16 de junho de 2012

O Varal


As roupas estavam no varal. Alguém teria de tirá-las da corda e esse alguém era dona Maria, que trabalhava e ganhava para isso, o que lhe dava corda para interagir com a corda. No entanto parecia descontente com suas habilidades, sobretudo físicas, e deitara-se de véu em pranto em uma cadeira em que mal cabia. Sabia que se sentasse nunca mais levantaria, mas escolhera o abandono às roupas que a si mesma. Abandonou a si própria na cadeira da lamentação, que nunca mais a permitiu ter como amigas as roupas encharcadas de suor do seu trabalho rústico de anos a fio de costura com a qual a seda das outras lavadas era entrelaçada pelas cordas. Nunca mais levantaria um dedo do pé torto pois não andaria de cangaço ao varal que de tanto pendurar acabou por pendurar-se a si mesmo sem prestações de conta com dona Maria que, até o último instante, além daquele em que recorrera a cadeira, esteve também pendurada e, no entanto, caíra enquanto o varal a pendurava.

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