30 de dezembro de 2011

Cia de Teatro


O anfiteatro era vicioso no que dizia respeito ao seu formato único e repetido por toda sua construção. Além de seu palco destablado mais baixo que a platéia e portanto inferior à crítica, de três planos paralelos e interceptados por nada além do próprio espaço era feito o anfiteatro que em semicírculos triplamente se formava para todos os seus quatro lados que, por fim, formava uma meia-lua rente ao chão que subia cada vez mais alto para platéias superiores e, no entanto, menos analíticas – afinal, quanto mais próximo do céu mais perto do sol escaldante de verão novembrano carioca, que nesta época especificamente encontra-se à sensação de 51ºC à sombra, estava o público alto e, ao mesmo tempo, queimado de suor pelo querido sol que o impedia de racionar qualquer “Qual o seu nome?”. Rente ao chão estava também o próprio espaço que separava os planos mas, nesse caso, por preencherem o espaço e talvez apenas por este motivo, pessoas o ocupavam em todas as suas três faces para que se unissem de alguma forma embora estivessem cada uma em seu plano particular, talvez pelo sol ou por receios pessoais ou pelo sol, mas todas presente de corpo apenas.
            Era possível contar três meninas e quatro rapazes em cena, todos feios. Quem sabe se não eram todos belíssimos e incrivelmente maravilhosos quando em sombra mas, à menção de situação solar irreversível, estavam todos feios. Embora formem uma cena una e indivisível estão cada um tão desconectados de si e principalmente dos outros que, neste momento e neste aspecto, vivem para si. Vivem para si e interagem com a cena de tal modo que, de tão absortos em interação, fecham-se em si mesmos para refletir sobre o vivido e assim se esquecem de viver, o que neste caso é o que menos aparentemente acontece.
            De primeira vista encontra-se a mais bela de todos os feios: uma moribunda estirada no primeiro patamar da platéia, o que a tornaria mais culta e inteligível, uma vez que dois patamares longe do sol, porém não a torna. Pode-se imaginar que arbitrariamente escolhera morrer a suportar todo o calor que ainda assim lhe tocava a pele sem qualquer carinho, o que fazia com que a moribunda, embora visivelmente inconsciente de tudo, estivesse cada vez mais a par dos acontecimentos universais já que em sua tentativa de fuga ao sol, tornara-se tão conecta a ele que agora incidia luz própria. Tratava-se de purificação enquanto ser humano em sua completa desgraça, o que levou a moribunda a seu maior desafio em vida: a morte, de tal modo que agora não se mexia em um milímetro sequer e não dava quaisquer sinais de que talvez pudesse estar participando da desintegração ao redor, ainda que não fisicamente, afinal agora mesmo inconsciente a moribunda de tudo sabia pois astro se tornara.
            De segunda vista pouca coisa era perceptível, mas na cena em questão qualquer movimento mínimo seria evidente afinal tudo era muito sereno embora derretesse. À pouca coisa trata-se um dos rapazes que incontrolavelmente estúpido pela maciez do sol esvaziara-se de quaisquer emoções ou pensamentos e esvaíra toda sua angústia de vazio contida em um pedaço de papel quase queimado que encontrara no segundo patamar do público, onde agora habitava. Com o papel mecanicamente tentava alcançar à alguma reação das pessoas e portanto fingia divertir-se com o chamar-las atenção, pedido ao qual ninguém respondia largando mais uma vez o rapaz vazio, vazio. Em desespero continuara suas tentativas de causar comoção, tentara inclusive amassar e jogar a então bola queimada em meio a cara da moribunda, que por certo não reagira já que solarmente morta, e falhava incessantemente. Por fim atraíra reação do outro rapaz, este no primeiro patamar, portanto mais lúcido, que embora lúcido aparentava estar tão vazio quanto o rapaz vazio, isto apenas se descartarmos a possibilidade de que o segundo rapaz talvez vazio estivesse tão absorto em preocupações antigas e, infelizmente, próprias, que à menção de insignificância da bolinha de papel, aceitara distrair-se com aquele que por demais já havia se distraído. Jogavam um ao outro, portanto, a bolinha de papel: o rapaz vazio ao rapaz talvez vazio e o rapaz talvez vazio ao rapaz vazio, até que tudo tornou-se mecânico e ambos voltaram ao estágio inicial de subordinação a tudo e, principalmente, ao sol.
            Após a primeira e segunda vistas ao sol, a visão se cansa e é difícil a distinção total de uma cena que invariavelmente pinta-se de roxo e azul e verde e amarelo e roxo e rosa e azul de acordo com a vontade dos raios do sol, deixando tudo muito confuso. No entanto, à vista cansada é possível identificar um terceiro rapaz que, sentado quieto no segundo patamar e inteiramente concentrado em algo superficial, embora faça de tudo para tornar o superficial em algo profundo e estranhamente acolhedor, foca-se de coração e corpo e alma e olhos e por inteiro à aceitação da cena dentro da cena, ou seja, a peça em si que enfim é pregada no anfiteatro. Concentra-se portanto na atriz principal de sua própria cena, a segunda menina a aparecer e no entanto a primeira viva, e viva de tão modo que trabalha toda a sua ordenação sobre a terra que faz o rapaz vidrado não tirar-lhe pedaço com os olhos. A segunda menina encontra-se no patamar zero, no palco da vida que ao menos está contida no anfiteatro e portanto, por estar de pé e a postos no palco destablado, esta é a verdadeira estrela de conceito inicial, e não o sol. Para ela o sol porta-se como mero coadjuvante em uma cena rápida que ela mesma prega e controla, assim como controla o rapaz vidrado que, embora tenha o sol como seu regente maior, prende-se à terra mais pela presença da estrela do que do astro. Prende-se pela existência de toda aquela situação sujeita a deixar-lhe ali pelo tempo que preferir, afinal por vontade própria não se levantaria nunca – a não ser, é claro, que a estrela resolvesse pregar-se em outros lugares e, portanto, apenas assim, ele se moveria. Intactos então estão o rapaz vidrado e a estrela que, por meio de forças como a da gravidade ou de atração e repulsão, embora não saibam, completam-se um ao outro, já que mútuos.
            Por último percebe-se a última menina que por si só escalara ao último patamar e por lá perto do sol deitara-se confiante no valor que a luz teria em seus olhos. Subira ao topo para ter certeza de que com a luz próxima da retina não se queima olhos e sim virtudes, afinal cego é aquele que quer ver o que quer. Assim, privara-se da dor de ter os olhos cegos para que pudesse enfim ir à caça de todas as suas vontades no mundo e resolvera contentar-se com a realidade: de imediato postara uma das mãos sobre a cabeça na direção dos olhos, deixando com que a luz a banhasse por inteiro, com exceção das pupilas. Tinha ciência de que estaria cortando tratos com seus sonhos e suas excepcionais loucuras em vida as quais seriam dolorosamente deixadas, mas tinha ciência também de que estar próxima à realidade significava estar próxima ao anfiteatro e portanto a todos ali presentes, que poderiam se resumir apenas em uma pessoa: o último dos rapazes. O último dos rapazes, embora prestasse contas à última menina, tratava-se como, de todos, o mais distante dela, fazendo questão de arrudiar incontrolável o anfiteatro de um lado para o outro de cima para baixo, sem parar sequer um segundo em alguns dos patamares ou, ainda, no palco. Dessa forma portam-se a última menina no topo e o último rapaz a rodeá-la infinitamente, o que causa desconforto aos dois igualmente.
A última das meninas e o último dos rapazes não se completavam a toa, afinal sua forma de complemento era de todas a mais ensaiada. É evidente que último e última não formam par em lugar algum pois é como se tentássemos somar zero e zero ou diminuir um de um. A fórmula para o complemento pleno de dois não pode, em hipótese alguma, dar-se pela combinação de último com último, a não ser que ambos tenham a intenção de anularem-se um ao outro e, portanto, não se complementarem. Para que desse certo a ocasião infernal apesar do sol dos dois últimos, eles teriam de portar-se como pares de condições opostas e apenas opostas, sem mistério ou instituição alguma, como portavam-se o rapaz vidrado e a estrela, como controladora e controlado, ou como se prestavam o rapaz vazio e o rapaz quase vazio um ao outro, já que um era com certeza vazio e o outro apenas talvez, ou mesmo teriam de ser os últimos de relação igual à moribunda e o sol, que por tanto odiarem-se um ao outro, completam-se por um estar vivo e o outro morto. Portanto, à irresolução iminente os últimos continuam a se questionarem com dúvidas, embora ele ande e ela deite.
À cena que se forma no anfiteatro não se pode tirar qualquer conclusão absurda além da óbvia que já devem ter-se dado conta de que o sol é tão quente que faz do anfiteatro subir radiação. Dessa forma não há expectativa maior: era verão. 

14 de dezembro de 2011

Rua Maria

Um passo nessa rua podia ser maior que outros três quaisquer, andados em qualquer lugar. A experiência do andar magnificava-se nesta rua: além dele, que andava, nada mais havia – além da rua. Parecia óbvio que, por passar todos os dias, santos ou não, naquela rua cheia de graça, ele aposentou-se da surpresa de vê-la passar por baixo de seus pés e, pelo contrário, ansiava diariamente por esse momento diário, embora não tivesse a mínima pretensão de qualificar todas as outras ruas pelas quais passava com o mesmo gosto. De verdade, nem sequer pensara em gostar das outras ruas, pois mal sabia que elas existiam, e por isso presenciava todos os dias a sensação de surpresa por passar em um lugar nunca antes conhecido pelo qual ele passava todos os dias.
         Esta rua era única. Tão esta e tão única que lhe dera um nome: rua Maria. Cheia de graça – pela qual ele esperava. Ele andava por Ela com o mesmo pavor gostoso de quem sabe estar fazendo errado, com cada essência do proibido batendo no peito para muito além do coração, para mais próximo do revirar o estômago. A experiência do viver magnificava-se nesta Rua: ele se sentia vivo e não morto ao viver esta Rua. Ele entendia a Rua e criava histórias para Ela. Contava a si mesmo que a Rua era assombrosa e, de noite, estupidamente perigosa – não pelos homens que assaltariam homens, mas pela própria benevolência da Rua que, apaixonada por si mesma, atacava qualquer um que nela pisasse. Contava a todos que a Rua era assombrosa e, de manhã, misteriosa – ninguém nunca faria ideia do quanto um raio de sol pode ofuscar acontecimentos. Não satisfeito, mandava pessoas contarem a outras pessoas que, para elas, a Rua era um assombro. “Um assombro de linda, nem feia nem comprida.”
        Com o tempo ele criou monumentos sobre a Rua para exibir em outras ruas, diminuindo-as. Com o tempo não suportava mais passar por outras ruas, sentia seus pés queimarem de angústia e, no entanto, não poderia igualá-las a Rua Maria, pois Rua Maria é esta e é única. Com muito tempo não poderia mais aguentar passar noites em claro de sua varanda a observar a Rua mais linda sustentar aquelas duas moças que vagavam pela madrugada com ares de Maria.
Tempo demais longe de Rua Maria se fez e ele não suportaria mais estar em outro lugar. Estando em outro lugar ele deixava de ser ele e, portanto, deixava de ser. Em busca da sobrevivência e, acima de tudo, por sua existência, ele haveria de ser. E para ser ele teria de estar na Rua Maria, sendo Rua Maria.
De mais em mais ele foi para a Rua com a ânsia no pescoço de nunca mais pisar em outro lugar, e ele agora é Rua Maria e Rua Maria é Rua Maria.