22 de fevereiro de 2011

Descicatriz

A facada não transpassa. Pelo contrário, revira a pele
e sobrepõe-se inchada para o lado de fora
elevada ao mesmo comprimento da profundidade.

O corte não jorra. Em teses anti-realistas
suga o sangue para dentro na mesma medida
em que o expeliria se fosse tomado o rumo aceito.

O soco não afunda. O caminho que faria decrescente
na cartilagem retorna à crescência e incha os ossos do corpo,
embora o inchaço dos músculos recalque ao seu interior.

O tiro não mata. Mata em trilhamento inverso
quando se propõe a revigorar o sangue sugado,
a crescer em inchação óssea saudável e a nivelar a pele.

A cicatriz não marca. Inversa ao que se preparam os anti-cortes,
socos, tiros e facadas, seu resultado não é a marca irredimível,
mas o cair solitária do corpo, rindo de seu dono desmarcado.

A descicatriz marca. Marca tanto quanto facadas
não transpassam, cortes não jorram e tiros não matam
e socos não afundam e cicatrizes não marcam.

15 de fevereiro de 2011

Menina Abaixo e Menina Acima

Da janela a Menina Acima via o centro comercial detalhado abaixo, embora apenas visse. Não observava ou fitava como é comum a muitos a prática. Via por cima, do alto embaçado. Era em noite uma madrugada e acima de sua cabeça era tudo negro no momento como há horas havia sido azul escarlate, mas embaixo de seus pés além do chão no qual se sustentava ela podia ver a iluminação intensa e claramente irremissível que mesmo à distância irradiava definições de rostos reconhecíveis se conhecidos de antemão. Afinal chegara o grupo miseravelmente definível pelo qual ela esperara desde horas em que o céu ruminava azuis límpidos quando tomara a decisão de que precisaria reencontrá-los ainda que à distância. Como se ela estivesse à espera e na torcida inversamente natural ao que acontecia nos andares públicos abaixo, o que ansiava aconteceu em generalização de detalhes exatamente como ela havia suposto.

O grupo abaixo apertava o passo e desabotoava a calça enquanto seguiam a linda Menina Abaixo solitariamente independente do ciclo empresarial – “linda”, como a Menina Acima pensava, “apenas até este momento” – e lhe tiravam a beleza quando a calça já há muito tivesse caído. A Menina Acima de cima apenas via como as coisas haviam de acontecer e mesmo que conformadamente horrorizada, não se prestava a socorrer qualquer que viesse a ser o destino da linda – “linda”, como ela insistia em pensar, “apenas até este momento” – Menina Abaixo. Mais um amontoado de minutos facilmente contáveis pelo relógio silencioso mas atrativo da parede no canto ia passando lenta e rapidamente, dependia apenas para quem na cena, e o grupo sabotador de lindas continuava a cumprir tarefa usurpando da Menina Abaixo o linda de seu rótulo. Era admirável a facilidade com que drenavam sua pele e esquartejavam com os olhos, com as mãos e com todo o resto de seus corpos órgão por órgão da maravilhosa Menina Abaixo. Mais um amontoado de segundos dificilmente contáveis pelo relógio silencioso no canto da parede, pois o relógio não marcava segundos, ia passando agora animadamente de cem metros para baixo e indiferentemente de cem metros para cima. E o grupo eventualmente foi-se feliz e lindo pelo centro anoitecido.

A Menina Abaixo continuava pouco linda e perdendo sua beleza, afinal com certeza o grupo teria meios a que roubar inocências mesmo à distância, que a propósito teria sido a mesma distância de anteontem da Menina Acima, e um pouco mais da distância da Menina Acima de hoje. Neste momento ambas as meninas compartilhavam da mesma ternura arrombada, e entendam que deixaram de ser lindas. Ela Acima tinha certeza de que rótulos passavam fáceis pelos filtros, e Ela Abaixo de que o sorriso que achariam que ela iria carregar seria de veracidade apenas segundo a sociedade.

Não mataram a Menina Acima, o grupo, pois do chão ela ascendia, nem esfaquearam tampouco a vida da Menina Abaixo. Misericordiosos não roubam vidas, como o grupo teria sido às duas ex-lindas. Apenas lhes furtaram o brilho nos olhos pelos quais a ausência de cor não lhes permitia observar ou fitar, apenas ver. Agradecidas com ilustre generosidade, elas apenas não piscariam mais o brilho no olhar, e carregariam sozinhas os ex-rótulos de ex-beldades, afinal “lindas”, as Meninas Acima e Abaixo pensariam ad infinitum, “apenas até aquele momento abrilhantado.”

11 de fevereiro de 2011

Festejando Dé Preto

A festa aniquilava a todos os tipos de garotões e garotonas, tendo em mim um ponto de referência. A quadrilha se estendia periodicamente conforme as demais princesas iam chegando a engrandecer a dança, que logo teve em si um verdadeiro fuzuê. Também, foram as gingadas da dança que me levaram sóbrio à cozinha, onde encontrei as garrafas de bebidas duvidosamente azuis e alguns cilindros de erva ainda não acessos. Uma pena ter me portado como me portei, mas naturalmente à menção de utilizar os vícios, dei-me conta de que meu contrato na Boate me proibia de danos mentais e joguei um dos enrolados acessos em plena bebida aberta, antes que a labareda de chamas vivas se cauterizasse por cima de mim. No desespero, abortei-me de quaisquer medidas pensadas e comecei a jorrar a água da pia ao lado no fogo acesso, que logo veio a apagar. Infelizmente no acaso vim a queimar seriamente dois dedos, o que não me retornou muita culpa sincera, tendo em vista que nenhum dos dois compunham músculos importantes no meu corpo. Ainda assim, tomei a decisão de me consultar com algum médico da Corte, para ter a certeza de que nenhum tecido muscular se feriu no acidente.

8 de fevereiro de 2011

A Vitrine da Loja de Animais

Nós estamos adotando. Apesar de tudo, aprendemos que da vida vamos tirar vários ensinamentos, e sofrimentos e pensamentos e discernimentos, e este último vinha sendo o mais doloroso de todos, indescritível em palavras. Basta dizer que não o desejo nem ao menos ao meu mais letal inimigo. Minha esposa Nina perdeu o nosso filhote recentemente e vínhamos estando em profunda depressão. Ela não é infértil ou tem quaisquer desses problemas que a impediriam de ser uma perfeita mãe, mas o baque foi tamanho que por ora adiaremos os problemas. Por ora nós estamos adotando.

Soube de um lugar inadiável a qual teríamos que prestar visita se estivéssemos com real vontade de adotar. E estamos, então viemos o quanto antes ao estabelecimento para saldar dúvidas e quem sabe não nos apaixonarmos por algum bebê. O lugar é inacreditavelmente acolhedor e simpático, me parece inclusive saudoso. Mas Nina não acha o mesmo. Desde que chegamos ela tem fechado a cara e reclamado em olhares o seu descontentamento com a fachada do lugar, sem contar que ao entrarmos a sua impressão foi ainda pior e só então ela começou a se mostrar preocupada em palavras. Mas não importa, não há motivo para a estranheza. A loja é linda.

Impressionei-me já na vitrine, é cautelosamente organizada e limpa. Os bebês têm cada um seu próprio espaço de exposição no vidro, e repito que a organização não poderia ter sido melhor feita. Os espaços são divididos por barras metálicas no degrau interior da vitrine e ali eles expunham nossos filhotes. Enquanto entrávamos parei Nina na vitrine para vermos os bebês. Eram todos mansos como o nosso teria sido se nós não o tivéssemos perdido, e também extremamente graciosos. Infelizmente as três graças fazendo seu espetáculo eram de raças miseravelmente opostas às nossas e seria impossível tê-los. Dois eram pretos, eu sou loiro e Nina morena, e ambos brancos. Seria demais antinatural. O terceiro era albino e pálido ao extremo a ponto em que talvez viesse inclusive a adoecer. Não seria bom para mim ou para Nina, já sofremos muito com a perda do nosso bebê e, como disse, por ora estamos adiando problemas. Então depois de mostrar a Nina a bela mas insatisfatória vitrine, finalmente entramos na loja com Nina me marcando com olhares.

O interior era ainda mais bonito. O centro da loja era circular descrevendo vitrines à volta por trás dos balcões de vendedores sorridentes, e eram tantos filhotes que eu e Nina nos perdemos por um instante. Ela parecia perdida em palavras e seu rosto expressava algo repulsivo, contudo apenas até eu puxá-la para perto das vitrines e tê-la a opinar comigo.

Chegamos a um canto onde todos os bebês eram brancos e carinhosos com os visitantes, inclusive com Nina que se mostrava impaciente. Estávamos apoiados nos balcões tão perto dos vidros que podíamos ver em detalhes o rosto de cada um. E então, como se reconhecesse em mim um pai, um deles loiro como eu veio em nossa direção e se pôs a cheirar o vidro com o rosto pressionado. Parecia súplice mas feliz, e olhei para Nina sorrindo enquanto ela me censurava a cara. “Isso é doentio, Miro”, ela disse, e não consegui entender seu argumento. Era lindo ver crianças felizes.

Fomos nos arrastando para o lado enquanto víamos mais e mais bebês, eu maravilhado. Era impossível que tivessem conseguido juntar tanta pureza em um só lugar. Na roda gigante em que íamos nos descrevendo pela loja, encontrei por duas vezes um bebê que remexia seu pote de papinha insistente e nunca tirava um pingo de comida de lá. Fiquei intrigado, o bebê deveria estar faminto à procura de subsistência e nem sequer o olhavam.

“Acho que aquele bebê está com fome”, falei a um vendedor próximo e absurdamente distraído.

“Perdão?”, óbvio, o ligeiro não ouvira.

“Aquele filhote”, apontei para o bebê que continuava colocando a mão no pote, “acho que está com fome.”

“Ah, sim”, o vendedor mexera em alguma coisa embaixo do balcão e tirara algumas balas que agora mastigava, “ele está de dieta, não vê que ele está um pouco gordo?”

Olhei mais uma vez atentamente o bebê e vi. Ele estava muito mais rechonchudo e redondo como se pronto a sair rolando do que todos os outros filhotes. De fato ele estava gordo. Quanta prepotência imaginar que deixariam o bebê com fome quando zelavam pelo bem de sua saúde. “Claro”, respondi ao vendedor que acenou, e ao me adiantar para continuar a visita em círculos, fui puxado pelo braço. Era Nina.

“Quero ir embora”, ela parecia profundamente chateada.

“Mas por quê? O lugar é fantástico!”

“Você sabe que nunca gostei de lojas assim, Miro”, seus olhos cintilavam de decisão. Eu tinha certeza que sairíamos logo dali. “Falei que seria melhor se tivéssemos ido a um criador, você viu o que fizeram com aquele pobrezinho?”

“Que pobrezinho? Não têm pobrezinhos aqui, Nina, você não notou?”, sorri para ver se lhe arrancava alguma satisfação. Provavelmente ela estaria se referindo ao bebê gorducho. “Os bebês aqui são muito bem cuidados.”

O rosto de Nina se transformou de levemente enraivecido a altamente preocupado. “Os o quê?”, ela me perguntou. Nina estava agindo muito estranho, parecia em câmera lenta.

“Os bebês”, eu repeti. Ela se mostrou ainda mais aturdida, agora inclusive como se dividida entre se acalmar e se esbaldar. Sussurrou um quase inaudível “Vamos embora” e me puxou pela mão para cada vez mais perto da porta da loja. De vez em quando em suas viradas de rosto eu podia ver que seus olhos estavam marejados. Enfim saímos da loja e então Nina começou a chorar em imperceptível silêncio. Não entendi o porquê e me apressei a acalmá-la. Por ora estávamos adiando problemas, não podíamos ter mais problemas. “O que houve agora, amor?”

“É uma loja de animais, Miro...”, sua fala penetrou raso nos meus ouvidos e apenas depois de levantar minha cabeça, olhar para trás e perceber escrito acima da então belíssima vitrine as palavras “Mundo dos Animais – Cães, Gatos e Aves”, é que me dei conta do quão profundas suas palavras poderiam ter sido ou do estrago que elas me teriam feito. Larguei Nina por um segundo, e ainda olhando para a vitrine via os bebês de diferentes raças engatinhando em círculos e súplices enquanto pressionavam o rosto contra o vidro.

Céus, estou delirando.

1 de fevereiro de 2011

Ampulheta de Amores

Acalorado pelo frio
de insólita indiferença,
em busca vai
de sua ampulheta de amores.
Achou por todo o tempo
que fosse de coração aberto,
quando a ampulheta
era de grãos amados
que passavam rápido.
Virou há tempo
o amor uma vez,
para torturar-se enquanto via
areia correr em sordidez.
Sentia na pele cada grão
do vidro da ampulheta velha
e triste enferrujada,
que em pouco tempo passava.
Sentia muito por breve
aquilo que logo
não lhe era nada.
Assim perdurava a relação
até que passassem todos os grãos,
o obrigando novamente
a virar a ampulheta em vão.
Virando, rodava e girava
a ampulheta falha.
Esperança tinha
de que a ampulheta
de tanto girada
e revoltada, algum dia
falhasse em falhar
na estrutura embicada,
e pudesse travar um dos grãos,
emperrando a todos os outros
e ao tempo na transição.
Poderia sentir, então,
como uma pré-saudade,
o que seria amar forte
o grão certo em sumidade.