15 de setembro de 2011

Sobre Garfos e Facas

À mesa sete estranhos. José o sétimo, assim como poderia ser o terceiro ou sexto, mas simpatizava com o número sete e portanto sétimo lhe cabia como contagem. José tinha um objetivo único à mesa e indispensável em qualquer hipótese: comer. Sabia que a comida estava bem ali a sua frente e sabia que teria de fazê-la desaparecer o quanto antes, afinal os estranhos de primeiro a sexto já o faziam. Tudo que José consegue enxergar, além dos seis estranhos que no momento se encontram desfocados por fazerem parte do célebre segundo plano do seu campo de visão, é o seu prato sujo de comida ainda intocada, o Garfo que escolhera e a Faca que não escolhera.

José detesta Facas e por isso nunca as escolhe. Nunca as quis por perto em mesas e portanto nunca as escolhia, escolhia apenas o seu Garfo. No entanto, por vezes lhe apareciam tipos em suas mesas a lembrar-lhe que se esquecera de pegar uma Faca e por si mesmos delicadamente lhe entregavam uma, esperando um sorriso de plena satisfação e agradecimento a espalhar por todo o rosto. Os episódios foram se tornando mais frequentes e enfim José decidira que pegaria as Facas sozinho: as pegaria às cegas e as colocaria ao lado do prato à mesa, como há de se fazer, e dali ela não sairia. A Faca que José encara nesta mesa de seis estranhos que ainda comem foi fruto de sua própria vontade obrigatória de pegar Facas.

Portanto José começara a comer. Com o Garfo. Com o Garfo ele consegue partir e pegar e empurrar e chutar e enrolar e espetar e cortar e colocar na boca e tocar à língua e saborear e ranger os dentes e engolir. Não se coloca Faca na boca pois ela não lhe permite intimidade – apenas Garfos. Enquanto come José olha à volta e percebe que todos os seis focados se utilizavam de Facas para comer. Mas nenhum deles abre mão de Garfos. Esta atitude não mostra respeito ao Garfo, mas desrespeito à Faca, pois a Faca é dispensável. José come apenas com o Garfo. No entanto, os estranhos estão muito na frente a acabar com a comida de seus pratos, embora isso se deva mais à demora de José para começar do que às Facas.

José come mais rápido pois a ideia é que todos acabem à mesma hora, e Garfos ou Facas a parte, o pacto da mesa não pode ser quebrado. Enquanto come rápido José pensa o porquê de ter pego tanta comida, e pensa sobre o quão detalhadamente egoísta é o pacto da mesa, uma vez que a escolha de começar é inteiramente própria, mas a necessidade de terminarem todos juntos é obrigatória, e não ao contrário, para evitar a demora alheia que ninguém conseguiria suportar, a não ser que sustentassem um belo sorriso feijoado no rosto. José já comeu metade do seu prato mas seu prato continua como um prato cheio.

O prato é interminável. Se o tempo conta, o prato há de se restaurar sete vezes, já que José é o sétimo estranho. Enquanto poderia ter sido o primeiro. José observa os seis pratos de migalhas apenas, e observa as migalhas e percebe que a ineficiência de uma Faca só se resolve à proposta de migalhas. Garfo nenhum é tão audaz com migalhas quanto Garfo e Faca juntos, embora José tenha certeza de que Faca seria mais ineficiente sozinha que Garfo, e por isso ele é mais essencialmente importante. Migalhas duram pouco e José precisava comer pelo pacto da mesa. Precisaria usar a Faca contra a sua vontade.

José a pegava de uma vez e a colocava no prato com Garfo e comida para comer, mas não era acostumado à Faca e não sabia modelar, tudo saía mais errado que apenas Garfo, nada cortava ou chutava como Garfo, nada parecia natural ou automático como comer de Garfo, não sabia usar Facas por nunca ter gostado de Facas, detesta cortes e Facas cortam a boca, não dá para levar Facas à boca. Faca insossa transforma comida em insossa, mas não o Garfo, que é mais forte. Não gostava de Facas por nunca ter aprendido a usá-las, Faca insossa transforma José insosso, Faca inadequada, Faca que espirala pelo prato fazendo graça, a biscate da refeição. José largou a Faca de volta ao seu lugar. Não terminara de comer, só espalhara mais a comida que agora transbordava pelos cantos do prato. À volta, todos os talhares cruzados indicavam falta de necessidade de uma Faca para se cruzar com um Garfo que não precisa cruzar: Garfos são únicos. José olhava no olho de cada estranho tentando conhece-los. Conheceu não pelos olhos que afinal eram estranhos, mas pelo cruzar característico de uma cultura de momento na qual o deboche impaciente faz questão de estar.

José levantou-se com o sorriso mais verde da alface que sempre detestou, mas comera por obrigação, assim como usara a Faca por obrigação, e expulsara-se da mesa sem uma palavra ao primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto ou sexto. Em vez de falar preferiu colocar seu prato cheio e frio no centro da mesa e carregar o Garfo consigo. A Faca largada seria acolhida pelos estranhos da mesa, embora ela os encarasse deslealmente como de costume, e José andaria longe e feliz com o Garfo entre os dentes.

3 comentários:

José Alencastro disse...

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Anônimo disse...

HAHA!!! ESSE PERSONAGEM EU CONHEÇO.......

Uvirgilio disse...

Depois de ler esse texto vou passar a ver as facas e garfos com outros olhos.