1 de outubro de 2012

Centopeico


do maior, ao grande o pequeno ao menor, e ao quase invisível o transparente, que reflete o que se apresenta antes ou depois sem critérios em escalas de grandezaOooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

24 de setembro de 2012

Libido


Libido, cortada sozinha por entre partes de si mesma em raspas de pele aparentes mas sutis inclusive sombreadas por uma coloração vermelha ora arroxada ora rosada dependendo de como a língua pudesse contribuir para o composto de recompensa final que era sua boca. Os dentes grandes calos certamente maiores à frente conforme diminuíam proporcionalmente às dimensões da boca e embora parecessem sujeitos à perfeição apenas a beiravam no sentido de que a própria diagramação naturalmente fora dos padrões de sua boca o caracterizava como tendo a única boca no mundo igual a sua própria esta que por sinal compunha a recompensa final que era sua boca, única. Quisera-lhe talvez por inteiro porém apenas se de foco em sua boca afinal poderia concebê-la sem de incluso seu corpo inteiro embora o contrário não fosse possível já que não conseguia concebê-lo por inteiro sem de incluso a sua boca. Temos um problema no entanto quanto à posse de sua boca enquanto parte de seu corpo que pertence a ele e apenas a ele o que mandatoriamente acaba por não nos incluir. Excluídos pensemos que embora nos caiba o direito de obsessão e portanto o direito de posse humanitária por apropriação de qualquer coisa em questão embora neste caso saibamos que a coisa em questão não é apenas uma coisa e sim sua boca, mesmo assim não nos cabe a sua boca. Talvez então nos caiba sua boca algum dia em situações em que bocas em geral e neste caso inclusive sua boca viram de domínio público já que consta questões como saúde e sobrevivência como por exemplo numa ocasião de respiração boca-a-boca eu poderia estar atento e preparado para que tomasse posse de sua boca então nesta situação mas teria que estar pronto a qualquer momento e em qualquer lugar em que a boca estivesse afinal se eu me descuidasse seria possível que outro obcecado porém não tanto quanto eu passasse adiante seus princípios e juízos de valor para receber sua boca numa respiração que de respiração não constará nada se depender de mim e deste outro obcecado também tenho certeza que boca-a-boca por boca-a-boca posso me caber ao direito de ter sua boca mais do que ele próprio a ter já que em vida a teve então em algum momento ela terá de ser minha pois a mim me cabe o direito de ter sua boca em boca-a-boca num beijo boca-a-boca molhado suave apertado por beijo você pode se dar se tocar seus lábios de cima com os de baixo e apertá-los doces portanto me cabe sua boca que você teve por toda a vida nenhuma no mundo igual e única.

24 de agosto de 2012

Deséulengia


Todo esse tempo, que enquanto vem traz esse vento, que enquanto bate na areia barrosa a faz voar como o pó mais fino, embora os grãos grossos não sejam dispersão, afinal os carros passam errantes galantes pouco impactantes, ante a visão pura desse reflexo branco, que como espelhos redirecionam o foco e o desfoco, conforme toca a música do motor ao fundo, de acordo com a vontade de quem por si só trabalha, nem tempo nem vento de pensar no vento, que continua a tocar a pele e a barra da calça, de tão suave entrando por dentro da costura melhor de arremate, e lambendo sem líquido algum os pêlos de pouco a muito grossos, de poucos a muitos por todas as pernas, e nem o vento, que não apenas compõe como rege a cena, de cenário chapado da montanha ao sol e à sombra do céu, que não é azul mas também não é branco, não consegue nem o vento desviar a atenção da palpitação rápida, de segunda e terceira intenção do olhar máximo, e de tão breve é tão intenso ao par, o par que poderia ser perto mas é longe o par de sapatos roxos, de tanto olhar gordo para os cadarços desamarrados que de tão livres, para mim deveriam balançar não com outros mas apenas com o meu vento.

19 de agosto de 2012

Vespertino


Quem tem graça anda atrás de água
Quem anda atrás de água anda filtrado
Quem anda filtrado é lerdo por natureza
Quem é por natureza anda
Quem anda passa pelo corredor
Quem passa pelo corredor sai pelos quartos
Quem sai pelos quartos tem o corredor em si
Quem tem o corredor em si anda por quem anda por ele
Quem anda por ele anda junto
Quem anda junto acaba cagado
Quem acaba cagado vai ao banheiro
Quem vai ao banheiro passa pela câmera
Quem passa pela câmera é flagrado
Quem é flagrado acaba por reiterar a cagação para dentro
Quem caga para dentro tem graça
Quem não tem graça não anda atrás de água
Quem não anda atrás de água não anda filtrado
Quem não anda filtrado não é lerdo por natureza
Quem não é por natureza não anda
Quem não anda não passa pelo corredor
Quem não passa pelo corredor não sai pelos quartos
Quem não sai pelos quartos não tem o corredor em si
Quem não tem o corredor em si não anda por quem anda por ele
Quem não anda por ele não anda junto
Quem não anda junto não acaba cagado
Quem não acaba cagado não vai ao banheiro
Quem não vai ao banheiro não passa pela câmera
Quem não passa pela câmera não é flagrado
Quem não é flagrado acaba por não reiterar a cagação para dentro
Quem não caga para dentro não tem graça

17 de agosto de 2012

Houve o Tempo do Mar


Houve o tempo em que nasci
à beira-mar ouvi o som do quebrar
e senti o cheiro do esforço que fiz
chegando a ver a praia de mar.

Houve o tempo em que fui batizado
às margens da espuma espelhar
de uma onda milenar, quebrada
que descobri chamar-se ela “o praiar”.

Houve o tempo em que a areia
atolou-me forte a joguei para o ar
fazendo-a rolar grão a grão abaixo e com ela
estirávamo-nos em direção à água-mar.

Houve o tempo em que cavei
a areia bisbilhotei as conchas
vivas de pesar amantes entre si
voltavam sempre comigo ao mar.

Houve o tempo em que mergulhei
nadando ondas fundas fundadas
à jacarés voadores voavam
em direção à areia atolada.

Houve o tempo em que aprendi
conseguir boiar e me deixar
levar a mim comigo até que
o mar engolisse a nós dois e ao mar.

Houve o tempo em que andava
sozinho ia à praia sozinho
afogar problemas absorvidos
absolvidos convectivos ao mar.

Houve o tempo em que pontais
íamos pontuais subir e descer
e escalar e se deixar ter
a saudade de nós e do mar.

Houve o tempo em que três
a esperar quatro ciclos
de areia solar cor solar
resultava em mergulhos no mar.

Houve o tempo em que interior
izei-me e de lado na cabeça deixe
ei izar o que depois no corpo guarde
ei todas as lembranças do mar.

Houve o tempo em que arrancado
sofri uma raiz hermética em postar
se em terra plana ela houve de estar
á esta a mil distâncias do mar.

Houve o tempo em que perceber
apesar de todos os tempos do ser
somar em um único eunuco ter
em si a continuação do mar. 

Houve o tempo em que cheirar
meu relógio continua a exalar
a continuar o exalo do cheiro
cheira ainda à maresia do mar.

Houve o tempo em que cheirar
meu relógio passou a exalar
além do exalo do cheiro do mar
um exalo preto longe incorporado.

Houve o tempo em que o emborrachado
cheiroso porque ainda cheira
em sépia relógio ainda arde na pele
amortecida de dor mas não de calor.

16 de junho de 2012

O Varal


As roupas estavam no varal. Alguém teria de tirá-las da corda e esse alguém era dona Maria, que trabalhava e ganhava para isso, o que lhe dava corda para interagir com a corda. No entanto parecia descontente com suas habilidades, sobretudo físicas, e deitara-se de véu em pranto em uma cadeira em que mal cabia. Sabia que se sentasse nunca mais levantaria, mas escolhera o abandono às roupas que a si mesma. Abandonou a si própria na cadeira da lamentação, que nunca mais a permitiu ter como amigas as roupas encharcadas de suor do seu trabalho rústico de anos a fio de costura com a qual a seda das outras lavadas era entrelaçada pelas cordas. Nunca mais levantaria um dedo do pé torto pois não andaria de cangaço ao varal que de tanto pendurar acabou por pendurar-se a si mesmo sem prestações de conta com dona Maria que, até o último instante, além daquele em que recorrera a cadeira, esteve também pendurada e, no entanto, caíra enquanto o varal a pendurava.

3 de junho de 2012

A Viagem de Ônibus


A viagem de ônibus não chega a ser incrível, mas supre as suspeitas de que comporta-se ao menos como intrigante, já que silenciosa. A quebra do silêncio ocorre a partir do momento em que uma melodia polifônica, também conhecida como música de elevador, soa em algum canto específico do ônibus como nostalgia forçada junto às imagens em tons de sépia graves, como os da música, e que passam por aquelas janelas ainda abertas. No entanto, pelo fato de que o ônibus é um ônibus e não um elevador, não cabe a música de elevador como digna invasora do silêncio instituído e, portanto, o silêncio, apesar da música, continua a instituir-se. Intui-se que do silêncio partam dois extremos então inenarráveis no ambiente: o sentir-se vazio ou o se sentir desconfortavelmente incompleto de ideias. Embora se relacionem, vazio e rebuliçado de ideias incompletas não se equivalem. Para conter explicações maiores, existem dois tipos de resultado possíveis para vazio e incompleto: o incompleto ocorre quando a solução de todos os problemas encontra-se ao lado e apenas ao lado, sem possibilidade de incorporação ou propriedade, enquanto o vazio ocorre quando não existe solução nem ao lado nem em lugar algum, seja do ônibus ou da estrada ou das imagens da janela ou do sol que não chega fixo no horizonte chapado na paisagem pintada no céu redondo espiralarte achatado por montanhas refletidas pelo mar sozinho no espaço anexo ao chão infinito pelo ar concentrado inexistindo sol não chega à frente mas ao lado, e apenas ao lado. Silêncio por falta de plenitude, portanto.

31 de janeiro de 2012

Éulengie

O sol não chega fixo no horizonte chapado na paisagem pintada no céu redondo espiralarte achatado por montanhas refletidas pelo mar sozinho no espaço anexo ao chão infinito pelo ar concentrado inexistindo sol não chega à frente mas ao lado. E apenas ao lado.

20 de janeiro de 2012

Quádruplas


Percebe-se eventualmente
a verdade das paredes quádruplas.
Não são quádruplas por natureza
embora quadrúpedes de fato as habitem,
tomando por certeza que uma construção
por mãos de quadrúpedes antinaturais
que a construir portam-se de pé
em dois de seus quatro pés
não é antinatural e sim originalíssima
tendo em vista a visão pouco vasta
de quadrúpedes que naturalizam à primeira instância
entidades quaisquer postas em terra no mundo.
            Entende-se que as paredes quádruplas
tão insignificantemente difundidas
pela vida habitável assumem caráter
de simplicidade simbólica, uma vez que
quadrúpedes tem para si que só são quadrúpedes,
mesmo quando em duas patas,
em suas naturalíssimas paredes quádruplas no corpo.
            É evidente que se paredes quádruplas
o quadrúpede criou, foi pensando em si mesmo.
O construtor longínquo teve decerto
dificuldade em decifrar que para casa
e ambientes privativos, nada mais simbólico
que a própria caixa quádrupla
com a qual ele metaforizava.
Teria sido intrínseco ao quadrúpede humano
a realização sólida de seus devaneios
nunca revelados e continuadamente cogitados
pelas vinte e quatro horas criadas
de todo o tempo também simbólico
pelo qual ele se regrava.
O quadrúpede tinha para si
que simbolismos poucos como paredes
e templos e carruagens e praças e aeronaves
e cadernos eram apenas símbolos
àquilo que ele contaria de imediato
em vida: tinha por certeza como dois mais dois
são quatro e pouquinho que estaria de sempre
protegido por testa, têmporas e nuca
que lhe firmavam os pensamentos quádruplos
e para o inferno com paredes segundas
ou terceiras, porém não quartas, mas quádruplas,
pois de casas e fechamentos não precisava
o quadrúpede tendo nota de que mesmo
em meio à trupe, à plebe ou à rodoviária,
o quadrúpede contaria ad infinitum
consigo mesmo.

8 de janeiro de 2012

Espiritualizando Dé Preto

Por conversas de telefone Dé transita embora passe por todas intacto já que a cobrar de seu correspondente vocal. Mesmo que cobre dos seus confidentes cobra mais a si mesmo por ouvir o que não quer e ter de digerir considerações que não pudera pensar em lidar neste momento específico da vida de subordinação às massas e ao individual que por tanto se torna inclusive maciço perante a Dé, a ponto de deixá-lo se sentir pequeno perto do seu subconsciente seletivo. Dé por vezes prefere não se intrometer no quebra-cabeça da sua vida, o que o leva a desconsiderar sua espiritualização diária. Desespiritualizado Dé torna-se vazio dia a dia até que perceba por conversas por telefone que precisa de novos motivos para viver. Trata-se de aprender a interpretar seus sonhos por si mesmo, sem qualquer interferência por qualquer que seja de terceiros que creem saber muito da vida. Trata-se de aprender a fazer em vez de apenas analisar e portanto tornar-se -mente ativo. Trata-se de escolher ideias específicas e as vestir na testa em cor vermelha para que não haja dúvida para terceiros que se dizem queridos pelas costas de quem muda. Dé precisa encontrar-se em meio às conversas. Conversa não certo do quê, e embora abstraído pela noite, preocupa-se. Busca paz em si antes de tentar fazer a vida acontecer. O que acontecer há de deslizar em vez de ser empurrado pelas mãos de Dé que, apesar de tudo, cansaram-se de segurar telefones. 

7 de janeiro de 2012

Miro Vai ao Cinema


            O fundo é sempre mais confortável que o ralo ou o quase dentro. O ralo é superficial e permite apenas a simulação de uma emoção gasta de experiência, principalmente aquelas que acontecem com freqüência, e o quase dentro significa que “o quase nunca está no meio, ele sempre pesa para um lado”, ou seja, para fora. Por isso o fundo é, além de tudo, mais atraente ao olhar alheio e ao olhar de qualquer um que, ao entrar em uma sala de cinema, senta-se na última fileira de cadeiras, aquela encostada à parede e portanto a mais funda, embora comprimida.
           Senta-se à última fileira o querido Miro desafilhado. Escolhera a dedo o filme que agora era exibido por cima de sua cabeça e à frente de seus olhos em uma tela de projeção absurdamente insolúvel por inteiro, como aquelas vezes em que, por menor que o objeto seja, consegue aprofundar-se em grandes planos côncavos e debruçar-se por completo enquanto preenche aos poucos toda a superfície funda. Escolhera também a dedo o lugar em que sentava, afinal para um filme com elenco tão esplendoroso, apenas tecido fundo poderia dar-lhe a dimensão exata daqueles que eram passados na tela.
            Miro recorda-se que ao escolher da última fileira a cadeira central, e portanto a mais propícia a tê-lo afundado em derretimentos sempre para os lados, sentira-se, como sempre, o único aventurado naquela sessão, embora conseguisse avaliar detalhadamente todas as silhuetas de cabeça à sua frente. De primeira instância avaliava já com metade dos conceitos pessoas que se sentavam em algum lugar que não da última fileira. De outra forma poderia conceituar pessoas apenas pelo tamanho ou posição de suas cabeças, o que, no entanto, lhe dizia muito à queima-roupa.
Não importava o tamanho do corpo se a cabeça não fosse valiosamente maior que qualquer outra parte, já que para sustentação e quebra de entradas sigilosas, a cabeça está à frente de todas as situações. Quanto maior a cabeça, maior a sensibilidade por parte do indivíduo, afinal de atrito e calor se faz o gozto mais individual. Por parte da posição das cabeças Miro avaliava a resistência e disponibilidade de cada um, uma vez que cabeça mole pende sempre para baixo e portanto denuncia o pescoço alheio como qualquer coisa que não rijo e vantajoso. Quanto mais Miro avaliava o alheio, mais procurava sentir à sua própria cabeça para que tivesse absoluta certeza de que ela não o decepcionaria. De resto, para além de cabeças e análises sem fôlego, o filme rolava.
Rola em uma cena em que rola em um terraço de um homem que não suportava ficar duro quando via que no chão de sua casa está a mulher a lhe pedir tostões, e lhe dava esporro. Ficava louco por saber que ao chão estava a mulher por ser bem centrada, embora não estivesse com os pés no chão. De tão centrada o homem ia às nuvens negras com a presença não apenas de alma mas também de corpo dela, o que o fazia subir ao terraço através de degraus de graus insanos, já que para ela devia por toda a vida os seus tostões.
E vidrado Miro assistia à cena que cada vez o tocava com mais profundidade, principalmente por ter uma cabeça de tanta sensibilidade. Aos poucos Miro se via afogando-se na cadeira confortável e acolhedora e ia se afundando em seu tecido quente enquanto pregava seus pés entre os vãos da cadeira da frente e arrastava seu corpo cada vez mais adentro e mais à fundo na cadeira funda enquanto sentia sua cabeça sensível tocar à parede comprimida que de tão comprimida gerava calor entre sua voz e sua percepção, e Miro se via cada vez mais alucinado pelo sentimento de estar à fundo nesta cena profunda.
Enfim o pagamento em cena do filme que rola dentro de todas as entranhas de Miro que, apesar de tudo, gosta, foi terminado com genialidade à menção de que o homem pagara a si mesmo e à mulher que o cercava pela frente, em sua casa. O terraço desaparecera de vista já que climaxado e a mulher centrada e também Miro, que agora relacionava-se tão intimamente dentro da cadeira que podia ser confundido com ela. Seu surto inviolável com a cena e com a situação era tamanho que por motivo de causa maior ou menor, porém sem dúvida esporádico, o cinema inteiro piscou todos os seus buracos, acendendo todas as luzes piscando pulsante todas as cabeças e apagando todo o filme que Miro piscava por dentro da cadeira que agora ia adentro dele infinitamente esporádica, até que todas as luzes se apagaram.