8 de fevereiro de 2011

A Vitrine da Loja de Animais

Nós estamos adotando. Apesar de tudo, aprendemos que da vida vamos tirar vários ensinamentos, e sofrimentos e pensamentos e discernimentos, e este último vinha sendo o mais doloroso de todos, indescritível em palavras. Basta dizer que não o desejo nem ao menos ao meu mais letal inimigo. Minha esposa Nina perdeu o nosso filhote recentemente e vínhamos estando em profunda depressão. Ela não é infértil ou tem quaisquer desses problemas que a impediriam de ser uma perfeita mãe, mas o baque foi tamanho que por ora adiaremos os problemas. Por ora nós estamos adotando.

Soube de um lugar inadiável a qual teríamos que prestar visita se estivéssemos com real vontade de adotar. E estamos, então viemos o quanto antes ao estabelecimento para saldar dúvidas e quem sabe não nos apaixonarmos por algum bebê. O lugar é inacreditavelmente acolhedor e simpático, me parece inclusive saudoso. Mas Nina não acha o mesmo. Desde que chegamos ela tem fechado a cara e reclamado em olhares o seu descontentamento com a fachada do lugar, sem contar que ao entrarmos a sua impressão foi ainda pior e só então ela começou a se mostrar preocupada em palavras. Mas não importa, não há motivo para a estranheza. A loja é linda.

Impressionei-me já na vitrine, é cautelosamente organizada e limpa. Os bebês têm cada um seu próprio espaço de exposição no vidro, e repito que a organização não poderia ter sido melhor feita. Os espaços são divididos por barras metálicas no degrau interior da vitrine e ali eles expunham nossos filhotes. Enquanto entrávamos parei Nina na vitrine para vermos os bebês. Eram todos mansos como o nosso teria sido se nós não o tivéssemos perdido, e também extremamente graciosos. Infelizmente as três graças fazendo seu espetáculo eram de raças miseravelmente opostas às nossas e seria impossível tê-los. Dois eram pretos, eu sou loiro e Nina morena, e ambos brancos. Seria demais antinatural. O terceiro era albino e pálido ao extremo a ponto em que talvez viesse inclusive a adoecer. Não seria bom para mim ou para Nina, já sofremos muito com a perda do nosso bebê e, como disse, por ora estamos adiando problemas. Então depois de mostrar a Nina a bela mas insatisfatória vitrine, finalmente entramos na loja com Nina me marcando com olhares.

O interior era ainda mais bonito. O centro da loja era circular descrevendo vitrines à volta por trás dos balcões de vendedores sorridentes, e eram tantos filhotes que eu e Nina nos perdemos por um instante. Ela parecia perdida em palavras e seu rosto expressava algo repulsivo, contudo apenas até eu puxá-la para perto das vitrines e tê-la a opinar comigo.

Chegamos a um canto onde todos os bebês eram brancos e carinhosos com os visitantes, inclusive com Nina que se mostrava impaciente. Estávamos apoiados nos balcões tão perto dos vidros que podíamos ver em detalhes o rosto de cada um. E então, como se reconhecesse em mim um pai, um deles loiro como eu veio em nossa direção e se pôs a cheirar o vidro com o rosto pressionado. Parecia súplice mas feliz, e olhei para Nina sorrindo enquanto ela me censurava a cara. “Isso é doentio, Miro”, ela disse, e não consegui entender seu argumento. Era lindo ver crianças felizes.

Fomos nos arrastando para o lado enquanto víamos mais e mais bebês, eu maravilhado. Era impossível que tivessem conseguido juntar tanta pureza em um só lugar. Na roda gigante em que íamos nos descrevendo pela loja, encontrei por duas vezes um bebê que remexia seu pote de papinha insistente e nunca tirava um pingo de comida de lá. Fiquei intrigado, o bebê deveria estar faminto à procura de subsistência e nem sequer o olhavam.

“Acho que aquele bebê está com fome”, falei a um vendedor próximo e absurdamente distraído.

“Perdão?”, óbvio, o ligeiro não ouvira.

“Aquele filhote”, apontei para o bebê que continuava colocando a mão no pote, “acho que está com fome.”

“Ah, sim”, o vendedor mexera em alguma coisa embaixo do balcão e tirara algumas balas que agora mastigava, “ele está de dieta, não vê que ele está um pouco gordo?”

Olhei mais uma vez atentamente o bebê e vi. Ele estava muito mais rechonchudo e redondo como se pronto a sair rolando do que todos os outros filhotes. De fato ele estava gordo. Quanta prepotência imaginar que deixariam o bebê com fome quando zelavam pelo bem de sua saúde. “Claro”, respondi ao vendedor que acenou, e ao me adiantar para continuar a visita em círculos, fui puxado pelo braço. Era Nina.

“Quero ir embora”, ela parecia profundamente chateada.

“Mas por quê? O lugar é fantástico!”

“Você sabe que nunca gostei de lojas assim, Miro”, seus olhos cintilavam de decisão. Eu tinha certeza que sairíamos logo dali. “Falei que seria melhor se tivéssemos ido a um criador, você viu o que fizeram com aquele pobrezinho?”

“Que pobrezinho? Não têm pobrezinhos aqui, Nina, você não notou?”, sorri para ver se lhe arrancava alguma satisfação. Provavelmente ela estaria se referindo ao bebê gorducho. “Os bebês aqui são muito bem cuidados.”

O rosto de Nina se transformou de levemente enraivecido a altamente preocupado. “Os o quê?”, ela me perguntou. Nina estava agindo muito estranho, parecia em câmera lenta.

“Os bebês”, eu repeti. Ela se mostrou ainda mais aturdida, agora inclusive como se dividida entre se acalmar e se esbaldar. Sussurrou um quase inaudível “Vamos embora” e me puxou pela mão para cada vez mais perto da porta da loja. De vez em quando em suas viradas de rosto eu podia ver que seus olhos estavam marejados. Enfim saímos da loja e então Nina começou a chorar em imperceptível silêncio. Não entendi o porquê e me apressei a acalmá-la. Por ora estávamos adiando problemas, não podíamos ter mais problemas. “O que houve agora, amor?”

“É uma loja de animais, Miro...”, sua fala penetrou raso nos meus ouvidos e apenas depois de levantar minha cabeça, olhar para trás e perceber escrito acima da então belíssima vitrine as palavras “Mundo dos Animais – Cães, Gatos e Aves”, é que me dei conta do quão profundas suas palavras poderiam ter sido ou do estrago que elas me teriam feito. Larguei Nina por um segundo, e ainda olhando para a vitrine via os bebês de diferentes raças engatinhando em círculos e súplices enquanto pressionavam o rosto contra o vidro.

Céus, estou delirando.

39 comentários:

Vanessa disse...

Adorei a forma como você escreve...

Parabéns pelo blog...

http://blogcaixadesurpresas.blogspot.com/

Clube do Filme disse...

Muito bem escrito seu texto, eu fiquei confusa por algum tempo.. mas baseada nas reações imaginei o final..rs Abraço!

Juninho Nogueira | Esconderijo disse...

Cra, muito bom o texto, mesmo. O começo propositalmente confuso, e toda a ideia central de comparação. Muito bom esmo.

Dá uma passadinha lah no meu blog:

BLOG ESCONDERIJO. Jornalismo FDP, etecetaraital!
http://esconderijodojuninho.blogspot.com/

seuvicio disse...

Ampunheta.

Guilherme disse...

Bem acho que sou o 3 que ficou confuso aqui né..rs.. adorei o texto tbm com destaque na parte que vocês perderam seu bebê!

Parabens e abraços!

bia santos disse...

Apenas uma palavra que dizemos, pode mudar o rumo dos acontecimentos...

Filhotes são filhotes, mas também são bebês...

aderyannee disse...

tem um seliho pra ti no meu blog...

Thaís Guedes disse...

Adorei o jeito como vc escreve.
Muito bom o tezto.

estou lhe seguindo

http://devaneios-meeus.blogspot.com/

LADY D. A. disse...

O titulo do seu texto me lembrou que minha dog faleceu ontem, eu tinha ela desde os 11 anos , mas fikei feliz que ela morreu enkuanto eu estava em casa...

http://descansandoamente.blogspot.com/ disse...

Texto muito longo. Mas interessante.
Fato comprovado é que os internautas nao gostam de textos longos.
Mas parabéns pelo blog.

http://descansandoamente.blogspot.com/

MiguelDallas disse...

que texto perfeito! adorei!

você que escreve mesmo?
paraabéns!

também escrevo, me da sua opnião? de verdade ;D
http://parasempresp.blogspot.com/

abraço!

MiguelDallas disse...

que texto perfeito! adorei!

você que escreve mesmo?
paraabéns!

também escrevo, me da sua opnião? de verdade ;D
http://parasempresp.blogspot.com/

abraço!

KGeo disse...

adorei com vocÊ escreve o texto muito bom cara.

enricows disse...

Olá João,
Indiquei seu blog para receber um selo! Pegue-o aqui no meu blog:
http://enricows.blogspot.com/2011/02/selo-de-qualidade.html
Abraço!
enricows

Marcus disse...

Fera.
Pensei em repostar no meu blog se tu deixar :P

Marcel Camp disse...

Novamente, vc imerge a gente nas palavras, mesmo em textos longos que poderia "inibir" aquele leitor mais desacostumado...

...o início é bem intrincado, e vc domina tão bem a narrativa, que vc vai explorando os acontecimentos até que se abra o LEQUE de "linearidade".

Me lembrou, inclusive, algumas obras de Saramago que é exatamente assim, com início "complexo" que se delinea em momentos posteriores.

A perda do 'bebê' é forte.

Patrícia Ballare disse...

Hey gostei do seu comentário no meu blog!
Volte sempre!
Grande e bonito texto rsrsrsrs
=*

V¡ии¡¢¡µs ツ disse...

muito boom! continue postando assim! parabens pelo blog! acesse


Site da NET | Portal de Novidades

(By Rafaela Malon) disse...

Hum, escreve muito bem, sabe como usar as palavras.....Parabéns. Você escreve quais tipos de gêneros literários???

priscilinha13b disse...

realmente... é uma crueldade...

MikaelMoraes disse...

rapaz, eu jurava que vc estava escrevendo sobre uma experiência sua kkkk

parabéns kra, já disse q vc é fera

ahhh visite-nos, estamos com coisa nova lá. veja os vídeos novos... abç

http://mikaelmoraes.blogspot.com

Barbara Nonato disse...

Mais uma grande obra!

A duplicidade que você usou pra compor o texto foi intrigante e maravilhosa. Eu oscilava entre a dívida de ser uma loja de animais de fato ou um orfanato... Ora pensava uma coisa, ora pensava outra. Conseguiu me passar toda a confusão do personagem e eu viajei nela!...

fhpower disse...

MUito legal
fiquei confuso no incio kk
mas gostei

http://utilounaoutil.blogspot.com

Guilherme disse...

Ow joao esqueceu de comentar?
http://www.themen.cz.cc/

Marcus Rampani disse...

muito bom em cara !!!

http://futrockmma.blogspot.com/

Furdunço disse...

como mtas pessoas disseram,confesso que me perdi um pouco,mais reli e no final gostei bastante do que vi...bem maneiro

Karen disse...

Com certeza, se eu falasse que seu blog é muito lindo pra um homem, eu seria taxada como preconceituosa. Sendo assim, receba meus parabéns, pq adorei seu blog, suave, palavras intensas... ótimo de seguir! bjokas

Guilherme disse...

Adorei o texto, o jeito como você escreve me impressionou!Como a barbara disse : "Eu oscilava entre a dívida de ser uma loja de animais de fato ou um orfanato"

abraços ;)

Estude-me ! disse...

Uma narrativa tão incrível no início, que pensei que você iria contar algo vivênciado realmente por você. Muito bem escrito e elaborado, gostei muito, não somente do post como do seu blog no geral. Parabéns!

Barbara Cristine disse...

parabéns pelo blog, bemcomplexo!
muito legal o texto!
tem talento!

@Axcel09 disse...

Olá João, acho que vc me entendeu mal... Não te dei calote, só faço trocas de comentários pra ficar justo pra mim e pra vc, de que adianta eu ler o seu post, dizer o que penso pra depois vc ir lá e comentar algo do tipo: "Lindo blog" Assim não dá né? Comentário decente será retribuído com comentário decente. Seguindo aqui, e prometo manter contato sempre que comentar no meu blog ;)

Abraço.

Smoker Sam disse...

eh o cara acima estar com toda razão
nem vou comntar mas nada flw...

@leeh disse...

bom dms, estou aqui sem palavras até agora...


leehtiicia.blogspot.com

Samir . disse...

Oi João, não é a primeira vez que visito seu blog e como da outra vez, deparei-me com u mtexto muito bem redigido.

@Axcel09 disse...

É isso aí cara ;)
Não quero prejudicar ninguém nem ser prejudicado. Valeu!

Duo Postal disse...

Belo texto e uma bela história.

http://duo-postal.blogspot.com

Cris Mitsue disse...

Cara, gostei bastante da tua escrita. Escreves bem mesmo.

E confesso que a narrativa me prendeu do começo até o fim.

Beijão!

Ingrid Caroline disse...

mto mto mto lindo o texto , li com atençao pra entender

BrunaVilanova disse...

texto super aconchegante... os cenários, os diálogos. ideia brilhante com personagens com mentes confusas ! maravilhoso