2 de novembro de 2013

Não Choveu em 02.11

Não há parâmetro espectral para o sol. Nem para o azul que desce à hora do verão e fica limpo como se o céu estivesse sempre limpo, e não houvesse nuvens nem a ideia de nuvens. Anda por baixo olhando para cima e repara que não há geometria sequer na mutabilidade inesgotável das nuvens que não existem. A tara que tem pela forma reflete o azul que desce escuro depois de ter estado claro e também as nuvens que caminham em absolutamente todas as direções, menos para baixo. Repara que as nuvens são fluxos de coisas que podem ser tantas coisas que circundam suas existências e desistências, e suas desistências com suas desistências são tão igualitariamente compatíveis que não se misturam por nada que seja natural nesse mundo estranho e geométrico do ponto de vista humano e humanitário. As cores não são à toa. Nenhuma cor existe por existir como se os dois focos de luz amarela de um poste lançassem frequências bolhadas e familiares porque fossem. Lançam para lembrar as viagens e as estradas e as infinidades múltiplas de postes sequenciais que passam mas não findam nem que feche os olhos, como se a frequência de luz ultrapassasse a barreira do não querer olhar e o preto celestial que se atinge se tornasse inconsequentemente amarelável. Chega ao ponto de entender que tudo é construção humana mesmo que as cores funcionem. Se memórias representam luzes amarelas que não as solares por estradas de asfalto então a memória é construção humana. Fica triste porque entende que à noite o céu pode ficar roxo e que a erva mate, a água e o limão podem combinar. Anda ainda olhando ainda para cima porque percebe mais perceptivelmente que gira mais o sol que a terra e que estão plenos de sentidos comparáveis, como a existência inexplicável de aspartame. Pergunta o que na terra é por natureza se até o sol que é autêntico é facilmente decifrável por relógios.

7 de junho de 2013

A Vida Déspota

Decidiu que a corda lhe irrita e resolveu tirar a corda. Decidiu também que quando não fica claro o que lhe irrita, não é bom ficar pensando sobre pra tentar descobrir. Se não está é porque não é pra saber. Pensar demais quebra o sentimento porque aí as pessoas querem meter o nariz onde não foram chamadas e olha que o seu nariz é grande e seu queixo fino e seu olho gordo afinal comer demais não engorda: mata. Com o tempo certas coisas tomam proporções que não dá pra concordar, tipo Mentos & Coca-Cola que não se misturam a princípio, a não ser que você queira levar um banho de gás na cara. Dor de barriga mental. Bagunce suas cores juntas para que fique tudo branco para sempre. O cara pode ser chato legal feio bonito gordo magro alto baixo triste feliz bobo sério bem ou mal humorado, mas se for vazio não tem salvação. Assim como a última bolacha, existe a primeira: aquela que todo mundo come e esquece. A primeira se come com muito gosto mas depois tem a segunda, terceira, a quarta. Até o pacote acabar é um caminho tão grande. Essa confusão toda não passa de saudade. Nada mais sugestivo que sonhos e tirar vantagem da estação para tirar o seu casaco e todas as suas roupas. Sua barriga pulsa tanto quanto seu coração. Ser avaliado pelo que ouve, ser adaptado pelo que ouve, adaptar-se pelo que se ouve: vamos sentir mais do que ouvir – você nunca ouve o que sente. Tipo você ainda pode se arrepender de não ter compartilhado o que tem de errado com você, porque o que tem de bom é claro e não é novidade. No escuro tudo é da mesma cor. Funeral ao longo do ano já viu o trajeto e é a primeira vez que vejo esse t r  a   j    e     t      o. Polaridades masculinas e femininas com quedas na lua e no moderno, perfeitamente inútil para alguns o que lhe vale o mundo num dia. São situações e ocasiões que marcam o humor do dia-a-dia porque vamos combinar: acho que seu espírito continua intacto. Sua missão é descobrir em quantos segundos constantes está atrasado o seu relógio. Até quem não tem nome composto tem o direito de ter dupla personalidade. É difícil pensar em alguma coisa em formato de cama que não seja uma cama. Queria uma praia deserta a frente do nosso tempo: o que não sai pela boca sai pelos olhos. Tanta preocupação em decorar e incorporar palavras numa sociedade em que as pessoas ainda têm olhos. A soma do calor de dois corpos resulta na soma do calor de dois corpos: alguma trivial discordância existia justamente entre o que eu fazia e a metade do que eu pensava fazer, já que a tesoura não abre sob pressão. Engraçado como a vida fez com que o seu canhoto seletivo coincidisse com o relógio denunciador dos seus movimentos. A frequência cardíaca é regulada por impulsos elétricos que podem variar de acordo com a situação emocional do indivíduo. Debaixo do chuveiro não se ouve nem se vê, está sentindo como se deitado encaixado de cabeça na plataforma mais confortável e tentam lhe tirar daqui batendo na porta. Não poder falar perguntar demonstrar sentir cheirar tocar olhar rir por falta de espaço e por excesso de gente acidentalmente inconveniente. Semimorto = semivivo. A nudez acaba com a nudez. Quando engole, não respira, seja agora, há uma ou duas semanas a mancha de sangue podia ser vista do espaço mas secou. Só não é melhor que aquele branco peludo que enrola nas pernas e esquenta tudo de melhor no mundo: tem dito que música instrumental é tipo lembrança que mesmo familiar se confunde porque é incompleta e que não pode existir nada no mundo que cure tanto quanto o mar. O que eu sei é que não sou vidente nem de coisas previsíveis e que descemos juntos na Alvorada. A diagramação naturalmente fora dos padrões de sua boca o caracterizava como tendo a única boca no mundo igual a sua própria, o que dói até bastante. Não sei se se trata do rio que já está fechado ou do alargador que não é mais branco ou do horário de verão que acabou e só volta em outubro. As pessoas não lembram nem pra sempre de uma nota boa, não tem nada mais difícil que desenhar uma espiral e por isso elas se projetam enquanto acontecem e de repente chegam prontas. Durma e sonhe, pesadelos você tem quando acorda desse sol que não chega fixo. Tem gente que prefere doce antes de salgado e tem gente que prefere salgado antes de doce mas tem gente que faz questão de misturar os dois. O formato e tamanho e tracejado e a inclinação e dimensão e espessura e direção da minha letra vão depender única e exclusivamente da caneta, afinal tudo é feito de alguma coisa que já não existe, absolutamente tudo. Seus pés estavam gelando e estão esquentando devagar com esse edredom que não é vermelho, é azul! Mas podia ser preto no branco. Seu relógio biológico está pedindo uns três dias de sono contínuo e umas nove voltas no passado. Quando a pessoa fica feia sem mudar nada na aparência, afinal é meio complicado gostar demais em fases em que as distrações têm que ser maiores do que a estabilidade das coisas. Na maioria das vezes rascunhos quanto mais antigos mais assustadoramente proféticos. Para quem acabou de descobrir o conceito de extemporaneidade e achou plausível, toda briga de novela mexicana termina no chão: está comprovado. Se você tem um sofá ou uma cama ou chão de folhas ou superfícies confortáveis: mal caber é melhor que caber. Exige criatividade. Que saudade de tudo. Parece que a vida foi embora.

23 de abril de 2013

Final de Abril

Meio que não anda
meio que não fala
meio que veio
a quem tende a vir
e mesmo vindo
pode não ter vindo
já que alguns podem
e outros não.
Meio que pode
meio que não pode
como quem tem certeza
e depois ilusão
ou carinhos que vêm
e se perdem
ou mesmo não vêm
e continuam perdidos
em fazer e desfazer
ou deixar de fazer,
deixar pra depois,
pra um minuto seguinte
que vai chegar
e chega como um minuto qualquer
e nada é desfeito
pois nunca feito.
Quando chega
passa.
Meio que passa.
Se não passa
então não podia ter chegado
e não chegou.
O carinho pode se perder
pode meio que passar
meio que vir
meio que estar
e ficar na cabeça

de quem faz as coisas pela metade
ou não faz
ignora
deixa de ver
finge que não vê
fecha os olhos
tapa o nariz
tranca a boca
etc

15 de março de 2013

A Cigarra


     A cigarra canta durante o sol.
Durante o sol há o verão amarelo
e o verão laranja
e o verão rosa
e publicamente o verão vermelho:
todos solares.
Todos os dias
e minimamente duas vezes ao dia
há sois nascentes e sois poentes.
Sois nascentes a que sois poentes
entre os verãos de baixo para cima
e de cima para baixo.
A cigarra canta para cada sol que nasce
e para cada sol que se põe.
Se a cigarra canta
em qualquer segundo do dia
em que não haja um sol que nasça
nem um sol que se ponha,
significa que está amando
e morrendo.

9 de fevereiro de 2013

Comendo Dé Preto


É tanto que não sabe mais. O pacote integral, puramente orgânico e comestível palpável e palatável, talvez saboreável indiscutível. Não sabe a quantas partes chegou, muito parecidas reconhecidas em Dé, sem Dé, o pacote. Fatias de cortes diferentes inigualáveis distinguíveis e amáveis por características puras não fundamentadas e fundamentais como suas organicidades. Tem a ver com a primeira fatia o primeiro pedaço da vida de um pão caseiro e integral, cortado com dentes e não com serras facas, especial pela dentada incorporada estagnada involúvel para sempre. Com a segunda fatia serrada, a medição calculada e com a terceira fatia de pão a completa surpresa portanto inesperada e impensável de se pegar o tamanho em largura altura que vem, e não que vai. Há Dé e há três fatias de pão integral puramente orgânico e comestível, todas devidamente palpáveis e palatáveis, talvez saboreáveis indiscutíveis. É tanto que entrou em colapso redondo: três fatias de pão integral sobrepostas enroladas pouco ou nada compactadas, sem mastigá-las: é como Dé pretende comê-las. Comê-las sem tê-las divisíveis é grande e doloroso como engolir de uma vez três fatias de pão integral sobrepostas enroladas pouco ou nada compactadas, sem mastigá-las. É tanto que sufoca mas tão pouco que não mata. Entre o sufoco e o sufocar, exatamente o ponto de não saber mais engolir, o que envolve comer palpar palatar saborear e indiscutir. Dé sente falta da certeza e do bem-estar. Está magro feio idiótico inconversável inconversivelmente apaixonado como nunca e mal comido.