24 de abril de 2011

Sobre Donos de Cabelo

Andavam ao vento os dois, ou caminhavam, para ter enfeitada a cena, como seria em compatibilidade com o enfeite do flutuar dos dois ao vento repleto de charme que lhes conferia carisma ainda mais extravagante. Ele andava cortando com o pescoço o vento e contando com o pescoço os caminhos a caminhar num ângulo favorável a visão enquanto o outro flutuante se balançava pelo balanço do pescoço do primeiro.

Eram andando dono e seu cabelo, Dono de Cabelo forçadamente bagunçado por aquilo a que ele atribuía a palavra “vida” logo seguida da expressão mais orgasticamente maravilhosa, “o sofrer” – que por nós será chamada de expressão não apenas pelo fato da verbal substantivação, mas porque ao momento seguinte em que se sofre, se expressa, o contrário de se calar, principalmente quando numa história contabilizamos um Dono de Cabelo que de reprimido tem apenas os fios capilares em seu couro nobre cabeludo. De volta ao caminhar pelo vento, o caminhante era um Dono de Cabelo que sofria de seu auto-estereótipo.

O Dono do Cabelo era de fato um bon vivant pois lhe caía como luva o cabelo na cabeça da qual ele gostava de ter autonomia sobre. Caía-lhe bem o cabelo que desde primórdios de infância pré-definira e modelara sua personalidade tardia e nem um pouco vazia, afinal preenchimento capilar não lhe faltava e portanto vinham no pacote os escrúpulos. E a verdade mais sincera, doa a nós oniscientes ou a quem doer, é que o Cabelo também adorava ser o cabelo do Dono do Cabelo. Eram juntos como carne e unha, embora soubessem que carne e unha nunca teriam formado dupla tão boa quanto fios e couro, logo cabelo e cabeça.

Tinham orgulho mútuo um do outro inclusive, o Cabelo do Dono por este lhe comportar com tamanha competência, e o Dono orgulhava-se do Cabelo por este lhe servir com igual tamanha competência. Parecia incrível ao Dono do Cabelo que seu Cabelo nunca tivesse precisado da insolência de uma Escova, arquiinimiga de todos os Donos de Cabelo por toda a Terra, e por isso ele o cultivava como a maior conquista da vida dos dois até então. Outras pessoas, nas entrelinhas as ordinárias que podem ser classificadas como Escovadoras de Cabelo, uma vez que sua posse sobre qualquer cabelo é refutada ao mínimo detalhe do toque de uma Escova, imaginavam o orgulho de Donos de Cabelo quando percebiam que esse era seu título, principalmente quando eles desfilavam com seu Cabelo ao vento.

Tinha-se por prova de experiência e portanto de resistência por parte dos Donos de Cabelo que ao estereotipar-se deste título, o Dono de Cabelo em questão tornava-se de imediato o que neste mundo denominamos semi-celebridade. As conseqüências deste resultado seriam evidentes quando tivéssemos clareza que da soma de uma semi-celebridade Dona de Cabelo à outra semi-celebridade emergente, o próprio Cabelo, estaríamos de frente com uma celebridade completa que enquanto no campo de visão de qualquer ser humano mediano, ou Escovadores de Cabelo, provocaria certo alvoroço absurdo e inconsciente na faixa social Povão da Escova, afinal era incontestável a verdade de que ao escovar de qualquer Cabelo, danificava-se o cérebro por tempo indeterminado, quando não infinito.

A cena então era extraordinária enquanto passava a dupla de semi-celebridades que coexistiam porém não sobreviveriam separadas, o Cabelo por si só jogava-se para trás e para os lados e então em redemoinho até que o Dono do Cabelo se prestasse a ajudá-lo e lhe conferisse formas e conceitos absurdos, despenteando e penteando os fios assiduamente embora sem o auxílio assassino de uma Escova, subentendendo-se “com as mãos”, afinal sabemos as conseqüências de uma Escova, as quais definiram a vida dos espectadores Escovadores desta cena. O crucial para o Cabelo e seu Dono, visto que eram ambos semi e juntos portanto uma única celebridade, título que comprovadamente causava pane nas cabeças já empanadas, era que, de todos os Escovadores que lhes observavam maravilhados, nenhum poderia ter a audácia de se hipnotizar e querer lhes acompanhar até sua casa e lar, balbuciando com outros na faixa Povão da Escova em uma demonstração daquilo que temos por algazarra. Teriam que passar o Dono e seu Cabelo, andando ou talvez caminhando, mas apenas passar.

E passando em fases tranqüilas e absurdas e de volta às tranqüilas, embora nenhuma fase absurda do passar tivesse chegado ao alerta de emergência “Alvoroço e Algazarra”, o Dono do Cabelo se orgulhava de toda a cena que se desenrolava e transmitia a mesma felicidade ao Cabelo que se espalhava ainda ao vento, e novamente teriam conseguido os dois ter passado por mais um aglomerado no qual todos os Escovadores ficaram hipnotizados e ainda assim nenhum os seguira até em casa, objetivo este diário e único de todos os Donos de Cabelo, “passar e hipnotizar enquanto não estar sendo seguido”, eles saíam martelando de casa.

Pelo orgulho de serem juntos celebridade e de terem terminado o dia como planejado, a honra que trouxeram os dois se expandia pela casa do Dono do Cabelo, logo o lar do Cabelo, em um ambiente naturalmente desescovado e de ventania contida, e da verdade mais incontestável, daquela que se enquadra na mais honesta, a revelar-se agora que Dono e seu Cabelo descansam leves porém rígidos em seu flutuar sonolento nunca a ser acordado, doa a nós oniscientes ou a quem doer, é que ao abrir de nove portas e treze caixões no cômodo mais longínquo e inesperado da casa do Dono do Cabelo, logo o lar do Cabelo, e então à chave vacilante na fechadura de um baú, encontramos apenas nós e nenhum Escovador na mais súbita subconsciência do Dono e seu Cabelo uma bela, reluzente, alto-astral e gasta de uso Escova, o que não denigre em nenhum modo a imagem formada de celebridade conjunta do Dono e seu Cabelo, afinal subconscientes Donos têm Escovas, e em subconsciência até Escovadores têm que nunca escovaram seus ex-Cabelos.

10 de abril de 2011

Chica

Passava mal havia dias, não respirava e não comia, nem de sua sede bebia. Descobrira que o efeito era incurável mas não podia se deixar vencer, era muito fácil. Lutou por meses caídos em anos e de nada se curava, continuava sem comer e nem beber, mal respirava. Decidira então que iria morrer, o faria de bom grado já que tentara e não conseguira sobreviver. Com a morte não se brincava e se o tempo lhe clamava então com o tempo ela estava. Dissera que iria para o chão e de lá seu corpo permaneceria sem alma e parado coração, e foi-se feliz para se juntar ao clamor hostil mas necessário dessa vida febril. No chão arrebatada esperava que lhe carregassem e lhe carregara não a morte, mas mãos divinas que a puseram de volta ao alto em grande porte. Tentara outra vez irritadiça, e se jogando do abismo sofrera em silêncio da doença de outros tempos mestiça. De novo lhe colocara a mão no cosmos defraudos, e não entendia o que se passava pelos mortais laudos. Já uma vez tentara vencer e não conseguindo se juntara ao inimigo, portanto agora outra vez ao invés de ao chão ir, pelos céus voando iria partir. Atirou-se com dificuldade ao céu pavoroso e voou com pesada leveza pelos ventos em senhorio gozo. Passou bastante tempo até que enfim morrera o pássaro voando, de todos os privilégios do voar desfrutando. Voara por toda a vida e em seu último suspiro não fora trazido ao solo, e tampouco suas asas morreram fechadas como deveriam se de eventual encontro ao chão e ao dolo colo. Está agora sem dor e sem sofrer, em paz percorrendo acres dos céus do amanhecer e do anoitecer, pois suas asas não morreram vivas por cortes temporais, mas vivas para sempre em todos os eternos vitrais.