o contesto, as palavras vão de encontro ao coração como flexas!

muito bom, muito bom mesmo!!!

e eu, como o Joel, estou fugindo, mas eu, para dentro de mim! cada vez mais...

Carla Perdigão disse...

Putz...era isso que eu precisava ler.
Parabéns!
...Virei seguidora!

www.umequadordesaudades.blogspot.com

Harah Nahuz disse...

O que me ocorre a ler esse texto,é que a trilha sonora para ele,seria "There is a light that never goes out",do The Smiths...que fala também sobre sair ,sem rumo,sem casa,sem volta.
E no mais,endosso todos os outros comentários ^^

Truco ladrão disse...

carai veei
tu escreve mto beem Oo

parabéns ae
blogs como esse são raros hj em dia haha ;D

to te seguindo ...
se puder seguir tb meu blog, comentar la
será uma boa parceria dae hiuehueai'
vlwws
abraas e sucesso ae o//

http://trucoladrao.blogspot.com/
http://trucoladrao.blogspot.com/
Londrina- PR

Macaco Pipi disse...

eu vi meus amigos ae
HEHAE

Juliana G.N. disse...

muito legal o texto, o final me agradou muito msm.

parabéns!

http://www.nossaestante-br.blogspot.com/

Mister Araujo disse...

Cuurti o templante e o blog
seguindo tbm
segue ae?
http://misteraraujo.blogspot.com/