16 de junho de 2012

O Varal


As roupas estavam no varal. Alguém teria de tirá-las da corda e esse alguém era dona Maria, que trabalhava e ganhava para isso, o que lhe dava corda para interagir com a corda. No entanto parecia descontente com suas habilidades, sobretudo físicas, e deitara-se de véu em pranto em uma cadeira em que mal cabia. Sabia que se sentasse nunca mais levantaria, mas escolhera o abandono às roupas que a si mesma. Abandonou a si própria na cadeira da lamentação, que nunca mais a permitiu ter como amigas as roupas encharcadas de suor do seu trabalho rústico de anos a fio de costura com a qual a seda das outras lavadas era entrelaçada pelas cordas. Nunca mais levantaria um dedo do pé torto pois não andaria de cangaço ao varal que de tanto pendurar acabou por pendurar-se a si mesmo sem prestações de conta com dona Maria que, até o último instante, além daquele em que recorrera a cadeira, esteve também pendurada e, no entanto, caíra enquanto o varal a pendurava.

3 de junho de 2012

A Viagem de Ônibus


A viagem de ônibus não chega a ser incrível, mas supre as suspeitas de que comporta-se ao menos como intrigante, já que silenciosa. A quebra do silêncio ocorre a partir do momento em que uma melodia polifônica, também conhecida como música de elevador, soa em algum canto específico do ônibus como nostalgia forçada junto às imagens em tons de sépia graves, como os da música, e que passam por aquelas janelas ainda abertas. No entanto, pelo fato de que o ônibus é um ônibus e não um elevador, não cabe a música de elevador como digna invasora do silêncio instituído e, portanto, o silêncio, apesar da música, continua a instituir-se. Intui-se que do silêncio partam dois extremos então inenarráveis no ambiente: o sentir-se vazio ou o se sentir desconfortavelmente incompleto de ideias. Embora se relacionem, vazio e rebuliçado de ideias incompletas não se equivalem. Para conter explicações maiores, existem dois tipos de resultado possíveis para vazio e incompleto: o incompleto ocorre quando a solução de todos os problemas encontra-se ao lado e apenas ao lado, sem possibilidade de incorporação ou propriedade, enquanto o vazio ocorre quando não existe solução nem ao lado nem em lugar algum, seja do ônibus ou da estrada ou das imagens da janela ou do sol que não chega fixo no horizonte chapado na paisagem pintada no céu redondo espiralarte achatado por montanhas refletidas pelo mar sozinho no espaço anexo ao chão infinito pelo ar concentrado inexistindo sol não chega à frente mas ao lado, e apenas ao lado. Silêncio por falta de plenitude, portanto.