29 de março de 2014

Carta Aberta

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já faz uns anos que, progressivamente, de forma dolorosa até, o Rio tem exercido algumas energias muito de extremos pra quem vive na cidade. Ultimamente tenho recebido uma infinidade desses estímulos urbanos que derrubam e reconstroem, que sujeitam o tempo à ressignificação imersa em uma constância já tão lotada de significados que fica difícil se reintegrar diariamente sem se perder pelo caminho. Falo muito no sentido da urgência e da falta de recreação da vida urbana. Os trajetos e os ofícios se repetem todos os dias, a margem pros acontecimentos variáveis parece sempre muito curta. A cidade penetra na subjetividade de quem circula muito especialmente quando a circulação é interrompida. E a interrupção é o fenômeno mais facilmente perceptível, muito por ser palpável às expectativas e muito por se intrometer no que representaria a ruptura com a rigidez do tempo cotidiano. Tenho pensado muito sobre a frustração contínua a partir daquilo que não se concretiza. Coisas simples, como correr pra pegar o ônibus e ele ir embora. Dar um bom dia e não receber outro de volta. Perder a estação porque não conseguiu passar entre as pessoas no vagão do metrô. Chegar em casa louco por um banho e não ter água. Deixar de encontrar alguém porque ficou preso no trânsito. Não saber como alguém é porque não tem tempo de conversar. Não saber como alguém se sente porque não tem tempo de conversar. Querer ficar com alguém e não ficar. Querer ir pra um lugar e ter que ir pra outro. Não andar nessa rua porque é escura. A sede por um mate mas só tem guaraná natural. O sono que se dorme que não é profundo e não revigora. Não dançar porque alguém observa. Querer pegar alguém no ônibus que você intui que quer te pegar e não se pegar. Coisas simples. São percepções sobre a tensão sexual que não se realiza fisicamente, em que o desejo não se materializa nem se abstrai. Sobre a tensão psicológica do que fazer ou deixar de fazer, do que priorizar, pra onde ir e pra quem dar atenção em um primeiro ou segundo momento. Sobre a tensão física de responder ao corpo ou à vontade, à anatomia ou ao espírito. São coisas potencialmente possíveis de serem realizadas que acabam sem realização. Como se existisse sempre a indução, o quase e o meio-termo e, ao mesmo tempo, a inconclusão. Como se dentro de um universo em que tudo pode ser, muito acaba não sendo por conta do sentimento de vulnerabilidade coerciva da vida urbana. É como se a pessoa está absolutamente enlouquecida pra escrever alguma coisa em caneta preta e procura insistentemente por uma caneta preta e em algum momento percebe que não vai encontrar. Então a pessoa se apropria da caneta azul que existe por perto, que também escreve, e escreve. O conteúdo acaba escrito sem que o ato de escrever tenha se concretizado, porque a tinta não é preta e sensorialmente não representa o mesmo conjunto de coisas. O não concretizável passa por esse tipo de sensação que machuca dia após dia. Um fenômeno vivo que atravessa constantemente o sentimento de passividade da vida urbana é o trânsito. Raramente tem levado menos de duas horas pra ir de qualquer ponto a qualquer ponto do Rio em horário comercial. De transporte público principalmente. A impressão que tenho tido cada vez mais é que a sensação diária de incapacidade de locomoção estagna as pessoas e as automatiza ao passo em que monotoniza seus perfis de consciência e seus estilos de vida. O trânsito tem sido um grande objeto de abstração pra muitas das impressões diárias que pego desse Rio cada vez mais em processo de reformulação estrutural, estética, social e organizacional. Parece um Rio menos natural que antes. Obviamente menos fluido. Nesse sentido, o trânsito, a cidade e o urbano têm funcionado como importantes apropriações pra mim. A sonoridade contemplou muito do sentimento contraditório e angustiante de pertencimento ao mesmo tempo em que não pertencimento à cidade e às articulações do que é viver num coletivo quase estático e protecionista, no sentido de que o individual prevalece à noção do todo. A questão é que sempre tive uma relação muito íntima com imagem enquanto memória e representação afetiva das histórias e das motivações que levam uma pessoa a ter saudosismo da própria vida. A memória em si não deixa de ser uma imagem em construção e desconstrução sempre: um momento da vida que não passa despercebido embora ironicamente tenha a pretensão urbana de ser a própria despercepção. Julguei importante tentar fazer esse contato pra ver se todos esses estímulos têm base pra render.

Muito sincera e afetivamente,

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