31 de janeiro de 2012

Éulengie

O sol não chega fixo no horizonte chapado na paisagem pintada no céu redondo espiralarte achatado por montanhas refletidas pelo mar sozinho no espaço anexo ao chão infinito pelo ar concentrado inexistindo sol não chega à frente mas ao lado. E apenas ao lado.

20 de janeiro de 2012

Quádruplas


Percebe-se eventualmente
a verdade das paredes quádruplas.
Não são quádruplas por natureza
embora quadrúpedes de fato as habitem,
tomando por certeza que uma construção
por mãos de quadrúpedes antinaturais
que a construir portam-se de pé
em dois de seus quatro pés
não é antinatural e sim originalíssima
tendo em vista a visão pouco vasta
de quadrúpedes que naturalizam à primeira instância
entidades quaisquer postas em terra no mundo.
            Entende-se que as paredes quádruplas
tão insignificantemente difundidas
pela vida habitável assumem caráter
de simplicidade simbólica, uma vez que
quadrúpedes tem para si que só são quadrúpedes,
mesmo quando em duas patas,
em suas naturalíssimas paredes quádruplas no corpo.
            É evidente que se paredes quádruplas
o quadrúpede criou, foi pensando em si mesmo.
O construtor longínquo teve decerto
dificuldade em decifrar que para casa
e ambientes privativos, nada mais simbólico
que a própria caixa quádrupla
com a qual ele metaforizava.
Teria sido intrínseco ao quadrúpede humano
a realização sólida de seus devaneios
nunca revelados e continuadamente cogitados
pelas vinte e quatro horas criadas
de todo o tempo também simbólico
pelo qual ele se regrava.
O quadrúpede tinha para si
que simbolismos poucos como paredes
e templos e carruagens e praças e aeronaves
e cadernos eram apenas símbolos
àquilo que ele contaria de imediato
em vida: tinha por certeza como dois mais dois
são quatro e pouquinho que estaria de sempre
protegido por testa, têmporas e nuca
que lhe firmavam os pensamentos quádruplos
e para o inferno com paredes segundas
ou terceiras, porém não quartas, mas quádruplas,
pois de casas e fechamentos não precisava
o quadrúpede tendo nota de que mesmo
em meio à trupe, à plebe ou à rodoviária,
o quadrúpede contaria ad infinitum
consigo mesmo.

8 de janeiro de 2012

Espiritualizando Dé Preto

Por conversas de telefone Dé transita embora passe por todas intacto já que a cobrar de seu correspondente vocal. Mesmo que cobre dos seus confidentes cobra mais a si mesmo por ouvir o que não quer e ter de digerir considerações que não pudera pensar em lidar neste momento específico da vida de subordinação às massas e ao individual que por tanto se torna inclusive maciço perante a Dé, a ponto de deixá-lo se sentir pequeno perto do seu subconsciente seletivo. Dé por vezes prefere não se intrometer no quebra-cabeça da sua vida, o que o leva a desconsiderar sua espiritualização diária. Desespiritualizado Dé torna-se vazio dia a dia até que perceba por conversas por telefone que precisa de novos motivos para viver. Trata-se de aprender a interpretar seus sonhos por si mesmo, sem qualquer interferência por qualquer que seja de terceiros que creem saber muito da vida. Trata-se de aprender a fazer em vez de apenas analisar e portanto tornar-se -mente ativo. Trata-se de escolher ideias específicas e as vestir na testa em cor vermelha para que não haja dúvida para terceiros que se dizem queridos pelas costas de quem muda. Dé precisa encontrar-se em meio às conversas. Conversa não certo do quê, e embora abstraído pela noite, preocupa-se. Busca paz em si antes de tentar fazer a vida acontecer. O que acontecer há de deslizar em vez de ser empurrado pelas mãos de Dé que, apesar de tudo, cansaram-se de segurar telefones. 

7 de janeiro de 2012

Miro Vai ao Cinema


            O fundo é sempre mais confortável que o ralo ou o quase dentro. O ralo é superficial e permite apenas a simulação de uma emoção gasta de experiência, principalmente aquelas que acontecem com freqüência, e o quase dentro significa que “o quase nunca está no meio, ele sempre pesa para um lado”, ou seja, para fora. Por isso o fundo é, além de tudo, mais atraente ao olhar alheio e ao olhar de qualquer um que, ao entrar em uma sala de cinema, senta-se na última fileira de cadeiras, aquela encostada à parede e portanto a mais funda, embora comprimida.
           Senta-se à última fileira o querido Miro desafilhado. Escolhera a dedo o filme que agora era exibido por cima de sua cabeça e à frente de seus olhos em uma tela de projeção absurdamente insolúvel por inteiro, como aquelas vezes em que, por menor que o objeto seja, consegue aprofundar-se em grandes planos côncavos e debruçar-se por completo enquanto preenche aos poucos toda a superfície funda. Escolhera também a dedo o lugar em que sentava, afinal para um filme com elenco tão esplendoroso, apenas tecido fundo poderia dar-lhe a dimensão exata daqueles que eram passados na tela.
            Miro recorda-se que ao escolher da última fileira a cadeira central, e portanto a mais propícia a tê-lo afundado em derretimentos sempre para os lados, sentira-se, como sempre, o único aventurado naquela sessão, embora conseguisse avaliar detalhadamente todas as silhuetas de cabeça à sua frente. De primeira instância avaliava já com metade dos conceitos pessoas que se sentavam em algum lugar que não da última fileira. De outra forma poderia conceituar pessoas apenas pelo tamanho ou posição de suas cabeças, o que, no entanto, lhe dizia muito à queima-roupa.
Não importava o tamanho do corpo se a cabeça não fosse valiosamente maior que qualquer outra parte, já que para sustentação e quebra de entradas sigilosas, a cabeça está à frente de todas as situações. Quanto maior a cabeça, maior a sensibilidade por parte do indivíduo, afinal de atrito e calor se faz o gozto mais individual. Por parte da posição das cabeças Miro avaliava a resistência e disponibilidade de cada um, uma vez que cabeça mole pende sempre para baixo e portanto denuncia o pescoço alheio como qualquer coisa que não rijo e vantajoso. Quanto mais Miro avaliava o alheio, mais procurava sentir à sua própria cabeça para que tivesse absoluta certeza de que ela não o decepcionaria. De resto, para além de cabeças e análises sem fôlego, o filme rolava.
Rola em uma cena em que rola em um terraço de um homem que não suportava ficar duro quando via que no chão de sua casa está a mulher a lhe pedir tostões, e lhe dava esporro. Ficava louco por saber que ao chão estava a mulher por ser bem centrada, embora não estivesse com os pés no chão. De tão centrada o homem ia às nuvens negras com a presença não apenas de alma mas também de corpo dela, o que o fazia subir ao terraço através de degraus de graus insanos, já que para ela devia por toda a vida os seus tostões.
E vidrado Miro assistia à cena que cada vez o tocava com mais profundidade, principalmente por ter uma cabeça de tanta sensibilidade. Aos poucos Miro se via afogando-se na cadeira confortável e acolhedora e ia se afundando em seu tecido quente enquanto pregava seus pés entre os vãos da cadeira da frente e arrastava seu corpo cada vez mais adentro e mais à fundo na cadeira funda enquanto sentia sua cabeça sensível tocar à parede comprimida que de tão comprimida gerava calor entre sua voz e sua percepção, e Miro se via cada vez mais alucinado pelo sentimento de estar à fundo nesta cena profunda.
Enfim o pagamento em cena do filme que rola dentro de todas as entranhas de Miro que, apesar de tudo, gosta, foi terminado com genialidade à menção de que o homem pagara a si mesmo e à mulher que o cercava pela frente, em sua casa. O terraço desaparecera de vista já que climaxado e a mulher centrada e também Miro, que agora relacionava-se tão intimamente dentro da cadeira que podia ser confundido com ela. Seu surto inviolável com a cena e com a situação era tamanho que por motivo de causa maior ou menor, porém sem dúvida esporádico, o cinema inteiro piscou todos os seus buracos, acendendo todas as luzes piscando pulsante todas as cabeças e apagando todo o filme que Miro piscava por dentro da cadeira que agora ia adentro dele infinitamente esporádica, até que todas as luzes se apagaram.