2 de março de 2011

A Traficante e o Traficado

Gislane não sabe o que faz do pobre espírito. Está agora de pé em seu trabalho prestes a vender quatro unidades de TicTac a um cliente hippie adepto de dreadlocks fumados, e do pior que viria a acontecer, está ciente disso. “Qual vai ser o sabor?”, ela pergunta e o maluco responde em sussurros que era chegado num Heroísmo eventual e numa Coca por sobrevivência, então dois de cada lhe serviriam, e Gislane receosa de problemas hesita, mas acaba por vender os pacotes e “Deus salve essa alma e que ele continue a comprar comigo”, ela pensa.

O sujeito agora saía da banca envergonhado e com uma ligeira dor de barriga de quem faz algo errado, após ter recebido da dona da venda os pacotes e só os ter aceitado depois que uma senhora terminou de escolher seu livro de receitas e se mandou dali, para não passar mais vergonha. Sentou-se ali mesmo no banco vizinho, puxou seu fósforo falho mas servil e acendeu sem pudores a primeira caixa, esta repleta de heróis, e embora envergonhadíssimo pensou que ninguém por ali lhe diria para fazer o contrário, afinal seria como se não soubessem todos daquela área que Dona Gislane acabara de abrir seu negócio de TicTacs disfarçado de banca de jornal. Não iriam lhe denunciar, e ainda que tivessem esta intenção, sua vontade de consumir beirava ser autoabusiva.

Gislane, no entanto, de dentro da banca enquanto vendia a mais um tictacteiro herói ou acocalhado, embora este mais normal e mais discreto, viu o drama do hippie afora e pôs-se a correr e a severamente adverti-lo. “Não tá vendo o posto policial logo em cima aqui, homem? Guarda esse teu brinquedo fora antes que falam, Sand!”, ela falava em quase berros enquanto Sanderson, o hippie, apenas expunha em câmera lenta seus argumentos de que ninguém os denunciaria e de que os policiais sozinhos não perceberiam nada. “Guarda!”, gritou de novo Gislane e atraiu o pior. Dois guardas que passeavam na rua acima atenderam ao chamado com urgência e logo estavam abaixo em companhia de Dona Gi e Sand, perguntando sobre qual teria sido a ocorrência.

E pronta Dona Gi se adiantou a explicar que Sand havia apenas comprado umas TicTacs em seu estabelecimento e distraído havia esquecido de pegar seu troco. Ela vinha correndo atrás dele para lhe devolver o seu dinheiro quando eles, guardas, de prontidão atenderam ao seu alarme falso. Alarme verídico entretanto aconteceu à menção da palavra “TicTac”, ao ouvi-la os dois policiais se puseram a relaxar os músculos e ir desaparecendo novamente pela rua acima, e os guardas iam sumindo entre sorrisos e cerimônias quando no ímpeto mais súbito da lembrança, Gislane reconheceu um deles – “sim, o que forçara o outro a se afastar”, ela pensava – como a um de seus compradores.

Maravilha. O policial robusto e autoritário como era devia gozar de usufrutos suficientes para fazer uma pequena grande divulgação passiva, necessária para o reconhecimento em escala municipal do estabelecimento de Gislane. Iria mandar notas ao maior jornal do país para que ela, Dona Gi, pudesse à noite estar sentada em seu sofá lendo o jornal roubado de sua própria banca depois de um ordinário dia de trabalho e ver a notícia com a seguinte manchete, “TicTac da Dona Gi na Cidade Alta é sucesso absoluto”, e a legenda, “Policiais, hippies e ordinários aproveitam o novo estabelecimento.” A notícia poderia também sair na televisão se o policial assim quisesse, afinal emissoras adoram noticiar fatos.

Dona Gi agora sorria a um Sanderson maculado e infantil, que por sinal deixara de ser um estorvo e se tornara inclusive o pontapé alavancado para o início e decorrer brilhante deste novo e insubordinado sistema tictacteiro nacional.

30 comentários:

Juliane Bastos disse...

Que forte :O
Gostei da maneira que usou as palavras, certamente atingiu minha falta de pensar nos outros.

Dono BAJ Séries disse...

muito bom.



http://bajseries.blogspot.com/

Marcel L. disse...

Eu gostei,poderia virar um livro.

Os Embromation disse...

muito bom!!!

fhpower disse...

kkk
gostei da historinha
com oassim ela falou pros guardas que vendera uns tic tacs kjkkkk

http://utilounaoutil.blogspot.com

louanysensação disse...

huashuas bem entendido do assunto haha
gostei :p
http://louanysensacao.blogspot.com/

Yaser Yusuf disse...

Muito bom seu texto!
Parabéns pelo Blog!

Victor Von Serran disse...

Quem diria que alguns tic tacs iriam produzir essa epopéia de bairro..a colocação e a ironia mostram uma maturidade expoente dos seus textos.


Parabens pelo crescimento e pela criatividade sempre presente por aqui !

te espero lá...atualizei !
abraço
http://universovonserran.blogspot.com/ - Coração verde e amarelo

Anônimo disse...

"gostei da historinha" /\ HISTORINHA? hahahaha ¬¬ mereço né.
Adorei esse, muito bom! Além de ótimo texto é também uma ótima crítica aos policiais de hoje em dia né.
Parabéns, gostei mesmo.
Julia Vital.

[~] Sensei► disse...

texto bastante interessante e revelador.

http://deathecator.blogspot.com

Wellington disse...

Gostei do quinto parágrafo ainda mais pela parte da crítica satírica aos jornais! ^^

Mas o charme fica por conta da dona da banca que rouba a sí mesma o jornal da banca para ler em casa. hihihi.

Abraços!

http://neowellblog.wordpress.com/

Jefferson Reis disse...

Estou precisando de um Tic Tac, minha cabeça esta doendo. Será que essa Dona Gi me vende para eu pegar outro dia? Conheço outras pessoas que poderiam comprar dela também. Tem gente que não vive sem Tic Tac.

Alexandre disse...

Nossa vc escreve muuuuuito bem!
Parabens!+.

Dono BAJ Séries disse...

gostei

http://bajseries.blogspot.com/

José Cabrito disse...

adorei a dona gi, quem foi a sua inspiração para o texto? foi alguém do dia-a-dia ? bjs, josé cabrito, louvai deus!

Brasil HC disse...

você escrevi com elegância e forma muito natural fez essa história. parabéns

http://sobfoco.blogspot.com/

Bruno Matos disse...

Adorei o artigo *-*

www.nadapago.com

Eliude A. Santos disse...

Me lembrou o conto da velhinha contrabandista... excelente percepção e noção de estilo e língua!!! Parabéns!!!

J.R. disse...

Dona Gi muito fofa...ashahsh!!! Muito bom o seu post!!! Parabéns pelo blog.

Nanda Schober disse...

òtimo o texto...muito bom o seu blog...Logo mais voltarei para ler os outros post tbm
Beijos pra vc
http://missaobeleza.blogspot.com/

Alex Azevedo Dias disse...

Bem... TicTac é uma balinha saborosa que vem numa caixinha de plástico pequenina e que, ao ser balançada, faz esse famigerado som: TicTac... rsrs... Muito bacana!

Habib Sarquis disse...

Parabéns pelo blog e pelo bom conteúdo. Você sabe contar histórias. Continue assim.

http://boomnaweb.blogspot.com/

bia santos disse...

Tive que ler duas vezes, para ver se eu entendi direito...

Tic Tac é apenas tic tac...

Ou não?!

Duo Postal disse...

Um belo texto, me deixou um pouco confuso, mas é bem legal.

http://duo-postal.blogspot.com

Duo Postal disse...

Um belo texto, me deixou um pouco confuso, mas é bem legal.

http://duo-postal.blogspot.com

Rogerio disse...

muito legal a postagem;;;muito bem escrito...

Arianne Carla disse...

Uma maneira interessante de se ver uma vendedora de TicTac. E saber o gosto dele, não? Custei um pouco a entender algumas coisas, mas cheia de amor. Gostei (:

Camila . disse...

João, já estive aqui algumas vezes e sempre gosto do que encontro. Estou pretendendo fazer um post pro meu blog citando alguns blogs que fazem essa espécie de literatura digital, o seu é um ótimo exemplo disso.
Seria bom se pudessemos trocar umas palavras, por favor me mande um email: araujo0191@gmail.com

Camila . disse...

Enfim, voltei pra avisar que citei o seu blog no meu, numa postagem falando sobre Literatura Digital...Dá uma olhada, vc vai curtir, é bem interessante

Victor Von Serran disse...

Atualiza que to sempre voltando !

http://universovonserran.blogspot.com