1 de janeiro de 2011

Reunião do Partido dos Jogadores

À mesa, dez candidatos.

A mesa, redonda a receber um círculo de opções futuramente governamentais, resplandecia uma imensa estrela vermelha impressa em seu centro com as iniciais “PJ”, em letra branca, devidamente inscritas, e um utensílio (provável que fosse de cozinha) em madeira anteriormente polida, para que girasse com facilidade por toda a estrela.

À volta, os dez pré-selecionados se encaravam em apreensão tranqüila, cada um com um olhar distinto e revelador de suposições apenas mal-fundamentadas. Quisessem ser escolhidos ou não, estariam à prova do Processo de Seleção Oficial da Candidatura Presidencial do tão estimado (pelo menos, aos tempos em que os sentados não almejavam o cargo) Partido dos Jogadores.

O comandante, agora levantado de um pseudo-trono a pouca distância da mesa Jogadora, de pé a rondava de forma a que, quando finalmente girasse o aparato de carvalho que apontaria duas cobaias dentre as dez presentes, não pudesse ser um dos selecionados. Em posição, esticou a mão e, de sutileza quase perceptível, girou a barra de madeira que, após várias voltas imprecisas, teve sua parada em dois perfis por certo peculiares.

Um deles, um homem jovem (o único à mesa) de pele, olhos e cabelos morenos e ralos. Seu sotaque, ouvido de outras ocasiões, era de um ex-caubói do profundo interior – razão possível pela qual integrava o grupo dos Jogadores, que há anos cismava em receber gente desses fatores, alegando ser o deles o melhor Jogo de cintura e senso de humor.

A outra, uma mulher – também a única à mesa. De aspecto pesado e levemente viril, ondulava cachos de um cabelo castanho vítima da gravidade enquanto simulava um sorriso tão amarelo quanto os raios solares ao encontro de uma loira. Diferentemente do escolhido anterior, seu senso de humor era claramente variável e ainda mais autêntico.

Contudo, de volta à competição em rixas, os oito desclassificados já se dirigiam a outra mesa vizinha da Jogadora - alguns cambaleando alegres, outros saltitando alegres. Enquanto se ajeitavam confortavelmente, os dois pré-candidatos se preparavam à próxima fase.

Porventura treinado, uma espécie de garçom – ou mesmo escravo, resgatado do século dezenove pelo poder absoluto do Partido dos Jogadores – trazia à mesa de rivais descontentes dois tabuleiros interativos para a realização da segunda e decisiva etapa: uma batalha do mais prezado “Cara a Cara – Congresso”.

A postos, o jovem e a mulher se muniam de fichas que continham suas personalidades a serem descobertas, e iniciavam o conflito.

“É corrupto?”, perguntava o pré-candidato em seu sotaque, e recebia de imediato uma resposta positiva de sua adversária. A essa afirmação, o pré-candidato já abaixava apenas duas de suas vinte e quatro personalidades à berlinda.

“É corrupto?”, replicou a candidata, na certeza de estar cortando o mal pela raiz. À resposta afirmativa, abaixou, também, apenas dois de seus vários amigos impressos no jogo.

“É a favor das drogas?”, perguntou o candidato.

“Não”, o desgosto na voz da candidata era claro. Perderia mais rápido com essa pergunta. De fato, o candidato sorriu e abaixou, agora de vinte e duas peças, mais nove. Estava muito mais perto de descobrir a ficha da adversária, portanto. Era a vez da candidata.

“Dá festas nos fins de semana?”, ela achou válida a pergunta, talvez lhe arrecadasse mais algumas peças.

“Sim,” respondeu o candidato, emocionado, “em quase todos”. A candidata abaixou apenas cinco de suas vinte e duas peças, e agora os adversários se enfrentavam num conflito de dezessete a treze peças.

“Tem hectares ilícitos?”, o candidato sabia jogar. Porém, a candidata afirmou com a cabeça, enquanto ele abaixava mais quatro de seu tabuleiro. A disputa seguia de dezessete a nove.

“É líder de distribuição de renda aqui nas internas?”, a candidata arriscou a pergunta. Se sim, recuperaria o jogo quase perdido. Se não, poderia perder. Mas a resposta do adversário foi um “Sim” arrastado em seu sotaque, e a candidata já abaixava onze peças, sorridente, virando o jogo.

“Os filhos estudam no exterior?”, o candidato perguntou e candidata respondeu “Sim”. Abaixadas as peças, os dois estavam pertíssimo de descobrir um a ficha do outro, estando seis para a candidata e cinco para seu adversário.

“Já foi Presidente?”, numa jogada de pura sorte, o triunfo era, mais uma vez, das mulheres. Em suas seis peças, apenas um teria sido presidente, e a resposta do candidato apenas confirmou sua vitória.

“Já”, e o jogo estava encerrado. A candidata, de novo com seu sorriso amarelaço de dentes, se levantava da cadeira num pulo e abraçava todos os presentes. O derrotado, recluso, não sabia se comemorava a vitória da outra ou a sua derrota, e no que não conseguia decidir, preferira permanecer sentado pelo tempo que lhe fosse concebido.

Enfim, o Processo estava completo, e o Partido dos Jogadores já contava com sua candidata, os representando honrosamente nas eleições agora tão próximas. Sem demorar, os fotógrafos já entravam na sala, até então exclusiva aos pré-candidatos, para a sessão de fotos de divulgação à imprensa, anunciando finalmente a futura mulher do povo. Num canto, eram todas as câmeras e microfones voltados à ela, desconcertada e quiçá preparada, simulando sua situação.

Entre sorrisos e flashes, e informações que perdurariam secretas apenas àqueles na sala, estava escolhida a nova Presidente. E, aflita, ela prometia a si mesma reger o país com tanto esforço quanto o que fora necessário para vencer as duas Etapas de seleção ao cargo mais decisivo de sua vida.

35 comentários:

Anônimo disse...

João, sério, agora que finalmente li esse texto, simplesmente não posso acreditar que se trate do mesmo que você me enviou, a uns dias atrás, dizendo: "vê o que você acha, não sei se vou postar no blog, tem alguma coisa de errado com ele". Meu Deus, você só podia estar brincando, né? Fala sério, é um dos textos mais brilhantes que eu já li! A ironia está fantástica! A ideia, excelente! Mal posso acreditar que foi escrito pelo meu amigo de apenas 15 anos! Sério, de verdade, sempre fui fã dos seus textos, você sabe.. Mas esse me surpreendeu, adorei mesmo! Parabéns João, realmente você ainda vai chegar longe escrevendo assim.
Julia Vital.

Anônimo disse...

Ah, e qualquer relação com a Dilma não é mera coincidência, certo ? (:
Julia Vital.

Victor Von Serran disse...

A ironia se torna um traço marcante em vc !

Bom texto proximo a posse de dona Dilma Russef...

sumiu velho...vai lá que tem postagem nova !
abraço.


http://universovonserran.blogspot.com
blog premiado e indicado pelo jornal Destak
Especial de ano novo - Ao caminhar na tempestade
Sigo e comento quem seguir e comentar !

luciano disse...

IDEM EM TODOS OS COMENTARIOS ACIMA,
MUITO COM MEU CARO....

Preguiça alheia disse...

Gostei muito do texto.. parabens.

Vc escreve muito bem!

Gabriel disse...

Os seus textos estão ficando cada vez mais brilhantes e muto bem escritos ... parabéns e continue assim xD

Victor Bertão disse...

Não acredito se tratar de uma ironia, como alguns afirmam, mas uma analogia direta e perfeitamente escrita sobre a situação atual da política de nosso país.

Parabéns pelo texto.

Se puder, me visite.

Kiko Lemos disse...

Realmente seus textos estão ficando melhores a cada dia, como descrito por Victor Bertão tbm ñ vejo como ironia, mas uma analogia sobre a situação politica que vivemos.

Parabéns e ótimo 2011

Lucas Quaresma disse...

palmas para você, um dos melhores textos que eu já li, opinião forte! muito bom, continue assim !

http://sevocecair.blogspot.com/

30 e poucos anos. disse...

Muito boa a idéia do cara a cara ... o texto ficou muito bom

Claro que não é nossa Dilma e nem é no Brasil !!!!
;)

Barbara Nonato disse...

E porque não considerar como um misto de analogia e ironia, resultando nessa colocação perfeita?
A escrita metafórica faz de todo texto algo mais rico e misterioso... Talvez este não guarde somente um conteúdo político.

Daniel disse...

Não tem um resuminho não?

Raoni Piagem disse...

Legal

Ponto de Vista disse...

Blog muito bacana.. textos legais e criativos.

Parabens!

www.assimdeveser.blogspot.com

Micael araújo Andrade disse...

A vida é um jogo, e aos puritanos resta apenas o marasmo de sempre!
apenas torço a favor deste governo, pois se ele for mal quem paga somos nós!!
A ilusão de achar que um outro governo seria é tola e mostra a falta de memória da nação brasileira!

Abraço!

Marcus Alencar disse...

O que mais amo em comunicação é certamente essa rica possibilidade de podermos brincar com as palavras de forma criativa. E, pelo visito, você fez isso muito bem, meus Parabéns por saber ser criativo, irônico e inteligente.

Caio A. disse...

Boa ironia,Ótimo blog!!
Você escreve muito bem!!

piadasemcheio.blogspot.com

bia santos disse...

Na verdade não é uma 'indireta' e sim uma 'direta'.

"Para quem sabe ler, o pingo é letra"

A política nada mais é do que um jogo sujo. Parabéns!

Victor Pagani disse...

Ótimo texto. Se superou! rs Parabéns

[]'s

Mister Neurotic disse...

Demorei para entender no começo. Fiquei entre políticos e enxadristas, mas depois entendi a ideia. Muito bom e sarcástico. Penso coisas parecidas contigo quando se trata dessa "corja", desculpe a palavra, de pessoas que zombam todos os dias do país inteiro quando roubam do povo trabalhador.

LADY D. A. disse...

Nossa que medo, foi muito bem escrito

enricows disse...

Gostei muito da maneira que você usou a ironia para descrever um situação importante!
Parabéns pela sua criatividade!
Um abraço!
Bom ano!

Comente no meu blog também:
http://enricows.blogspot.com/

Aprendiz disse...

Putz...escrevi um comentário, mas acho que deu erro na hora de publicar.

De qqer forma, a ironia do seu texto é maravilhoso!

Parabéns!

Diego - Os Cara é Foda... disse...

É mesmo é dahora o jeito que você "tira um barato" escrevendo, que nem o Cumpadi Uóxito diz: "Goshtei Mutcho!"

Darkblog disse...

Também acho que qualquer relação com a Dilma não é mera coincidência.

Eduardo disse...

li seus textos, são muitos bons , principalmente reunião dos partidos dos jogadores.
até mais...

Clube do Filme disse...

Bem escrito e criativo..

O curioso é saber o que os brasileiros dão valor!..

William disse...

Cara,
Você está se superando a cada postagem. Muito bem sacada a história e o título da postagem.
A coisa tá muito complicada mesmo e tem gente aplaudindo!!!
Fui........
Abraço

Henrique Alvez disse...

Começo a ficar sem o que falar diante dos seus textos
Esse "cara a cara - congresso" foi uma idéia de mestre pra realizar crítica. Sempre percebi que você tem uma posição bem forte nesse assunto e cada vez posso sentir seus textos mais engajados com tudo o que anda acontecendo.

Ah, obrigado pelo selo ;D
Ando que você tem toneladas deles hahaha

abraço.

Roselane disse...

excelente João, a idéia foi brilhante,o partido adotado para dizer o que sente sem cair no lugar comum.....PARABÉNS

Maria disse...

Muito legal ^^

trollagemvirtual.blogspot.com

seguindo

Lucas disse...

Texto simplesmente incrível, com uma ironia fantástica!
Parabéns pelo blog! Muito massa!
Por: http://quaddronegro.blogspot.com/

Macaco Pipi disse...

É O ANIMALESCO QUERENDO VENCER!

M!sunderstood disse...

Gostei muito do seu texto, ficou bem simples, porém completamente espetacular.

Eu não me dou ao luxo de falar sobre política, mesmo porque não me ligo muito com essas coisas, mas acho bacana quem escreve a respeito e dá sua opinião.

Um beijo, M!sunderstood

Débora disse...

Gostei do paralelo com o jogo...só gostaria que eles fossem tão sinceros e honesto como neste jogo.
E realmente se empenhassem se vencedores.
Muito bem escrito, como todos os seus texto!