24 de agosto de 2012

Deséulengia


Todo esse tempo, que enquanto vem traz esse vento, que enquanto bate na areia barrosa a faz voar como o pó mais fino, embora os grãos grossos não sejam dispersão, afinal os carros passam errantes galantes pouco impactantes, ante a visão pura desse reflexo branco, que como espelhos redirecionam o foco e o desfoco, conforme toca a música do motor ao fundo, de acordo com a vontade de quem por si só trabalha, nem tempo nem vento de pensar no vento, que continua a tocar a pele e a barra da calça, de tão suave entrando por dentro da costura melhor de arremate, e lambendo sem líquido algum os pêlos de pouco a muito grossos, de poucos a muitos por todas as pernas, e nem o vento, que não apenas compõe como rege a cena, de cenário chapado da montanha ao sol e à sombra do céu, que não é azul mas também não é branco, não consegue nem o vento desviar a atenção da palpitação rápida, de segunda e terceira intenção do olhar máximo, e de tão breve é tão intenso ao par, o par que poderia ser perto mas é longe o par de sapatos roxos, de tanto olhar gordo para os cadarços desamarrados que de tão livres, para mim deveriam balançar não com outros mas apenas com o meu vento.

19 de agosto de 2012

Vespertino


Quem tem graça anda atrás de água
Quem anda atrás de água anda filtrado
Quem anda filtrado é lerdo por natureza
Quem é por natureza anda
Quem anda passa pelo corredor
Quem passa pelo corredor sai pelos quartos
Quem sai pelos quartos tem o corredor em si
Quem tem o corredor em si anda por quem anda por ele
Quem anda por ele anda junto
Quem anda junto acaba cagado
Quem acaba cagado vai ao banheiro
Quem vai ao banheiro passa pela câmera
Quem passa pela câmera é flagrado
Quem é flagrado acaba por reiterar a cagação para dentro
Quem caga para dentro tem graça
Quem não tem graça não anda atrás de água
Quem não anda atrás de água não anda filtrado
Quem não anda filtrado não é lerdo por natureza
Quem não é por natureza não anda
Quem não anda não passa pelo corredor
Quem não passa pelo corredor não sai pelos quartos
Quem não sai pelos quartos não tem o corredor em si
Quem não tem o corredor em si não anda por quem anda por ele
Quem não anda por ele não anda junto
Quem não anda junto não acaba cagado
Quem não acaba cagado não vai ao banheiro
Quem não vai ao banheiro não passa pela câmera
Quem não passa pela câmera não é flagrado
Quem não é flagrado acaba por não reiterar a cagação para dentro
Quem não caga para dentro não tem graça

17 de agosto de 2012

Houve o Tempo do Mar


Houve o tempo em que nasci
à beira-mar ouvi o som do quebrar
e senti o cheiro do esforço que fiz
chegando a ver a praia de mar.

Houve o tempo em que fui batizado
às margens da espuma espelhar
de uma onda milenar, quebrada
que descobri chamar-se ela “o praiar”.

Houve o tempo em que a areia
atolou-me forte a joguei para o ar
fazendo-a rolar grão a grão abaixo e com ela
estirávamo-nos em direção à água-mar.

Houve o tempo em que cavei
a areia bisbilhotei as conchas
vivas de pesar amantes entre si
voltavam sempre comigo ao mar.

Houve o tempo em que mergulhei
nadando ondas fundas fundadas
à jacarés voadores voavam
em direção à areia atolada.

Houve o tempo em que aprendi
conseguir boiar e me deixar
levar a mim comigo até que
o mar engolisse a nós dois e ao mar.

Houve o tempo em que andava
sozinho ia à praia sozinho
afogar problemas absorvidos
absolvidos convectivos ao mar.

Houve o tempo em que pontais
íamos pontuais subir e descer
e escalar e se deixar ter
a saudade de nós e do mar.

Houve o tempo em que três
a esperar quatro ciclos
de areia solar cor solar
resultava em mergulhos no mar.

Houve o tempo em que interior
izei-me e de lado na cabeça deixe
ei izar o que depois no corpo guarde
ei todas as lembranças do mar.

Houve o tempo em que arrancado
sofri uma raiz hermética em postar
se em terra plana ela houve de estar
á esta a mil distâncias do mar.

Houve o tempo em que perceber
apesar de todos os tempos do ser
somar em um único eunuco ter
em si a continuação do mar. 

Houve o tempo em que cheirar
meu relógio continua a exalar
a continuar o exalo do cheiro
cheira ainda à maresia do mar.

Houve o tempo em que cheirar
meu relógio passou a exalar
além do exalo do cheiro do mar
um exalo preto longe incorporado.

Houve o tempo em que o emborrachado
cheiroso porque ainda cheira
em sépia relógio ainda arde na pele
amortecida de dor mas não de calor.