14 de dezembro de 2011

Rua Maria

Um passo nessa rua podia ser maior que outros três quaisquer, andados em qualquer lugar. A experiência do andar magnificava-se nesta rua: além dele, que andava, nada mais havia – além da rua. Parecia óbvio que, por passar todos os dias, santos ou não, naquela rua cheia de graça, ele aposentou-se da surpresa de vê-la passar por baixo de seus pés e, pelo contrário, ansiava diariamente por esse momento diário, embora não tivesse a mínima pretensão de qualificar todas as outras ruas pelas quais passava com o mesmo gosto. De verdade, nem sequer pensara em gostar das outras ruas, pois mal sabia que elas existiam, e por isso presenciava todos os dias a sensação de surpresa por passar em um lugar nunca antes conhecido pelo qual ele passava todos os dias.
         Esta rua era única. Tão esta e tão única que lhe dera um nome: rua Maria. Cheia de graça – pela qual ele esperava. Ele andava por Ela com o mesmo pavor gostoso de quem sabe estar fazendo errado, com cada essência do proibido batendo no peito para muito além do coração, para mais próximo do revirar o estômago. A experiência do viver magnificava-se nesta Rua: ele se sentia vivo e não morto ao viver esta Rua. Ele entendia a Rua e criava histórias para Ela. Contava a si mesmo que a Rua era assombrosa e, de noite, estupidamente perigosa – não pelos homens que assaltariam homens, mas pela própria benevolência da Rua que, apaixonada por si mesma, atacava qualquer um que nela pisasse. Contava a todos que a Rua era assombrosa e, de manhã, misteriosa – ninguém nunca faria ideia do quanto um raio de sol pode ofuscar acontecimentos. Não satisfeito, mandava pessoas contarem a outras pessoas que, para elas, a Rua era um assombro. “Um assombro de linda, nem feia nem comprida.”
        Com o tempo ele criou monumentos sobre a Rua para exibir em outras ruas, diminuindo-as. Com o tempo não suportava mais passar por outras ruas, sentia seus pés queimarem de angústia e, no entanto, não poderia igualá-las a Rua Maria, pois Rua Maria é esta e é única. Com muito tempo não poderia mais aguentar passar noites em claro de sua varanda a observar a Rua mais linda sustentar aquelas duas moças que vagavam pela madrugada com ares de Maria.
Tempo demais longe de Rua Maria se fez e ele não suportaria mais estar em outro lugar. Estando em outro lugar ele deixava de ser ele e, portanto, deixava de ser. Em busca da sobrevivência e, acima de tudo, por sua existência, ele haveria de ser. E para ser ele teria de estar na Rua Maria, sendo Rua Maria.
De mais em mais ele foi para a Rua com a ânsia no pescoço de nunca mais pisar em outro lugar, e ele agora é Rua Maria e Rua Maria é Rua Maria. 

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