22 de julho de 2011

Criminalizando Dé Branco

Meu nome é “Sou um advogado criminalista”. Por ora posso dizer que relato apenas a verdade, como um registro do que é real por trás do que é visto – o que, em outras palavras, eu afirmaria como “enxergar”. A verdade, no meu caso, e no de pessoas tão privilegiadas quanto, rolava pelo vento com a otimização da força do vento enquanto no tempo.

A areia quase não compunha mais grãos aqueles que conhecem todos como os compostos da areia, e este fenômeno químico-físico remetia tão somente ao calor invariável daquela praia quente e paradisiacamente infernal de tão quente. Decerto a afabilidade dos grãos já inexistentes da areia era verdadeira contanto que conseguissem se sentar todos os presentes na areia corrida de quentura, tendo a mim como objeto secundário-planista ou mesmo coadjuvante na cena, ou deitar-se obviamente, dependendo da coragem de cada um – para mim eu sabia a fraqueza da minha pouca vontade, mas nada que de empurros outros eu não andasse.

De pé na areia alguns humanos invejáveis e, deitados, mais alguns semi-humanos ou “quase humanos”, ou ainda “seres na tentativa de tornarem-se humanos”, aos quais eu me incluía com um falso sorriso no rosto que, ao menos, em outros tempos, era branco.

Os invejáveis eram de todo os mais visivelmente aparentes na cena praiana por sua cor quase negra de tão preta, embora não remetessem nenhum deles à escuridão sórdida em que alguns dos deitados, entre eles um advogado criminalista que por mim é chamado de eu, se inseriam. Inseríamo-nos nós deitados, leia-se, à escuridão constante da vida por termos nascido deploravelmente brancos como uma ex-folha-de-papel, daquelas brancas como o sol em mormaço noturno.

Os deitados na areia deitavam – na areia quente e corrida quase inexistente de grãos de tão quente – para igualarmo-nos aos de pé quase negros de tão pretos embora contassem com toda a iluminação que a vida pode proporcionar. Os pretos de pé, unicamente pelo simbolismo de liderança imposto, eram liderados por Dé Preto, e todos de pé por bondade incontestável e incalculável ofereciam cursos e competições aos branquelos coitados de vida para que ao menos alguns pudessem se validar como aptos a seres humanos.

Paradisiacamente desgraçados eram exclusivos à competição que havia de ter começado fazia horas pois da quentura da areia já nada eu sentia e enfim me prestara emocionalmente a deitar na areia nem tão quente de tão inexistente. Deitados todos enfim estavam e a competição afinal começara e pelo menos alguma benevolência Deus teria tido para comigo mesmo que branco eu, perdão meu Deus, ao mandar à areia quente inexistente o vento que de novo varria o nada em que eu deitava.

Fato é que dali a pouco os de pé foram-se a viver fora da praia, da areia e do mar e depois voltaram-se uns aos outros com Dé Preto a os estimular, a checar à competição tão largamente demorada do “empretar-se-ão todos, seja hoje ou amanhã”, Dé Preto encorajava os deitados a continuar, “inclusive você o mais branquelo, que aqui desde aquele dia deita sem levantar”, a mim ele se dirigiu com grande olhar, e de olhar a olhares e olhares a competição foi passando, esquentando, delirando, infernizando, esfriando, amortecendo, acalorando, acontecendo e terminando, até que afinal recebi das profecias orais de Dé Preto a concretização.

Concretizei-me àquele dia como cimento puro, embora preto e não branco, com a aura mais brilhante de luminosidade cósmica que obscurecida de passados sombrios e, hoje, ao futuro do ontem, condenáveis. À saída daquela praia de areia inexistente perguntara-me Dé o nome do eu em mim que sucedera em empretizar-se sem contudo negralizar-se. Respondi aquém do esperado com “Meu nome é ‘Sou um advogado criminalista’ para resolver o meu próprio crime de ser branco”.